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Agentic AI na mídia: por que você deveria entender o AdCP

Você deveria dominar o AdCP, que permite que agentes de IA façam planejamento, trading e troubleshooting de mídia programática

Lucas Reis

Diretor de Assuntos Governamentais do IAB Brasil e Fundador da Zygon Digital 19 de abril de 2026 - 9h00

O método programático automatizou com maestria a execução de impressões: leilões em milissegundos, otimização de bid, frequency capping, viewability. Mas tudo o que fica acima dessa camada — negociar um deal direto com um publisher, decidir como distribuir verba entre canais ao longo de uma campanha, resolver discrepâncias técnicas entre ad server/DSP/SSP, renovar um programmatic guaranteed — continua sendo trabalho humano, intensivo, relacional e, por isso, impossível de escalar.
É esse o gap que o Ad Context Protocol, o AdCP, veio resolver.

O que é o AdCP

Lançado em outubro de 2025 por um consórcio de mais de 23 empresas — Yahoo, PubMatic, Scope3, Samba TV, entre outras —, o AdCP é um protocolo aberto que estabelece uma linguagem comum para que agentes de IA possam descobrir, planejar, negociar, comprar, vender e mensurar mídia de forma autônoma, em qualquer canal. Ele foi construído sobre o MCP (Model Context Protocol, da Anthropic) e frameworks de comunicação agent-to-agent, e é governado pela AgenticAdvertising.org, uma organização do setor criada para esse fim.

A analogia mais honesta é com o OpenRTB. Quando o OpenRTB surgiu, ele criou a gramática comum que permitiu que DSPs e SSPs se entendessem — e isso destravou o mercado programático como o conhecemos. O AdCP propõe fazer o mesmo, mas numa camada superior: não a gramática do leilão de impressão, e sim a gramática da negociação de campanha.

As três cadeiras que os agentes passam a ocupar

Para entender o que muda na prática, vale pensar em como um plano de mídia digital costuma ser operado hoje. Existem, grosso modo, três papéis distintos: o head de mídia, que define estratégia e negocia deals com publishers, redes e pltaformas; o trader, que gerencia a execução no DSP e otimiza o leilão em tempo real; e o ad ops, que faz o setup e resolve os problemas técnicos que inevitavelmente aparecem — discrepâncias, criativos não servindo, pixels quebrados.

São três cadeiras ocupadas por três perfis diferentes, com agendas diferentes, muitas vezes em reuniões diferentes. O que o AdCP habilita é que agentes de IA passem a ocupar as três simultaneamente, em fluxo contínuo.

Um agente comprador, guiado pelos parâmetros de uma campanha, pode iniciar uma negociação diretamente com os agentes dos publishers — propondo audiências, formatos, placements, flights e CPM-alvo, recebendo contra-ofertas, ajustando condições e fechando o deal, tudo em linguagem estruturada e auditável. Durante a campanha, esse mesmo agente pode redistribuir verba entre canais com base em performance real, retirando budget de quem está entregando abaixo do KPI-alvo e ampliando quem está indo bem. E quando surge um problema técnico, o agente diagnostica, aciona a contraparte e executa a resolução — sem abrir um ticket e esperar 48 horas.

A melhor ilustração prática vem da própria documentação do protocolo: um anunciante pode brifar o agente com algo como “quero alcançar mulheres interessadas em escalada em São Paulo, com foco em conversão, budget de R$ X ao longo de seis semanas” — e o agente traduz isso em negociações reais com o sell side que falam a mesma língua, inclusive otimizando a esta cadeia (o famoso SPO).

O que sobra para o profissional de mídia

Essa é a pergunta que o mercado ainda não está fazendo com a seriedade que merece. E a resposta não é “nada” — é “o que importa de verdade”.

Se os agentes assumem a execução da negociação, a otimização em voo e o troubleshooting, o profissional de mídia deixa de ser o operador do processo para se tornar o arquiteto dele. É ele quem define os critérios que orientam o agente: quais publishers são aceitos, quais contextos de brand safety são inegociáveis, qual a tolerância de variação de CPA antes de uma redistribuição de budget, em que situações o agente deve escalar a decisão para um humano.

E, no lado mais visível para o cliente, o profissional que hoje passa boa parte do tempo clicando em botões e resolvendo problemas operacionais, passa a ter tempo real para estar com o anunciante — entendendo o negócio, traduzindo objetivos de marketing em estratégia de mídia, interpretando resultados com contexto estratégico.

Pode parecer que isso significará uma perda de vagas, mas façamos um paralelo com o mercado financeiro: 30 anos atrás, eram as pessoas que, aos gritos, fechavam as negociações de ativos na bolsa. Hoje, boa parte do volume negociado é feito por robôs (os quants). Mas o setor emprega mais gente hoje, seja porque ampliou as posições de planejadores e assessores, porque criou mais demanda por research, porque se especializou e criou fundos de teses específicas… enfim, como sempre, toda vez que uma máquina passa a fazer o que tomava nosso tempo, descobrimos que temos muitas outras coisas a fazer.

O protocolo ainda não é padrão — e isso importa

O AdCP é promissor, mas não é hegemônico. O setor vive hoje uma disputa relevante de padrões: de um lado, o consórcio da AgenticAdvertising.org e seu protocolo nativo para agentes; do outro, o IAB Tech Lab, que está desenvolvendo seu próprio “Agentic Roadmap” — uma abordagem que busca adaptar os padrões existentes do mercado, como o próprio OpenRTB, para o mundo dos agentes de IA.

A compatibilidade entre os dois caminhos ainda está em aberto. Pode haver convergência, pode haver coexistência, pode haver uma batalha de adoção ao longo dos próximos anos. Vale destacar que os gigantes (Google, Meta e Amazon) estão apenas observando essa discussão, sem se posicionar.
Para agências, anunciantes e publishers nacionais, entrar no jogo quando a regra não está definida é uma oportunidade. O mercado brasileiro é um importador de adtech há décadas. Se posicionar pode ser uma forma de ter maior protagonismo e, eventualmente, se tornar exportador de tecnologia.