Women to Watch

71% das mulheres já sofreram assédio nas capitais brasileiras

Levantamento da Ipsos-Ipec revela que ruas, transporte público e ambiente de trabalho concentram os casos

i 5 de março de 2026 - 6h00

Sete em cada 10 mulheres que vivem em grandes capitais brasileiras afirmam já ter sofrido algum tipo de assédio, e o ambiente de trabalho é o terceiro lugar onde esse tipo de caso mais ocorre. O dado faz parte da pesquisa “Viver nas Cidades: Mulheres 2026”, realizada pelo Instituto Cidades Sustentáveis em parceria com a Ipsos-Ipec, que investigou a percepção de moradores de 10 capitais sobre violência de gênero e divisão de tarefas domésticas.

Segundo o levantamento, 71% das mulheres entrevistadas relataram ter passado por situações de assédio em pelo menos um dos seis ambientes analisados: ruas e espaços públicos, transporte público, ambiente de trabalho, ambiente doméstico, bares ou casas noturnas e transporte particular.

As ruas, praças e parques aparecem como os locais onde o assédio é mais frequente, seguidos pelo transporte público. Em terceiro lugar está o ambiente de trabalho, com 36%. Embora os percentuais variem entre as capitais analisadas (Belém, Belo Horizonte, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo), a incidência do problema permanece alta em todas elas.

Assédio no trabalho

Entre as mulheres que afirmam já ter sofrido assédio no ambiente de trabalho nas capitais brasileiras (36%), a maior incidência aparece na faixa etária de 25 a 34 anos: 41% relataram ter passado por esse tipo de situação. Em seguida estão as mulheres entre 35 e 44 anos (37%) e aquelas com 60 anos ou mais (35%).

O levantamento também indica desigualdade racial, visto que as mulheres pretas são as que mais relatam episódios de assédio no trabalho, com 36%.

Em relação às cidades, Salvador e Porto Alegre lideram o ranking de capitais com maior incidência de assédio no trabalho, ambas com 42% das entrevistadas afirmando já ter vivido esse tipo de situação. Na sequência aparecem Belém (41%), além de Belo Horizonte e Fortaleza, empatadas com 38%.

Punição mais dura e proteção às vítimas

Para Jorge Abrahão, coordenador-geral do Instituto Cidades Sustentáveis, os dados reforçam a necessidade de políticas públicas estruturais. “Podemos e devemos fazer muito mais para enfrentar a violência contra a mulher. Além de punir os infratores, ampliar os canais de denúncia e promover campanhas, precisamos criar políticas públicas efetivas, que de fato promovam uma mudança estrutural na sociedade”, diz.

Entre as medidas consideradas prioritárias pelos entrevistados para enfrentar a violência contra as mulheres, o aumento das penas para agressores aparece em primeiro lugar, citado por 55% da amostra. Em seguida, 48% defendem a ampliação dos serviços de proteção às vítimas.

Essas duas propostas lideram o ranking de respostas em todas as capitais pesquisadas, indicando um consenso sobre a necessidade de respostas mais firmes do poder público.

Desigualdade dentro de casa

A pesquisa também investigou a percepção sobre a divisão de tarefas domésticas e encontrou diferenças significativas entre homens e mulheres. Para 39% dos entrevistados, as atividades domésticas são responsabilidade de todos, mas acabam sendo realizadas majoritariamente por elas. Já 37% acreditam que essas tarefas são divididas igualmente entre homens e mulheres.

Quando analisado o recorte de gênero, no entanto, surgem discrepâncias: 44% das mulheres dizem que acabam fazendo a maior parte das tarefas, enquanto apenas 32% dos homens reconhecem essa desigualdade. Por outro lado, 47% dos homens afirmam que as atividades domésticas são divididas de forma igual, percepção compartilhada por apenas 28% das mulheres.

O levantamento ouviu 3.500 pessoas com 16 anos ou mais, residentes nas dez capitais pesquisadas. As entrevistas foram realizadas em dezembro de 2025.