SXSW, yo te quiero
Diante do ceticismo do hype, o sxsw vira um convite a duvidar e, quem sabe, se surpreender
No palco, pessoas extraordinárias a vangloriar-se das coisas extraordinárias que fizeram, descobriram ou estudaram. Na plateia, os banais, encafifados com as coisas banais que viram e fizeram. Todo evento cuja pretensão é revelar ou inspirar tem a capacidade de me colocar numa azeda posição crítica: “não vou sair aplaudindo só porque paguei caro para estar aqui”.
Tenho altíssimas expectativas com o SXSW de 2026. Espero que me demonstrem que a Inteligência Artificial é ética, responsável, transparente e humilde. Espero que me provem que a performance pode, sim, construir marca e que criatividade não é tudo isso, não. Aliás, quero que me demonstrem que um humano não pode ser substituído por uma máquina e, também, que, no futuro, os empregos operacionais não serão substituídos e que todos os psicanalistas, médicos, padres e advogados serão máquinas. No SXSW, quero ouvir que o mundo não está acabando, que os combustíveis fósseis não são tão ruins e que o pum das vacas não vai acabar com minhas praias, meus verões e meu bronze. Eu queria que não chovessem no molhado, que não contassem o padre-nosso ao vigário nem que pregassem para convertidos. Minha casa, meu camão e meu labrador não merecem que eu fique ruminando obviedades bem-pensantes em inglês.
Tenho outra confissão: é gostoso demais falar mal, fofocar e criar mil teorias para não gostar dos gurus da moda, dos influenciadores bombados e das histórias de sucesso alheias. É uma delícia criticar as poses, os modelitos e as perguntas burras. Qualquer evento internacional desse tipo é um desfile de crachás mais ou menos pretensiosos, mais ou menos esnobes, mais ou menos sabichões — portanto, um manancial suculento de fuxicos.
Mas, apesar do mau humor francês, sei que, por detrás da cortina de lugar-comum boa para encher linguiça de redes sociais, farei fila para ver Jane Fonda e seu “Artists, Activism & the First Amendment” e fazer um coro libertário; irei ver “Tradwives, Throuples, Trends: What Modern Love Means for Ads” para modernizar minhas preferências; a bomba atômica me atormenta, então irei ouvir “Nuclear Weapons & the Next Generation”; ainda leio livros e, por isso, vou à palestra “The Reading Reboot”; ainda acredito no ócio criativo e me interessa “The Creative Power of Letting Go: Why Quitting Can Be Your Biggest Breakthrough” e, na mesma pegada, “From Burnout to Bandwidth: Using AI to
Reclaim Your Day”; claro que quero ouvir “Charmageddon: Robots That Steal Hearts and Jobs”; tenho curiosidade de entender o que houve com esse sonho em “The American Dream Reconsidered”; não sei por que, mas “It Takes a Region: Cybersecurity Pathways in Rural Alabama” me chamou; quero discordar da palestra “Vibe Shift: How New Media Upended Our Ideas and Aesthetics”; vou colar na Axios House para ver o que rola de política e geopolítica, como o keynote “The Power Vote: Latinos and the 2026 Elections”; e, finalmente — claro — não perco por nada “Why Isn’t Gen Z Having Sex? How Politics Invaded the Bedroom”.
Que o SXSW me faça morder a língua.