SXSW

Como a tecnologia forçou a evolução do Spotify

Gustav Söderström, coCEO da empresa, traçou linha do tempo da plataforma e anunciou novo recurso baseado em inteligência artificial

i 13 de março de 2026 - 21h55

Neste ano, o Spotity completa 20 anos. A plataforma nasceu em um contexto pouco propício para o seu surgimento. À época, a indústria da música estava em colapso, com a queda de vendas de CDs e os formatos digitais começando a ocupar espaço. Sua maior concorrente não era uma gigante de tecnologia, mas a pirataria.

O defeito? A baixa experiência de música e latência zero, lembra o coCEO do Spotify, Gustav Söderström.  “Basicamente, pegamos as empresas de tecnologia que alimentava a pirataria e as redesenhamos para salvar a indústria da música e ajudar os artistas a monetizarem. Mas a tecnologia sozinha raramente é suficiente para mudar o mundo”, disse.

Gustav Söderström

Gustav Söderström, coCEO do Spotify, relembrou caminho da plataforma até o sucesso e comentou sobre impactos da era generativa nos negócios (Crédito: Giovana Oréfice)

No compasso do rápido crescimento, chegaram os planos de assinatura sem anúncios. À época, o modelo de negócios da companhia era baseado em um aplicativo gratuito para desktop, que competia com a pirataria com uma boa experiência e, eventualmente, as pessoas pagavam pelo privilégio de sincronizar os arquivos de música com os celulares.

“Nos círculos de produto de onde eu venho, costumamos dizer que todo grande produto de verdade precisa desenvolver algum tipo de truque de mágica, algo considerado inconcebível. Nosso truque de mágica não era apenas dar às pessoas acesso à música”, compartilhou.

Os smartphones foram a próxima revolução. Em 2013, a companhia licenciou, desenvolveu e lançou o primeiro aplicativo na App Store, em que o usuário criava uma playlist com as músicas de seu interesse e a escutavam no modo aleatório, gratuitamente.

A evolução da tecnologia mostrou, na prática, como as rotas de crescimento das empresas não são lineares. “Muitas empresas morrem porque se recusam a seguir por esse caminho. Elas pensam demais, hesitam. Nós estamos onde estamos hoje porque, várias vezes, estivemos dispostos a ir até a beira do precipício e saltar em direção ao desconhecido”, avaliou o coCEO.

O modelo Spotify Connect foi uma aposta contrária às ofertas convencionais da época e representou um marco na expansão da empresa ao deixar de lado modelos fechados e priorizando a integração de hardwares para o funcionamento em carros, televisões, assistentes virtuais, entre outros. A decisão incluiu um movimento de convencimento de inúmeros fabricantes para que implementassem, assim, os protocolos do Spotify.

O próximo passo, de olho nas tendências de mercado, foi a adaptação de um software para incluir audiolivros e podcast ao catálogo de conteúdos, da música ao áudio. Isso traria benefícios também para os criadores: seria possível alcançar audiências cruzadas.

E o Spotify não escapou à onda de questionamentos, receios e novas demandas que a era generativa vem trazendo. Os algoritmos sozinhos já não pareciam eficazes o suficiente para a missão preditiva e sugestiva de conteúdo. Söderström compreende que as expectativas dos usuários sobre o que softwares e serviços podem, e ainda devem, fazer por eles, estão evoluindo de forma rápida.

Com a IA, a companhia se para a um próximo marco: tornar-se uma plataforma agêntica inteligente. “Como um profissional de tecnologia, utilizo um framework específico. Novas tecnologias são, de certa forma, disruptivas por si só. A disrupção significativa acontece quando novas tecnologias viabilizam novos modelos de negócio assimétricos”, argumentou.

Isso inclui a criação de novos modelos de interatividade, em que o usuário participa de forma ativa da experiência. Com a AI Playlist, solução em fase beta e ainda disponível apenas em inglês, os consumidores podem direcionar os algoritmos a partir da criação de playlists que consideram o histórico e hábitos dentro do app.

Os modelos de linguagem, contudo, já não são mais suficientes. O executivo lembrou que são treinados com base em dados já existentes. “Gosto não é um fato, é uma opinião”, alertou.

Já o Taste Profile, anunciado durante o painel no SXSW, permite que os ouvintes revisem e editem as preferências geradas pelo algoritmo. A partir da visualização dos dados de consumo de áudio, será possível editar o perfil e refinar recomendações. O novo recurso, também em fase beta, começa ser disponibilizado para os assinantes de planos Premium da Nova Zelândia nas próximas semanas.

Mas, como toda inovação, a IA tem os prós e os contras, especialmente na indústria da música. Um dos pontos críticos não é apenas garantir a originalidade do conteúdo, mas a geração de valor de forma justa. O executivo garantiu que a companhia vem trabalhando junto à indústria para estabelecer estruturas de monetização adequadas para o contexto, seja para artistas que criam obras originais quanto para fãs utilizam a tecnologia para remixar faixas já existentes.

“Resolvemos o problema da pirataria e vamos resolver os que envolvem a IA”, disse. “A IA não consegue reproduzir o sentimento de estar em meio a uma multidão de pessoas que amam um artista. Esses momentos de conexão humana transcendem a tecnologia e existem para servir aos outros. Acredito firmemente que qualquer conteúdo gerado a partir da conexão humana acaba se tornando mais adaptável”, finalizou.