A percepção é o novo CPM
A interpretação de uma narrativa hoje tem mais poder do que a história que está sendo contada e saber renunciar ao controle da mensagem é o caminho para as marcas fazerem parte da cultura
“O grande desafio das marcas hoje não é simplesmente criar um produto de qualidade. É se manter visível em um mercado cada vez mais saturado.” Essa frase passou no feed do meu LinkedIn outro dia e ficou comigo. Ficou porque representa muito do que venho conversando com nossos clientes e agências e parece ser a reflexão que permeia toda a indústria neste momento.
Em um mundo de mensagens emitidas à exaustão, com plataformas duelando pela nossa atenção e o nosso tempo, a forma clássica de pensar o marketing não funciona mais. Porque visibilidade hoje não se constrói simplesmente com uma boa estratégia de mídia. Se constrói com percepção.
O futurista David Shing fez recentemente uma reflexão muito interessante sobre esse assunto: “A realidade não está mais nas mãos de quem conta a história. Ela está nas mãos de quem observa. A percepção, silenciosamente, se tornou o sistema operacional das marcas. Você vê isso em todo lugar: um produto é lançado e, antes mesmo de a empresa conseguir explicá-lo, milhares de interpretações surgem online.”
Sim, sabemos do que Shingy está falando. Mas o que muda na nossa forma de atuar a partir dessa constatação? O primeiro ponto provavelmente é a necessidade de desapego. Nós, profissionais de publicidade e marketing, precisamos reconhecer que não somos mais os donos da narrativa. Somos personagens de uma história que é construída pelas pessoas. E está tudo bem com isso.
Ao assumir a vulnerabilidade a que estamos expostos quando nos tornamos parte de um roteiro que não escrevemos nos permitimos pulsar na mesma velocidade da cultura popular. É assim que entramos nos fóruns que realmente importam: aqueles espontâneos, iniciados e mediados pelas pessoas.
A porta para esse caminho se abre quando migramos da mentalidade do “controle da mensagem” para uma em que a marca se propõe a criar experiências e comportamentos que a façam circular naturalmente pelas conversas. Quando ela cria experiências relevantes e histórias emocionantes que as pessoas querem genuinamente compartilhar. Aí, sim, a marca deixa de depender só de mídia para existir. E passa a viver nas conversas.
Mapear a cultura significa exatamente isso: identificar o que as pessoas estão falando, usando ou fazendo e por quê. Trata-se de encontrar o fio condutor do imaginário coletivo e criar conteúdo que dialogue com ele. Isso vai além de social listening. É sensibilidade para entender o momento dos consumidores. É conexão emocional. Porque aparecer hoje é relativamente fácil. Difícil mesmo é permanecer.