Opinião WW

Torcer, apoiar e crescer juntas

Por que o incentivo que nasce na quadra é o mesmo que precisamos levar para o cotidiano?

Vanessa Monteiro

Head of Sales & Partnerships no 365Scores 12 de março de 2026 - 9h44

(Crédito: Alexandre Loureiro/COB)

Rebeca Andrade entre as americanas Simone Biles e Jordan Chiles nas Olimpíadas de Paris 2024 (Crédito: Alexandre Loureiro/COB)

Tenho pensado bastante sobre o quanto as mulheres se incentivam — de verdade — no esporte e na vida. Será que a torcida é sempre genuína? Ou será que, no meio da correria de ser profissional, mãe, amiga, esposa, e de equilibrar todos os pratinhos do dia a dia, a gente acaba deixando esse apoio virar algo automático, quase invisível?

Pensei nisso porque queria contar uma história.

Tenho uma amiga que é apresentadora de TV, mas para mim, ela é simplesmente uma amiga muito querida. Nossos filhos são amigos, nossos maridos se tornaram amigos. Mas a nossa amizade nasceu, curiosamente, por influência do marido dela, que insistiu que ela precisava jogar tênis comigo. Foi assim que nos conhecemos, e dali nasceu uma amizade leve e cheia de incentivo e apoio. Uma torcida legítima em diferentes aspectos das nossas vidas

O mais interessante é que, para nós, o tênis nunca foi sobre competição. Sempre foi sobre conexão. Sobre incentivo, risadas, superação. Sobre jogarmos juntas mesmo.

E talvez essa leveza, de “jogar junto” em vez de “competir contra”, seja um dos grandes diferenciais da presença feminina no esporte.

Quando olhamos para o esporte feminino, há algo muito forte nesse espírito de apoio mútuo. Um fair play que vai além das regras, é uma solidariedade genuína. Não que no esporte masculino isso não exista. Mas por lá, muitas vezes, a rivalidade é mais intensa. Às vezes até demonstrar amizade entre rivais é visto como fraqueza.

Lembro da cena de Roger Federer e Rafael Nadal, dois gigantes e rivais históricos, quando Federer se aposentou e Nadal chorou ao lado dele. Foi uma das imagens mais bonitas do esporte atual. Justamente por isso muito marcante, mas que ainda assim, é rara.

No feminino, essas cenas são mais frequentes, ainda que nem sempre ganhem manchetes. Talvez porque, no fundo, as mulheres ainda lutem juntas por algo maior: igualdade, reconhecimento e visibilidade. E é nessa luta coletiva que nasce o verdadeiro apoio.

Um exemplo recente foi o que vimos com Rebeca Andrade nas Olimpíadas. Campeã, ídolo, inspiração. E o mais bonito: as outras ginastas, ao redor dela, comemorando cada conquista como se fosse delas também. Ninguém pensando “ela levou a minha medalha”, mas, sim, “que bom que uma de nós chegou lá”. Esse é o poder do incentivo feminino.

E ele já não se limita às quadras, pistas e ginásios.

Hoje, atletas são também creators, líderes de opinião e plataformas de influência. E as marcas perceberam isso. Um estudo recente mostra que 80% das marcas planejam investir em esportes femininos nos próximos anos. Não apenas por uma questão de justiça, mas de estratégia. O esporte feminino gera engajamento, inspira e movimenta uma economia que cresce rápido: as receitas globais devem ultrapassar US$ 2,35 bilhões em 2025, segundo projeção da Deloitte.

No Brasil, esse movimento também é evidente. A audiência do Brasileirão Feminino cresceu 41% em 2025, alcançando mais de 3,6 milhões de pessoas. O público não está apenas assistindo, está se conectando às histórias, às trajetórias e às atletas.

Mas ainda há muito a avançar. No programa Bolsa Atleta, por exemplo, as mulheres representam cerca de 41% dos beneficiários, um número importante, mas ainda distante da paridade.

Mesmo assim, os sinais são claros: visibilidade gera investimento. Investimento gera performance. Performance gera audiência. E audiência gera mercado.

E voltando à minha amiga, e a tantas outras, percebo como o esporte se torna um espelho da vida. Porque o incentivo que nasce na quadra é o mesmo que precisamos levar para o cotidiano. Torcer genuinamente uma pela outra. Vibrar com o sucesso da outra. Celebrar as conquistas como coletivas, e não individuais. Afinal, quando uma mulher chega lá, ela expande o campo e abre caminho para muitas outras passarem também.

Talvez o segredo esteja justamente nisso: não é só sobre competir melhor, mas como crescemos juntas. Que a gente siga torcendo, apoiando e avançando — juntas.