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MONKS

Monks é a marca operacional global, data-driven e nativa digital da S4 Capital plc. Em todo o mundo, conta com mais de 6,5 mil profissionais, sendo 1,4 mil no Brasil. Oferece um portfólio completo, de soluções criativas a performance, sempre digital-first e baseadas em dados, criando experiências feitas para serem compartilhadas em pontos de contato eficazes. Entre seus clientes no Brasil figuram Google, Hotmart, Leroy Merlin, Magazine Luiza, Natura, Netflix, Nubank, Pringles, RD Saúde e Sucrilhos.

A criatividade do futuro nasce das raízes do presente – A próxima revolução criativa não será global: será local

Publicado em 05/01/2026 (115 dias atrás)

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A criatividade do futuro nasce das raízes do presente – A próxima revolução criativa não será global: será local

Vivemos um tempo em que tudo parece ter saído da mesma fábrica de referências. Sons, vídeos, trends, poses, legendas. O feed virou um espelho infinito, refletindo versões ligeiramente diferentes da mesma ideia.

E o mais curioso é que nem estou falando de inteligência artificial. Estou falando da cultura dos algoritmos, que alimenta e molda o que chamamos de criatividade. É um sistema que nos empurra para o que funciona, o que engaja, o que se repete.

No meio desse mar de semelhanças, o desafio não é mais criar algo novo: é resistir à tentação do ‘mais do mesmo’. Mas podemos, sim, criar nosso futuro baseado na ancestralidade, como nos provoca o líder indígena Ailton Krenak.

Precisamos reconhecer que o futuro já está presente, enraizado nas sabedorias que nos antecedem. Criar olhando para o local, para o que nasce da experiência e da vivência real das pessoas, é um ato de resistência criativa. Não se trata de romantizar o passado, mas de entender que há uma força latente nas comunidades, nas expressões regionais, nas histórias que ainda não foram transformadas em um conteúdo ‘otimizado’.

O poder do que é local
Hoje, com as plataformas digitais, o conceito de nicho deixou de ser sinônimo de pequeno. O que antes era ‘alternativo’, agora move multidões. Liniker é um exemplo disso: alguém que nasceu no chamado nicho e que, com sua verdade, lotou o Anhangabaú. Isso não é nicho: é potência.

Costumamos chamar isso de fandoms. Mas eles não são nada além do que grandes comunidades de pessoas apaixonadas por algo específico. Fãs de K-pop, de novela turca, de pagode retrô, de moda afro-baiana – o que une todos eles é a autenticidade. E é exatamente aí que as marcas precisam estar: não tentando agradar a todos, mas assumindo uma personalidade.

A criatividade relevante vem do encontro entre o que é profundamente local e o que é universalmente humano. É por isso que movimentos como o da Dendezeiro, em Salvador, são tão inspiradores. Eles constroem uma moda radicalmente autêntica, moderna e, ao mesmo tempo, enraizada. Fazem collabs com marcas como Havaianas e Zerezes e, assim, mostram que é possível ser local e global, autêntico e massivo (e tudo ao mesmo tempo).

Resistir com alma
Quando falamos em resistência criativa, não estamos falando de discurso. Estamos falando de alma. Tudo o que é apropriado soa vazio. Pode até enganar por um tempo, mas não se sustenta. Um exemplo é o trabalho da Gaby Amarantos no álbum gravado em Jurunas, na periferia de Belém. É uma obra que carrega o território em cada nota, cada imagem, cada respiração. Isso é o oposto da apropriação. É o que só existe quando o criador é parte da história que está contando.

Muitas marcas ainda tentam replicar estéticas e símbolos locais sem incluir as pessoas que realmente fazem parte desses movimentos. O resultado? Campanhas que parecem corretas, mas não emocionam. Porque faltou o essencial: o controle criativo nas mãos de quem tem a vivência.

De buzzword a atitude
Por outro lado, ‘resistência criativa’ pode facilmente virar mais uma buzzword bonita de palco. Mas quando uma marca entende o que representa e tem coragem de bancar uma visão de mundo, ela se conecta com públicos gigantescos de forma verdadeira. O alcance, hoje, não vem do grito mais alto, mas da ressonância mais sincera. As colaborações entre marcas e agentes culturais locais são uma ótima forma de exercitar isso. Elas não apenas legitimam o discurso, como geram aprendizados profundos sobre pertencimento, linguagem e propósito.

O futuro já está aqui
Por isso, a inspiração na ancestralidade não deve ser tratada como um elemento estético ou caricato. É sobre reconexão. Sobre entender que talvez o futuro não esteja na próxima trend global, mas nas narrativas que brotam das nossas próprias raízes.

Por que buscar a próxima grande tendência mundial quando podemos olhar para o que está florescendo aqui, agora? Zaynara, Léo Foguete, Os Garotin, a cena de Recife, o rap de Manaus, o afrofuturismo de Salvador. O Brasil inteiro pulsa criatividade: e a publicidade precisa parar de tratar isso como ‘regional’. Uma campanha feita no Pará não é regional. É local. É precisa.

Criar com verdade é entender o que move as pessoas onde elas estão. É sair do eixo e enxergar o país em todas as suas camadas, sotaques e expressões. O futuro pode até ser ancestral: mas o presente, sem dúvida, é muito mais interessante quando é local.

Paulo Yanaquizawa, executive creative director da Monks