SXSW

Let’s get lost

Aquela sensação de que você não vai conseguir ver tudo. E cá entre nós: é humanamente impossível ver tudo.

Zico Farina

Diretor de Criação da Artplan em São Paulo 8 de março de 2017 - 18h25

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Onde vão parar as coisas que lemos? Acabando o português Gonçalo M. Tavares, Uma Menina Está Perdida No Seu Século à Procura Do Pai, me veio essa pergunta. Não é a primeira vez que ela aparece. Mas hoje voltou mais forte. Cá entre nós: quantos livros já lemos? Outros relemos. E? E pergunto: onde tudo aquilo foi parar? Você consegue lembrar das páginas com frases rabiscadas, sublinhadas com lápis, marcadas com dobrinhas nas pontas para jamais esquecer a passagem? Aquilo que lemos e que de alguma forma ou de outra iria mudar a vida.

Filmes. Quantos diálogos ficaram marcados por segundos como uma revelação e se evaporaram? O nome do filme? Como era mesmo? O ator? Peraí, era o… ? Não vem.

Tudo isso veio à tona agora. Na hora que comecei a bookar as palestras, os filmes e as bandas para ver no SXSW.

Aquela sensação de que você não vai conseguir ver tudo. E cá entre nós, de novo: é humanamente impossível ver tudo. Eu sei. Você sabe. Todos nós sabemos. Mas como lidar com a nossa ansiedade que acha que tudo pode?

De palestras de ‘Carros Sem Motoristas’ à ‘Uma vida em Marte’, veio uma outra reflexão: será que isso também não acontece com as marcas que trabalhamos?

Essa amnésia instantânea.

Esse vazio que dá logo após ver um vídeo no Youtube, um post no Facebook, um gif no Instagram.

Eles vêm, enchem sua tela, preenchem sua mente por segundos e depois desaparecem. A maioria para sempre.

Seria muita pretensão achar que o que fazemos na indústria da comunicação tenha algo de tão relevante para jamais ser esquecido.

Por mais que se criem métricas e mais métricas para medir resultados na comunicação, não dá pra levá-las tão a sério. Ou você acha que uma campanha testada num instituto de pesquisa daria o mesmo resultado se fosse testado em outro? Jura? Não, no fundo você sabe que não dá, mesmo acreditando que vai dar. Pode salvar nossos empregos. Mas cá entre nós mais uma vez: sabemos que não dá.

Data. Big data, small data, nofuckingsize data tentando nos provar que o que fazemos é lembrado, é curtido, é gostado, é compartilhado. Jura?

Se você viu o filme ‘Sully’, provavelmente vai lembrar quando o piloto está numa banca que quer provar que o seu procedimento de aterrissar no meio do Rio Hudson era errado, e se ele seguisse os dados dos simuladores de voo ele iria aterrissar tranquilamente, com duas turbinadas avariadas, em algum aeroporto perto do La Guardia. Os simuladores repetiram a mesma operação 17 vezes para que pudessem comprovar que dava. O coitado do Sully teve só 35 segundos. Ou 208 segundos. Viu? Já não lembro mais. Mas enfim, ter apenas 35 segundos uma vez para tomar uma decisão na vida real é bem diferente do que tentar 17 vezes num simulador de voo. Ele conseguiu e salvou 155 vidas. Incluindo a dele próprio.

A Tecnologia e os dados não podem nos deixar esquecer que por trás disso tudo existem pessoas. E é para elas que trabalhamos. Para elas que tentamos invadir as suas vidas sugerindo algum serviço ou produto que as façam se sentir bem, se sentir únicas, se sentir lembradas. E torcendo para que não nos esqueçam.

E cá entre nós pela quarta vez: quer coisa mais chata que um algoritmo tentando te lembrar para comprar um tênis de corrida que você já comprou?

Voltando…

Acabei de fazer a minha agenda em Austin. Mas juro que o que mais espero é não segui-la. Serendipidade texana. Acho que é disso que mais precisamos. Precisamos nos perder. E não saber de cor o caminho. Porque uma coisa eu tenho certeza, você jamais esquece o caminho que escolheu fazer. Porque mesmo não sabendo qual era, ele fazia algum sentido para você.