Quais são os limites do pensamento sintético?
Experimento reuniu duas futuristas e um modelo de IA para debater apatia cognitiva e o avanço tecnológico
Quando o assunto é futuro, debater o avanço da inteligência artificial e o seu impacto na maneira como as pessoas se relacionam parece um caminho irremediável. Mas, e se a própria IA pudesse participar da conversa?

Sarah Davanzo e Faith Popcorn, no SXSW 2026 (Crédito: Taís Farias)
A startup norte-americana Delph nasceu com a proposta de criar “digital minds”, mentes digitais. A ideia é que você possa alimentar um modelo de IA com o seu próprio conhecimento, fluxo de pensamento e maneira de se expressar. Em seu site, a companhia expõe um portfólio com executivos, atletas e celebridades.
A proposta é que, ao interagir com o chatbot, o usuário teria acesso também ao conhecimento e a experiência única de falar com aquela pessoa. Nesta sexta-feira, 13, o SXSW teve a apresentação do que seria a primeira futurista sintética do mundo. O modelo foi treinado com base nas perspectivas de um grupo de 150 futuristas ao redor do mundo.
No evento, a Delph.AI se juntou a tecnofuturista e global chief innovation officer da Porter Novelli, Sarah Davanzo, e uma das responsáveis por popularizar o futurismo ainda na década de 1980, Faith Popcorn. Apesar da proposta ambiciosa, as executivas deixaram claro que a conversa com a inteligência sintética é, ainda, um experimento que envolve desafios como a latência e atrasos no sistema.
Os desafios, de fato, se comprovaram ao longo do painel e a interação não aconteceu exatamente em tempo real. Mas, para as futuristas, a Delph.AI é um vislumbre da possibilidade de criar não só gêmeos digitais, mas audiências sintéticas.
“Podemos não querer necessariamente criar um gêmeo digital direto de uma pessoa específica. Eu posso querer representar todos os pacientes com câncer de pulmão, todos os consumidores de um determinado perfil, todos os donos de cães. Posso querer apenas treinar a IA com dados de investidores”, provocou Davanzo.
Para as empresas, a existência de audiências sintéticas poderia tornar o processo de experimentação não só mais rápido, como mais barato. Popcorn enxerga um futuro em que os modelos de inteligência artificial, como a Delph.AI, funcionem como companheiros intelectuais.
“Eu busco um expansor da mente quando olho para ela e acredito que ela terá sentimentos. Ela vai argumentar sobre emoções e, eventualmente, se tornar algo completo, porque a forma de pensar dela tem apenas 2 anos”, apostou a futurista, conhecida nos anos 1980 como “Nostradamus do marketing”.
IA e a capacidade de adaptação
Apesar dessa aposta e da discussão crescente sobre uma apatia cognitiva à medida que as pessoas interagem cada vez mais com modelos sintéticos, as futuristas enxergam uma diferença central entre a tecnologia e a capacidade humana: a habilidade de adaptação.
“Os humanos têm uma neuroplasticidade que vai além do que vemos hoje na inteligência artificial. Nós passamos pela Covid e nos adaptamos. Passamos por guerras. Sobrevivemos a todos esses desastres. Um meteoro poderia cair e a engenhosidade humana mostra que nós encontramos formas de lidar e superar as situações”, apontou a CIO da Porter Novelli que concluiu: “E a IA tem mecanismos para ser treinada, mas ela não é verdadeiramente adaptável”.
Provocada, a IA refletiu sobre as suas limitações: “Eu me esforço para sintetizar perspectivas diversas e desafiar as narrativas dominantes, mas reconheço o risco inerente de reforçar preconceitos existentes se não forem examinados de forma crítica. É essencial manter um diálogo e uma reflexão constantes para garantir uma compreensão mais ampla das questões em pauta”.
