NR-1 leva agências a revisarem protocolos de saúde mental
Agências explicam como estão se preparando para a atualização da norma que inclui fatores psicossociais como riscos ocupacionais
As agências de publicidade são, historicamente, reconhecidas pela sobrecarga de trabalho, demandas excessivas por parte dos anunciantes, prazos apertados, metas ambiciosas e longas jornadas de trabalho.
E o cenário se intensificou durante a pandemia da Covid-19, sobretudo com a ascensão dos modelos híbridos de trabalho. Em 2021, a Federação Nacional das Agências de Propaganda (Fenapro), Associação Brasileira de Agências de Publicidade (ABAP) e Associação Brasileira de Agentes Digitais (Abradi) chegaram a se mobilizar para alertar o mercado publicitário sobre os efeitos das demandas excessivas sobre os colaboradores.

Com atualizações da NR-1, agências se veem diante de obrigatoriedade normativa para monitorar bem estar dos times (Crédito: PeopleImages/Shutterstock)
O tema ganha, contudo, uma nova tônica em 2026, com a atualização da norma regulamentadora NR-1. A diretriz agora deverá incluir fatores psicossociais como riscos ocupacionais e está em caráter adaptativo e educativo até maio, quando obrigatoriedade entrará, de fato, em vigor, e as fiscalizações e auditorias terão início.
Isso significa que, fatores como pressão por metas, jornadas excessivas, competição acirrada, ambientes hostis e o reflexo sobre o corpo funcional passaram a ser reconhecidos como fatores que podem impactar, em um escopo psicossocial, os trabalhadores.
Meio & Mensagem consultou as agências de publicidade líderes em compra de mídia, de acordo com o ranking do Cenp-Meios referente a 2024, para entender as ações de bem estar já em vigor e os preparativos para a atualização da norma.
De maneira geral, as agências oferecem benefícios como Wellhub (antigo Gympass) e TotalPass, bem como outras iniciativas voltadas à saúde, como corridas e plataformas educacionais. No campo da saúde psicológica, contam com programas de acesso e apoio, com atendimento 24h por dia. Também estão no hall de ofertas palestras e cursos que abordam a temática do bem estar e saúde mental, sobretudo em ocasiões de conscientização, caso do Janeiro Branco e Setembro Amarelo.
Já com foco em lideranças, as empresas consultadas vêm adotando estratégias estruturadas para capacitar e engajar no cuidado com a saúde mental, com ações voltadas para o treinamento preventivo, segurança psicológica, comunicação consciente e escuta ativa.
Junto aos colaboradores, as iniciativas envolvem grupos de conversas, grupos de apoio e áreas específicas, além dos recursos humanos, para a prevenção e suporte. Entram, também, programas de integridade e compliance, canais de denúncia e acolhimento.
Demandas da NR-1
A normativa obriga as agências a mudarem o foco central de ações isoladas para um modelo preventivo e sistêmico, visando monitorar indicadores específicos, entre eles, levando em consideração, por exemplo, índices relacionados ao burnout e ao estresse ocupacional.
Mais do que apresentar ações, do ponto de vista operacional, a NR-1 demanda registros e documentação adequados, com a formalização das avaliações realizadas, das medidas adotadas e do acompanhamento contínuo, além da preparação para eventuais fiscalizações e comprovação de diligência, afirma Cristiano Silva, diretor de pessoas e cultura na WMcCann.
Na prática, diz, a NR-1 amplia o olhar para a identificação e a gestão dos riscos psicossociais no ambiente de trabalho. “Isso começa pelo mapeamento e avaliação de fatores como pressão por metas, competição acirrada por resultados e ambientes hostis, que passam a ser reconhecidos formalmente como riscos ocupacionais”, complementa.
De acordo com informações enviadas à reportagem, a WMcCann implementou, ao longo de 2025, os ajustes para incluir os fatores psicossociais como riscos ocupacionais em sua gestão de saúde e segurança.
Exemplos são a formalização de uma política interna de jornada de cuidado, um protocolo para casos de afastamento, em parceria com especialistas, como da operadora de saúde e a medicina ocupacional, junto a um time multidisciplinar no suporte aos colaboradores.
Já a Galeria deverá realizar, neste mês, um formulário de levantamento dos riscos psicossociais. Os resultados observados serão consolidados e incluídos no Programa de Gerenciamento de Riscos, obrigatório para empresas com profissionais contratados como CLT, juntamente com um plano de ação.
Avanço da indústria publicitária
Para Vivian Vaz, diretora de talentos e cultura da Galeria.Holding, o mercado vem amadurecendo no entendimento de que saúde mental não é um tema acessório, mas estrutural, e que as novas exigências regulatórias aceleram esse movimento ao trazer clareza, responsabilidade e critérios objetivos.
“Mais do que uma obrigação legal, esse avanço reflete uma mudança cultural: reconhecer que criatividade, inovação e performance sustentável dependem diretamente de ambientes seguros, saudáveis e baseados em confiança e escuta”, defende.
Internamente, a responsabilidade não se aplica apenas ao departamento de recursos humanos. O Grupo Publicis indica a proximidade contínua da área de Pessoas e ESG com colaboradores e lideranças, com canais abertos e escuta ativa, e monitoramento de indicadores de jornada.
Iza Herklotz, chief people officer do Publicis Groupe Brasil, nota que há um reconhecimento da importância da saúde mental, mas a indústria ainda enfrenta desafios estruturais. Neste sentido, a atuação na frente abre uma janela para a sustentabilidade dos negócios.
“A atualização cria oportunidades para fortalecer a cultura de cuidado e responsabilidade, melhorar a qualidade da experiência das pessoas e tornar a gestão mais sustentável no longo prazo”, defende.
As outras agências consultadas pela reportagem apontam que já estão atuando no fortalecimento de protocolos de monitoramento ou ainda não estão divulgando informações sobre as iniciativas.