Como a solidão virou um problema de saúde e negócios
Lideranças e especialistas avaliam o papel das relações no trabalho e seus efeitos sobre desempenho e carreira
Saúde social tornou-se um tema relevante nos últimos anos. Foi destaque, por exemplo, na edição do South by Southwest de 2025. Mesmo antes disso, no entanto, o tema já era discutido em fóruns sobre saúde. Desde 2023, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertava sobre uma crescente epidemia da solidão. O fato é que nossas relações sociais são um pilar importante da nossa saúde como um todo, juntamente com a saúde mental e física.
“Todos os estudos sobre saúde física e longevidade mostram que, no final, o grande fator de proteção e o maior preditor de felicidade e bem-estar vêm das pessoas que a gente tem na nossa vida”, afirma Renata Rivetti, especialista na ciência da felicidade. Saúde social, nesse contexto, é sobre o quanto um indivíduo se sente pertencente a um grupo e o quanto existe conexão profunda em suas relações, e não a quantidade de pessoas com quem convive.
A qualidade das relações não é o único fator importante. A quantidade de tempo dedicada a elas, por exemplo, também entra na conta. Uma pesquisa do uso do tempo americano registrou que, entre 2003 e 2020, houve uma queda brusca no tempo de socialização, de 60 para 20 horas mensais. “A pergunta é: para onde foi esse tempo? Estamos fazendo o quê com essas 40 horas que perdemos?”, questiona Carol Romano, cofundadora da Futuro Company e autora do livro “Por que as relações importam (tanto)?”
É possível medir a qualidade das relações?
De acordo com as especialistas, conexão, pertencimento e confiança são os preditores de qualidade para as relações sociais, além do desenvolvimento pessoal. São aqueles laços em que o indivíduo confia e pode ser vulnerável, mostrar sua verdadeira face sem medo de retaliações, e recorrer quando necessário. Ao mesmo tempo, são os que te instigam a crescer.
O World Happiness Report 2025 destaca como a solidão tem crescido no mundo. Em 2023, 19% dos jovens adultos relataram não ter ninguém com quem contar para apoio social, o que representa um aumento de 39% em comparação a 2006.
Historicamente, os jovens estavam mais conectados que os idosos, mas a qualidade das relações deles teve uma queda tão grande que, desde 2020, a diferença de suporte social entre jovens (18-29 anos) e idosos (mais de 60 anos) caiu para menos de 1%. Cerca de 18,6% dos domicílios brasileiros em 2024 eram ocupados por apenas uma pessoa, o que representa um crescimento de 52% em relação a 2012.
Para Carol Romano, a resposta à pergunta sobre o que estamos fazendo com o nosso tempo é clara: “Estamos online. Ou entramos numa lógica de hiperprodutividade, em que o trabalho e tudo aquilo o que é produtivo ocupou esse espaço, ou estamos interagindo, mas não estamos, de fato, socializando”. Este contexto, segundo ela, traz consequências importantes para a nossa capacidade de nos relacionar.
Saúde social e riscos
Segundo Romano, temos atrofiado nossa habilidade de conflito, ou seja, de lidar com aquilo que é humano. A psicoterapeuta Esther Perel, por exemplo, fala que estamos começando a esperar perfeição algorítmica das relações interpessoais. “Quando passamos muito tempo apenas nessa interação superficial, sem causar impacto na vida do outro e sem deixar o outro impactar a nossa, acontece um fenômeno reverso: começamos a nos sentir muito vazios e muito solitários”, continua.
Para Karen Vogel, psicóloga e professora na The School of Life Brasil, a pandemia da Covid-19 potencializou essa “atrofia social”. “Saímos da crise com muito medo e uma certa reticência em relação ao social. É como se estivéssemos um pouco mais ariscos”, reflete.
Uma pesquisa da Talenses Group analisou o estado da saúde social dos brasileiros no ano passado: 81% dizem que atualmente existe menos contato entre as pessoas; 88% falam que houve uma piora nas relações interpessoais; e 78% percebem menos engajamento das pessoas com a comunidade em que estão inseridas.
Além disso, 92% dos entrevistados afirmaram que estão com a saúde mental afetada, e 94% percebem que a piora dos vínculos sociais está diretamente ligada ao agravamento da saúde mental. O sentimento de solidão impacta tantos jovens quanto idosos e afeta a saúde mental e física. Segundo a OMS, 1 a cada 6 pessoas experienciam solidão no mundo, e ela é responsável por 100 mortes por hora, dado seus impactos na saúde e na redução da longevidade.
A falta de conexão social causa danos comparáveis a fumar 15 cigarros por dia, alerta o médico Vivek Murthy, co-chair da comissão de conexão social da OMS. Está relacionada a doenças cardiovasculares, AVC, declínio cognitivo, demência, Alzheimer, diabetes do tipo 2, depressão e ansiedade. Isso porque a desconexão social, conforme descreve a OMS, ativa o estresse crônico e afeta o sistema imunológico e o psicológico, além de aumentar as chances de comportamentos de risco, como tabagismo, sedentarismo e má alimentação.
O relatório global também relaciona a solidão ao desemprego, destacando uma relação de mão dupla: a solidão aumenta a probabilidade de uma pessoa ficar desempregada e o desemprego, por sua vez, aumenta os níveis de solidão.
Apesar das taxas de solidão serem semelhantes entre homens (15,4%) e mulheres (16,1%), as jovens parecem sofrer mais com o tema: estima-se que 24,3% das meninas entre 13 a 17 anos sofram de solidão, em comparação com 17,2% dos rapazes da mesma idade.
Já entre os idosos, as mulheres também relatam mais sentimentos de desconexão social (13%) em relação aos homens (9,9%). Além disso, as que atuam como cuidadoras informais (de pais idosos ou filhos doentes) enfrentam altos riscos de desconexão social, conforme destaca o estudo da OMS.
Impactos nas empresas e carreiras
As consequências não se restringem ao âmbito da saúde, e chegam ao ambiente de trabalho, impactando a inovação e criatividade, por exemplo. “No curto prazo, pode reduzir as possibilidades de brainstorming, de pensar fora da caixa, de estimular a criatividade e de rever processos. A tendência é que as pessoas conversem menos entre si e acabem seguindo mais o status quo do que já está estabelecido”, aponta Isis Borge, sócia-diretora da Assigna e sócia do Talenses Group
“No médio prazo, isso impacta inclusive a visibilidade da carreira das pessoas. Quando elas não constroem boas relações e boas conexões, acabam tendo menos visibilidade para oportunidades de crescimento e progressão de carreira”, complementa. Para o trabalhador, a solidão também é capaz de reduzir seu engajamento e tempo de vida dentro da organização.

Isis Borge, sócia-diretora da Assigna e sócia do Talenses Group (Crédito: Divulgação)
De acordo com o estudo “Friends At Work” da KPMG, de 2025, 28% dos profissionais nos Estados Unidos associam amizades no ambiente laboral ao aumento da produtividade e motivação, além de relatarem maior resiliência contra o burnout (25%), melhor raciocínio inovador (25%) e colaboração em equipe superior (25%).
No Brasil, a pesquisa da Talenses mostra uma contradição: enquanto 76% afirmam manter vínculos de longo prazo com colegas de trabalho, 50% já enfrentaram burnout ou outro tipo de sofrimento mental. Com o reconhecimento do burnout como uma doença decorrente do trabalho, o senso comum é achar que ele está relacionado apenas à sobrecarga de tarefas. Segundo Romano, este é apenas um dos oito gatilhos, sendo que três deles são clima tóxico, relação com a liderança e conflitos mal geridos.
Papel de lideranças e times
Para Carol, o principal gatilho de adoecimento mental das pessoas são as relações no ambiente de trabalho, especialmente com os líderes. A pesquisa da Talenses Group reforça esta crença: no recorte das empresas, 91% das pessoas reconhecem que o modelo de gestão afeta diretamente a qualidade das relações.
Segundo as especialistas, a liderança precisa também promover a cooperação e ser cada vez mais humana, reconhecendo as vulnerabilidades e fortalezas de cada indivíduo. A responsabilidade do líder é, sobretudo, cuidar das pessoas, promover espaços de escuta ativa e segurança psicológica.
“Quando olhamos, hoje, para o Fórum Econômico Mundial, as habilidades exigidas do profissional atual não são só tecnológicas ou técnicas. Pelo contrário, são humanas: pensamento analítico, influência social, motivação. Tudo isso tem a ver com um líder que inspira, engaja e sai de um lugar de comando e controle, de microgerenciamento”, ressalta Rivetti.
Ambientes laborais muito competitivos são capazes de minar as relações e adoecer os indivíduos. Para Karen Vogel, é importante que as empresas fomentem a cooperação ao invés da competição. “Evitar que as metas sejam individuais, por exemplo, e buscar que possam ser coletivas, é interessante. A própria atuação do líder precisa ser de alguém que esteja engajado na cooperação”, ressalta.
Na avaliação de Renata Rivetti, as organizações ainda relacionam a promoção da saúde social com eventos de confraternização. “As empresas não estão tratando a causa raiz do problema. Ainda olham mais pros sintomas. Então é o happy hour, a festa de final de ano, esses encontros pontuais. Mas a saúde social tem muito mais a ver com o dia a dia do trabalho: um líder mais humano, mais cuidadoso, um time mais colaborativo”, afirma.