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O que eu espero encontrar “além da IA”

No SXSW 2026, a IA vira padrão e a diferenciação real volta a morar na essência e criatividade humana.

Daniela Galego

Head da Uber Advertising no Brasil 11 de março de 2026 - 12h13

Em 2025, eu cheguei em Austin com a cabeça (e a agenda) tomada por IA. Ela estava em todo lugar: nas trilhas, nos corredores, nas conversas e, principalmente, naquela ansiedade coletiva de “não posso perder isso”. Voltei com aprendizados importantes e com uma percepção ainda mais valiosa: quando todo mundo corre para acompanhar a tecnologia, é fácil esquecer que inovação não é só ferramenta. É gente, cultura, bem-estar, propósito. Para 2026, eu volto ao SXSW Innovation com uma expectativa diferente. Não é “o que vem depois da IA” (porque ela não vai embora). É o que vai além dela, o que continua raro e difícil de copiar quando as ferramentas ficam parecidas, os modelos se popularizam e a execução vira commodity.

Em outras palavras: quando “ter IA” vira requisito, onde nasce a diferenciação?

Avaliando a programação do evento, já vejo alguns temas que vão tratar de inovação com pautas voltadas muito mais para estratégia e criatividade do que para automação de novas tecnologias.

O primeiro tema é o da psicologia de escolha. A gente mede, otimiza, atribui, modela, mas a compra não é só lógica. É emoção com justificativa depois. É contexto, repertório cultural, confiança, fadiga, humor, pertencimento. Quero olhar para esse lado “não racional” do consumidor. Entender gente continua sendo trabalho humano e, ironicamente, é o que mais diferencia marcas num mundo cada vez mais padronizado por dados.

O segundo território é o da identidade de marca. Tenho curiosidade de observar como as narrativas de branding estão migrando do “correto” para o “memorável”, do “funcional” para o “com presença”. Até no B2B, onde por muito tempo a seriedade virou sinônimo de personalidade zero. Só que o decisor também sente, se inspira, se identifica, tem medo de errar e quer ser reconhecido. Quando todo mundo oferece soluções parecidas a marca volta a ser atalho mental. E isso mental é vantagem competitiva.

O terceiro território é o da coragem criativa: a disposição de sair do marketing seguro, do playbook que já funcionou, do piloto automático. Porque existe um custo invisível em depender demais da previsibilidade: você ganha no detalhe e perde no impacto. Quero observar como as conversas deste ano vão tratar esse equilíbrio delicado entre ousadia e responsabilidade. A sensação é que “break the algorithm” não é só sobre mídia; é sobre postura.

No fim, “além da IA” não é uma tendência tecnológica. É uma escolha de foco. A IA vai nos deixar mais rápidos, mais produtivos, mais eficientes. Mas ela não vai, sozinha, nos deixar mais interessantes. Isso continua sendo trabalho humano: compreender comportamento, construir identidade, sustentar narrativa e decidir, com intenção, quando vale quebrar o padrão.

Se eu tivesse que resumir minha expectativa para o SXSW 2026 em uma frase, seria esta: quando a tecnologia vira padrão, a diferenciação volta a morar no que é humano. E eu vou pra Austin justamente para procurar os sinais disso e espero ser muito surpreendida e inspirada nesta jornada.