Women to Watch

Homens da geração Z são mais conservadores que baby boomers

Estudo acende alerta para retrocessos em igualdade de gênero entre jovens no mundo

i 22 de abril de 2026 - 9h50

O comportamento da geração Z nos relacionamentos deixou de ser tema de debate nas redes sociais e ganhou respaldo em dados concretos. Isso é o que indica levantamento recente conduzido pela Ipsos em parceria com o Instituto Global de Liderança Feminina do King’s College London. Segundo o estudo, há um desalinhamento crescente entre homens e mulheres jovens quando o assunto é igualdade de gênero e expectativas afetivas.

A pesquisa, que ouviu cerca de 23 mil pessoas em 29 países, revela um dado que chama atenção: entre homens da Geração Z, 31% acreditam que a mulher deve sempre obedecer ao marido, enquanto 33% afirmam que o homem deve ter a palavra final em decisões importantes. Entre os baby boomers, esses índices são significativamente menores: 13% e 17%, respectivamente.

Os números parecem indicar uma ruptura com a ideia de progresso linear rumo à igualdade de gênero. Em vez disso, sugerem que parte dos homens mais jovens tem adotado visões mais tradicionais e, em alguns casos, restritivas, sobre o papel feminino nos relacionamentos. Essa percepção se reforça quando 24% dos entrevistados afirmam que mulheres não devem parecer muito independentes.

Mulheres avançam, e desalinhamento aumenta

Se por um lado há um movimento de retração entre homens, por outro, mulheres jovens seguem na direção oposta. Estudos apontam que elas valorizam cada vez mais autonomia, independência financeira e posicionamentos igualitários. O resultado é um descompasso dentro da mesma geração, que se traduz em dificuldades práticas na construção de vínculos afetivos.

Esse desalinhamento ajuda a explicar mudanças recentes no comportamento feminino apontadas por plataformas de relacionamento, como o aumento do interesse por parceiros mais velhos, frequentemente associados a maior estabilidade emocional, maturidade e segurança financeira. É nesse contexto que ganha força o debate sobre a chamada hipergamia feminina (tendência de mulheres buscarem parceiros com status social, intelectual ou econômico superior ao delas) e modelos de relacionamento como o “sugar”.

Entre conservadorismo e incerteza

Para especialistas, o avanço de visões mais conservadoras entre jovens não pode ser analisado isoladamente. Fatores como insegurança econômica, pressão social e a influência das redes digitais ajudam a compor o cenário.

A ex-primeira-ministra australiana Julia Gillard, hoje presidente do Instituto Global de Liderança Feminina da King’s Business School, destaca a preocupação com os resultados: há indícios de que atitudes em relação à igualdade de gênero não apenas estagnaram, mas regrediram em determinados grupos. “Muitos homens da Geração Z não apenas impõem expectativas limitantes às mulheres, como também se prendem a normas de gênero restritivas”, analisa.

O que está em jogo

Para além de uma tendência comportamental, o que a pesquisa parece revelar é uma tensão estrutural. Enquanto mulheres avançam em autonomia e redefinição de papéis, parte dos homens parece buscar referências mais tradicionais em um cenário de incerteza.

Esse descompasso impacta a maneira como relações são construídas. Entre expectativas desalinhadas, valores divergentes e novos modelos em ascensão, a geração Z parece expor uma possibilidade sobre o futuro: igualdade não é um caminho garantido conforme as gerações avançam e pode, sim, sofrer retrocessos.