SXSW

Como lidamos com o que criamos?

A expectativa é entender como empresas e sociedade assumem as rédeas das transformações em movimento

Matheus Fonseca

Cofundador da Leapy 12 de março de 2026 - 16h26

Dois fatores foram fundamentais para a decisão de ir para Austin este ano e alimentam boa parte da minha expectativa para o SXSW 2026.

O primeiro surgiu quando comecei a olhar com mais atenção para a programação do evento. A inteligência artificial continua dominando o volume de sessões sugeridas, mas o que me chamou atenção foi a natureza das discussões que estão sendo propostas.

A própria organização do evento destacou algo nessa direção. Em vez de debates centrados apenas nas capacidades da tecnologia, aparece com mais frequência uma preocupação com seus efeitos: o que acontece com o trabalho, com a criatividade, com a saúde e com a própria organização da economia quando esses sistemas começam a ser incorporados no cotidiano.

Embora a IA permaneça como o tópico mais popular entre as sugestões recebidas, houve um crescimento significativo de sessões voltadas ao impacto da tecnologia na humanidade e às formas de proteger aspectos centrais da experiência humana.

Alguns exemplos ilustram bem essa mudança de abordagem. Um dos painéis parte de uma pesquisa da Brookings Institution com dados de 50 países e discute como construir resiliência em jovens em um mundo cada vez mais saturado por inteligência artificial. Outro debate é a chamada “geração toolbelt”, termo que tenta explicar por que mais da metade da geração Z nos Estados Unidos afirma considerar uma carreira em ofícios técnicos, um aumento de 12 pontos percentuais em relação ao ano anterior.

Para mim, esse tipo de discussão toca diretamente em uma preocupação urgente.

Fui jovem aprendiz, estudei em escola pública e hoje sou empreendedor da Leapy, organização que ajuda empresas a estruturar programas de aprendizagem não apenas como cumprimento da lei, mas como um verdadeiro pipeline de formação de talentos. Uma agenda constante que levantamos é o risco de, no atual modus operandi do mercado de trabalho, a automação dos cargos de entrada eliminar também os espaços de aprendizagem dentro das empresas. Se isso acontecer, interrompemos o fluxo natural de formação de profissionais que, em um futuro muito próximo, estas mesmas empresas irão demandar. Todo profissional experiente precisou construir esta experiência em algum lugar.

Um relatório publicado recentemente pela Anthropic, empresa responsável pelo Claude e uma das principais concorrentes da OpenAI, trouxe números que reforçam essa preocupação. O estudo indica que analistas júnior são quatro vezes mais propensos a serem prejudicados pela automação associada à IA. Desde o lançamento do ChatGPT, as contratações de profissionais entre 22 e 25 anos caíram cerca de 14%.

Esse tipo de evidência tira a discussão sobre inteligência artificial do campo da abstração e coloca uma pergunta muito concreta na mesa: como garantir que uma geração inteira continue tendo acesso ao primeiro trabalho?

Não espero que o SXSW traga respostas para perguntas dessa magnitude. Mas tenho a expectativa e esperança de ver essas perguntas sendo discutidas.

Palco, platéia e a lente brasileira

O segundo fator que pesou na decisão de ir ao evento tem menos relação com o que acontece nos palcos e mais com o que acontece ao redor deles.

Este ano participarei do SXSW como parte de uma delegação de CHROs e outras lideranças de RH de algumas das maiores empresas do Brasil, organizada pela Humanship. Isso cria uma dinâmica interessante de observação.

De um lado, estão as ideias apresentadas publicamente no evento: pesquisas, diagnósticos e provocações sobre tecnologia, trabalho e sociedade. De outro, as conversas que acontecem entre as sessões, nos corredores e nos encontros informais entre executivos que, ao voltar para o Brasil, estarão tomando decisões muito concretas sobre contratação, formação de talentos e organização do trabalho.

A oportunidade de observar essas duas camadas ao mesmo tempo, o debate global e a interpretação feita por quem toma decisões no mercado brasileiro, talvez seja tão reveladora quanto acompanhar os painéis em si.

Porque existe sempre um desafio importante quando se participa de eventos globais: a tradução dessas ideias para realidades muito diferentes daquelas onde elas surgiram. Quando falamos de Brasil, entram em cena fatores que muitas vezes não aparecem nas discussões internacionais. A maturidade digital das empresas, o ritmo de adoção tecnológica, as desigualdades de acesso à formação e, principalmente, o papel social que o trabalho ainda ocupa para milhões de pessoas.

O SXSW sempre foi um evento sobre possibilidades. Mas a impressão deste ano é que estamos entrando em uma fase um pouco diferente. A fase em que precisamos discutir não apenas o que a tecnologia pode fazer, mas como vamos conviver com as consequências dela.