Conexão Austin

A criatividade está em uma encruzilhada

A IA nunca abriu tantas possibilidades, mas também nunca foi tão fácil pasteurizar a produção cultural

Mariana Caram

Sócia fundadora da DEA Design 16 de março de 2026 - 14h17

Estamos vivendo um momento especial na História (sim, essa com H, dos grandes momentos marcantes). É um período de muita incerteza sobre onde vamos parar com o avanço tecnológico, mas também é um tempo em que, todo dia, parece surgir uma inovação diferente derrubando nossas certezas.

Ao mesmo tempo em que a tecnologia avança quase como uma divindade, e muitas vezes sem questionamentos, nossas instituições e (principalmente) nossas emoções continuam ligadas ao passado. No centro dessa transformação está a Inteligência Artificial, que traz a promessa de expandir nossa capacidade criativa de forma radical – ao mesmo tempo que apresenta riscos imensos de homogeneização cultural e de atrofia do pensamento original.

A cidade de Austin se transformou no epicentro desses debates. A edição 2026 do SXSW tem tratado dessa disputa entre a IA que libera a criatividade e a IA que pasteuriza a produção de cultura. No meu entendimento, essa é uma jornada que pode seguir 3 caminhos.

O primeiro é o da IA como amplificadora da capacidade produtiva. Nessa visão, a tecnologia se torna uma ferramenta multiplicadora, permitindo que menos pessoas gerem impactos maiores.

Passa a ser possível fazer uma prototipagem rápida de ideias que antes exigiam recursos imensos, construindo em minutos o que levava semanas.

Outro benefício dessa visão é colocar na mão da tecnologia aquelas tarefas chatas, como coordenação de reuniões, atas, listas de “to do” e análises básicas de dados. Automatizar o que é básico, para que os humanos possam focar em trabalhos criativos com propósito e conexão real.

Para isso, a “fluência em IA” se torna essencial, um fator que amplia a velocidade e facilita o processo de trazer as ideias para o mundo real.

Como disse a Dra. Sandra Peter, diretora da University of Sydney, em um dos painéis do SXSW: “queremos nos mover rápido, mas agora não precisamos quebrar as coisas para isso”. Uma visão otimista e que não está descolada da realidade.

Atrofia cognitiva e o slop digital

Os próximos 2 caminhos da jornada de IA e criatividade não são tão positivos e expõem inúmeros riscos aos quais precisamos estar muito atentos. Temos o risco da homogeneização e do “slop” digital. A ideia de que a IA é uma solução mágica que resolve tudo facilmente pode levar ao nivelamento por baixo. “Estudos mostram que o uso da IA faz com que as ideias se aglomerem em uma área comum, diminuindo a diversidade que é essencial para a inovação”, lembrou Rebecca Winthrop, diretora da The Brookings Institution.

O resultado dessa falta de diversidade é o aumento do “slop” – aqueles conteúdos que parecem incríveis, mas que não resistem a uma análise cuidadosa. Além disso, o uso excessivo da IA traz um achatamento da linguagem e do tom. Já temos visto isso: nas redes sociais, postagens e respostas em um estilo cada vez mais parecido deixam de ter personalidade. Perde-se justamente o que temos de mais autêntico.

O terceiro ponto é a atrofia cognitiva. Andrea Margin, CEO do Center for Arts and Innovation, trouxe o conceito da “Bicicleta de IA”. Aprendemos a andar de bicicleta nos esforçando, perdendo o equilíbrio, caindo, nos ajustando constantemente, em um ciclo no qual o esforço e as quedas são parte do processo. A “Bicicleta de IA”, porém, já vem equipada com motor, rodinhas e GPS, removendo todo o esforço, resiliência e disciplina necessários para nos desenvolvermos.

O ser humano não se desenvolveu em um ambiente de facilidades. Quando eliminamos o atrito e o esforço do meio do processo, corremos o risco de criar uma geração de pessoas que parecem especialistas, mas que não conseguem explicar suas ideias – muito menos conviver com o necessário esforço que está no caminho para a excelência.

Para onde vamos agora?

Em um mundo saturado de algoritmos, em que as interações dependem cada vez mais das telas e acontecem menos no mundo físico, é inegável que tem ocorrido a repetição das mesmas estéticas.

Dos vídeos na vertical aos filtros, passando pelas mesmas músicas de fundo sendo repetidas à exaustão nos feeds, existem padrões claros que ao mesmo tempo criam familiaridade e mesmice.

Enxergo os dois lados dessa moeda. Existe a produção massificada, indiferenciada, que se esgota em si mesma e cumpre um papel momentâneo. E ao mesmo tempo existe a busca por um gosto diferenciado, por uma liderança estética, que se torna um diferencial competitivo essencial. A IA replica padrões (e muito bem), mas é incapaz de decidir o que realmente importa, ou de sentir a tensão em uma sala. Por isso, o diferencial humano está na “criatividade com coração”.

Para acessar essa criatividade empática, precisamos partir de um princípio: o que queremos que as pessoas sintam quando são impactadas pela comunicação? Não se trata de empurrar produtos ou serviços – se trata de gerar conexões reais, efetivas, marcantes.

Isso não é algo novo. Ligue a TV ou acesse o celular e você será impactado por muita publicidade que não gera conexão. Acontecia há 50 anos, continua acontecendo hoje. A grande diferença é que, atualmente, é possível entender o comportamento das pessoas para saber o que realmente gera “clique” no coração.

Muitos irão pelos caminhos da homogeneização e da atrofia cognitiva. Mas só serão marcantes, relevantes, os que usarem a IA de forma intencional como um ajudante, não como o piloto. A tecnologia não substitui o esforço, a curiosidade e a autenticidade humana. É isso que nos faz gente, é isso que nos conecta com outras pessoas.

Nosso desafio, daqui em diante, não está em sermos melhores que as máquinas: está em garantir que o trabalho que fazemos continue a ter significado, seja excelente e gere conexão em um mundo cada vez mais automatizado. É sem abrir mão da nossa humanidade que continuaremos a crescer.