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Automedicação

Como formas distintas de encarar um diagnóstico podem levar a diferentes resultados na resolução de um problema

André Scaciota

Chief media officer da WMcCann 19 de fevereiro de 2026 - 14h00

Havia um médico muito procurado naquela cidade. Não porque prometesse milagres, mas porque estudara a vida inteira para entender o corpo humano e seus sinais. Ele escutava, examinava, perguntava, cruzava dados, observava padrões. E, ao final de cada consulta, prescrevia um plano às vezes simples, às vezes desconfortável, quase sempre preciso.

Foi a esse consultório que, certa manhã, chegaram dois pacientes pela primeira vez.

Ambos sentiam que algo não ia bem. Nenhum sabia explicar exatamente o quê. Um falava de cansaço, o outro de dores difusas, misturando sintomas com ideias que havia ouvido ao longo do tempo. O médico não apressou conclusões. Pediu detalhes, fez perguntas incômodas, solicitou exames. Precisava de informações. Precisava compreender o que ainda não estava claro.

Os dois saíram com a mesma orientação: voltar com dados.

Na semana seguinte, retornaram.

O primeiro entrou apreensivo, com uma pasta nas mãos. Trouxe os exames, relatou o que sentia, reconheceu o que não entendia. O médico analisou tudo com atenção, conectou os sinais, explicou o quadro e desenhou um plano. Nada espetacular. Mudanças de hábito, um tratamento contínuo, doses precisas, tempo. Método.

O segundo chegou mais tranquilo. Também trazia exames, mas trazia, sobretudo, certezas. Contou que havia conversado com conhecidos da área, pesquisado por conta própria, lido diferentes opiniões. Disse que já tinha uma boa ideia do que era e que talvez não fosse tão sério assim. O médico escutou. Leu os dados. O diagnóstico foi semelhante ao do outro paciente e o plano também.

Os dois ouviram. Ambos assentiram.

A diferença começou ali. Na saída.

O primeiro seguiu o tratamento como quem sabe que resultado não nasce do improviso. Voltava às consultas, trazia novos dados, aceitava ajustes. Às vezes reclamava do processo. Às vezes questionava. Mas não pulava etapas. Confiava no método.

O segundo começou a adaptar tudo ao próprio conforto. Reduziu doses, trocou recomendações por alternativas mais fáceis, substituiu etapas por atalhos. Em cada retorno, dizia que “no geral estava bem”, embora os exames contassem outra história. O médico insistia, ajustava, explicava novamente. O paciente concordava. E, ao sair, decidia sozinho.

Com o tempo, os caminhos se separaram.

O primeiro não apenas melhorava. Tornava-se estável. O problema não desaparecera por mágica, mas estava sob controle. O plano funcionava porque era seguido.

O segundo passou a trazer urgências. Sempre algo novo. Sempre o efeito. Nunca a causa. Cada consulta resolvia apenas o sintoma do momento. O médico foi ficando mais direto, mais preocupado. Dizia que sem constância não havia como corrigir o que estava por trás. O paciente concordava, mas nunca por inteiro.

Até que, um dia, ele não voltou mais.

Ao fim dessa história, como você já deve estar imaginando, um seguiu e nunca mais abandonou aquele médico. Com o tempo, tornaram-se mais do que médico e paciente: tornaram-se sócios. Um em busca de melhorar a própria vida. O outro, de fazer aquilo que amava e para o que havia se preparado a vida inteira.

Já o outro… você sabe. E, se não sabe, pode imaginar. A história simplesmente não continua.

Porque aquele paciente não voltou.

Morreu de certeza.