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Minha filha de 11 anos está usando ChatGPT: e agora?

A dualidade entre o cuidado e o incentivo ao uso da tecnologia na infância de hoje

Isabela Castilho

CEO da Rocketseat 13 de março de 2026 - 11h31

(Crédito: Shutterstock)

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O uso de tecnologia não é novidade na rotina de mãe de uma pré-adolescente em 2026. Essa é a geração dos nativos digitais e hiperconectados desde o berço, que provavelmente têm mais facilidade de se adequar às novidades tecnológicas que muitos profissionais do mercado atual. 

Mas eu admito que no momento que a Antônia, minha filha de 11 anos, contou que estava usando o ChatGPT, um sentimento confuso veio à tona, uma mistura de medo, cuidado e curiosidade. 

Logo eu, que vivo rodeada pela IA e suas ferramentas, conversando sobre estratégias de aplicação e, muitas vezes, precisando convencer profissionais a darem o primeiro passo no uso da inteligência artificial generativa. A diferença, claro, é que todos esses são adultos, que sabem se cuidar na internet, ou pelo menos deveriam. Mas isso foi assunto que já comentei em outro momento aqui. Como eu poderia dizer que ela não deveria estar usando também? 

Mesmo que o uso de IA por crianças e adolescentes não seja novidade, considerando que 65% já aplicam em diversas atividades, como o Comitê Gestor da Internet (CGI.br) mostrou no relatório TIC Kids Online Brasil 2025, ver esse movimento dentro de casa é uma experiência à parte.

Como esse ainda não é um assunto do ensino regular dentro das escolas – mas deve se tornar em breve –, a responsabilidade desse ensino por enquanto fica com os pais e mães. 

Mas, antes de tentar ensinar qualquer coisa sobre ChatGPT para minha filha, eu precisava entender o que ela já sabia sobre ele, como estava engajando com a ferramenta e até onde esse uso faz sentido na rotina dela. 

“Mãe, eu não uso o ChatGPT para fazer as coisas pra mim, uso para me ajudar a estudar e responder coisas que ainda não sei.” Enquanto ela me contava, mostrava os cartões de estudos que tinha preparado para uma prova da escola, tudo feito no “Modo Estudo”, uma funcionalidade lançada em julho de 2025 que foge das perguntas e respostas prontas, incentiva o engajamento, pensamento crítico e maneiras de reforçar o conteúdo que foi conversado dentro do chat. 

Depois disso, veio a conversa sobre engenharia de prompt, sem palavras difíceis nem termos muito complicados para a idade dela. Não falamos sobre zero-shot, few-shot ou chain of thought. O intuito não é começar a formar uma especialista, mas ensinar a ela como construir uma boa pergunta e, principalmente, não fazer com que a IA só responda ao que ela quer ouvir, mas venha com informações concretas, e que ela possa confirmar também. 

Se adultos já são afetados pelo comportamento das IAs de sempre darem a razão ao usuário, já confirmado pelas empresas como padrão das ferramentas generativas, imagina o que isso pode causar para uma pessoa em processo de aprendizagem e desenvolvimento?

Por outro lado, nem toda criança tem a mesma noção, acesso ou incentivo para usar IA dessa forma, apoiada por adultos que conhecem os limites e cuidados essenciais nesse contexto. Outro relatório de 2025 diz que quase 40% de crianças brasileiras usam IA em busca de companhia, seja por se sentirem sozinhas ou pelo bullying que muitas sofrem nas escolas. 

O último ano foi repleto de ações e diretrizes das companhias de IA para proteger crianças e adolescentes. A OpenAI, criadora do ChatGPT, a ferramenta mais popular de IA generativa e, provavelmente, a mais acessada por jovens, é inclusive protagonista nesse movimento. Na atualização mais recente, dentro da conversa, a ferramenta é capaz de perceber a idade do usuário e deve restringir conteúdos e limitar tipos de respostas que podem ser perigosas para menores de 18 anos.

Enquanto a responsabilidade da segurança dentro das plataformas é de cada empresa, nossa parte é educar e instruir nossas crianças e adolescentes a usarem a ferramenta com cuidado. Assim elas serão ainda mais capazes de evoluir junto com a tecnologia e se tornarem adultos funcionais e, mais tarde, profissionais qualificados.

Proibir ou limitar o acesso à tecnologia, telas e ferramentas nem sempre será o melhor caminho no cenário que vivemos hoje. Claro, considerando sempre a idade e desenvolvimento das crianças como prioridade, não estamos falando sobre incentivar o uso de IA na primeira infância. 

Proteger não se resume a isolar. Deve ser sobre ensinar, capacitar e mostrar quais os cuidados necessários. Crianças também aprendem com exemplo e repetição, e é importante ver como você mesma usa, como fala sobre e o quanto permite que a IA e a tecnologia façam parte do seu dia, principalmente na frente dos pequenos.

Converse com seu filho ou sua filha sobre como usar o ChatGPT ou qualquer outra ferramenta com responsabilidade. Invista nesse aprendizado, porque eles provavelmente já usam e sabem que a IA não deve sair da nossa rotina tão cedo.