Women to Watch

Por que mulheres lideram os afastamentos por saúde mental

Tatiana Pimenta, CEO da Vittude, reflete sobre como o problema tem afetado mais as trabalhadoras femininas

i 11 de março de 2026 - 9h26

Tatiana Pimenta, CEO da Vittude (Crédito: Juliana Frug)

Tatiana Pimenta, CEO da Vittude (Crédito: Juliana Frug)

Ano após ano, o Brasil bate recordes de afastamentos do trabalho por saúde mental. Em 2025, foram mais de meio milhão de licenças concedidas por transtornos mentais. Somente os casos decorrentes de ansiedade e depressão cresceram 15% em relação ao ano anterior, e somados já formam o segundo maior motivo de distanciamento do trabalho no país, atrás apenas das doenças de coluna, conforme os dados do Ministério da Previdência Social.

Entre as licenças concedidas por questões de saúde mental, as mulheres representam 64%, têm uma média de 41 anos e ficam até 3 meses afastadas. Diante desse cenário, Tatiana Pimenta, CEO e fundadora da Vittude, empresa especializada no desenvolvimento de programas de saúde mental corporativas, reflete sobre o contexto que tem levado as mulheres brasileiras ao adoecimento e qual o papel da NR-1 e das empresas de cuidar dessas trabalhadoras.

Meio & Mensagem – Dados do Ministério da Previdência Social de 2025 mostram que as mulheres representam 64% dos afastamentos por saúde mental no Brasil, que também registrou recorde no número total desse tipo de caso. Por que as mulheres lideram esses episódios?

Tatiana Pimenta – Acho que há vários fatores. Um deles é a dificuldade de medir o efeito da economia do cuidado. O que acontece muitas vezes no Brasil é que mulheres são o esteio da casa, as únicas provedoras, têm sua jornada de trabalho e, depois, ainda precisam cuidar dos filhos e, eventualmente, também dos idosos. Além daquelas que ainda precisam complementar a renda porque estão ganhando menos. Então, existe uma sobrecarga invisível que não é contabilizada, e as mulheres acabam adoecendo mais. Sem contar, obviamente, que ainda vemos no mercado de trabalho gaps salariais e de oportunidades. Infelizmente, elas ainda são pouquíssimas em cargos de alta liderança, com posições e salários mais elevados, e acho que tudo isso contribui de alguma forma. Existe ainda a questão da rede de suporte. Se você tem uma renda mais elevada, consegue ter uma rede de apoio paga. Mas, se não tem, acaba precisando se dedicar pessoalmente a várias dessas tarefas, porque falta renda no final do mês dentro de casa.

M&M – Por que estamos diante de números cada vez mais elevados de afastamentos por saúde mental? Qual contexto está por trás desse cenário?

Tatiana – A piora da saúde mental não é só no Brasil, é uma tendência global, em parte porque o tema foi ignorado por muito tempo. A NR-1 surge com caráter preventivo para tentar reverter o aumento dos afastamentos por doença. Na nova redação, em vigor desde 26 de maio de 2025, a norma exige que empregadores sejam proativos em mapear riscos psicossociais e adotar medidas para criar ambientes que não apenas evitem o adoecimento, mas também apoiem quem já está doente. Nem todo transtorno mental é causado pelo trabalho. Eles são multifatoriais: podem surgir após traumas, violência, separações ou doenças na família. Ainda assim, nesses momentos, as pessoas precisam de cuidado, e as empresas devem estar preparadas para oferecer suporte. Existe também uma responsabilidade civil: um trabalhador adoecido sofre, produz menos e pode impactar o clima e a estabilidade da organização.

No censo da Vittude, por exemplo, mede-se a ergonomia cognitiva, que avalia como o trabalho está estruturado. Se uma atividade planejada para dez pessoas tem duas com depressão, as outras oito ficam sobrecarregadas. Isso pode gerar um efeito em cadeia de adoecimento. A NR-1 busca justamente identificar esses fatores para que empresas revejam metas, dimensionamento de equipes e ofereçam suporte, como terapia subsidiada ou jornadas mais flexíveis. Outro indicador é o presenteísmo, hoje em 32%, o que mostra perda significativa de produtividade. Há também dados preocupantes sobre ideação suicida: 18% no Brasil, segundo o Instituto Cactus, e 14,75%, no censo da Vittude. O trabalho pode funcionar como fator de proteção, pois oferece renda, pertencimento e autoestima, mas ainda assim o número é alto.

Diante disso, a pergunta para as empresas é: que tipo de apoio estão oferecendo? Há estrutura de assistência, plano de saúde adequado ou suporte social? Hoje, muitas organizações simplesmente não sabem onde estão as pessoas que precisam de ajuda. Medir, identificar e criar planos de apoio pode fazer toda a diferença.

M&M – Quais mudanças e benefícios a NR-1 pode proporcionar às mulheres?

Tatiana – Dados mostram que um dos maiores riscos psicossociais no trabalho hoje é o assédio, tanto moral quanto sexual. No caso do assédio sexual, a maioria das vítimas ainda são mulheres. Combater esse tipo de prática pode gerar grande impacto na qualidade de vida, na autoestima e no sentimento de pertencimento, já que o assédio, especialmente o sexual, pode deixar traumas duradouros.

O assédio moral é ainda mais frequente e nem sempre ocorre apenas entre líder e liderado. Em setores como varejo e saúde, por exemplo, muitas vezes ele vem de clientes ou pacientes. Equipes de enfermagem, telemarketing e professores, profissões majoritariamente femininas, costumam enfrentar situações de desrespeito e agressões verbais. Isso cria um ambiente difícil, especialmente quando o trabalho envolve cuidar de pessoas que estão atacando ou ofendendo quem presta o serviço. Também existe receio de denunciar essas situações, pois muitos trabalhadores temem parecer que estão acusando alguém da empresa. Por isso, é fundamental que as organizações tenham políticas claras de prevenção ao assédio, além de treinamentos que orientem como agir, quais canais de apoio procurar e como lidar com essas situações. Em alguns casos, inclusive, é necessário estabelecer regras e condutas também para clientes.

M&M – Um ponto que a pesquisa destaca é o alto índice de pessoas com nível de sofrimento psíquico do tipo severo, inclusive com ideações suicidas. Como o trabalho pode contribuir para o agravamento da saúde mental?

Tatiana – Quando a gente não tem a gestão desses fatores, o trabalho pode agravar a situação. O próprio assédio é um exemplo. Se eu sou constantemente atacada, ofendida ou humilhada, vou adoecer. Da mesma forma, se trabalho em uma situação em que o design organizacional está mal feito, com sobrecarga, isso também contribui para o adoecimento. Existem setores da economia que trabalham com escala 6 por 1. Na própria área médica e de saúde, por exemplo, as equipes de enfermagem trabalham seis horas, mas muitas acabam fazendo dupla jornada por conta da baixa remuneração. No final do dia, estão trabalhando 12 horas, sem contar o deslocamento. Se essas seis horas viessem acompanhadas de uma remuneração mais adequada, a pessoa não precisaria fazer uma dupla jornada. Por isso, o papel das empresas é começar a entender onde cada fator está impactando. O que aparece, por exemplo, em alguns setores como o varejo, é a revisão da escala 6 por 1, com testes de escalas 5 por 2. Esse é um exemplo de medida de controle muito eficiente, porque atua diretamente na sobrecarga e ajuda a construir rotinas mais saudáveis. Então a NR1 contribui justamente para revisitar práticas que ainda existem nas organizações e que acabam aumentando o adoecimento de forma geral.

M&M – O Índice Vittude de Saúde Mental (IVSM) coloca as empresas em diferentes zonas da saúde mental na organização. Pode falar um pouco sobre esses critérios? 

Tatiana – A escala vai de 0 a 100 e indica o nível de saúde mental nas organizações. No ano anterior, o IVSM estava em 76, no início da zona de aperfeiçoamento. Um ano depois, caiu dois pontos e ficou perto do final da zona de atenção, o que indica necessidade de melhorias. A principal questão é entender o que está puxando esse número para baixo. Um dos fatores é a alta propensão ao burnout, atualmente em 5,94%, quando acima de 3% já é considerada elevada. O aumento da ideação suicida e do adoecimento geral também contribui para a queda do índice, já que ele é uma média ponderada de vários indicadores. O resultado mostra que as pessoas estão mais doentes e, consequentemente, as organizações também. Isso não significa que o trabalho seja sempre a causa, mas indica que algo precisa ser feito para evitar uma piora do cenário.

M&M – O que as empresas podem fazer para melhorar esse cenário?

Tatiana – É fundamental que elas conheçam esses dados e ofereçam apoio. Também é preciso cuidado ao interpretar medidas de controle. Não se trata de substituir pessoas adoecidas por “funcionários saudáveis”, até porque cerca de 15% da população economicamente ativa no Brasil enfrenta algum adoecimento mental, e aproximadamente 18% apresentam ideação suicida. Diante de um contexto de desigualdade, vulnerabilidade e violência, as empresas precisam criar estruturas de cuidado, inclusive porque isso impacta os resultados financeiros. Com 32% de presenteísmo, por exemplo, uma companhia de mil pessoas perde o equivalente à produtividade de cerca de 300 funcionários. Ambientes com baixa segurança psicológica e alto nível de assédio também geram custos elevados. Por outro lado, investir em saúde mental reduz turnover, gastos com saúde e melhora resultados, clima organizacional e qualidade de vida. Quando o ambiente é adoecedor, porém, ocorre o efeito contrário: afastamentos aumentam, quem permanece fica sobrecarregado e o problema se amplia. Os dados do INSS mostram justamente esse ciclo, em que a falta de cuidado com quem já está doente acaba levando ao adoecimento de ainda mais pessoas.