Vamos conversar sobre o luto?
Liderar é ter a coragem de olhar nos olhos e reconhecer a humanidade do outro, com todas as suas cicatrizes

(Crédito: Shutterstock)
É estranho falar de luto. Mas eu convido você, leitora desta coluna no Women to Watch, a repensar esse assunto no ambiente de trabalho.
Recentemente, em um encontro de lideranças femininas da Associação Brasileira deProdução de Obras Audiovisuais (Apro), ouvi a psicóloga Mariana Clark falar sobre a sua obra, “Lutos Corporativos”. Esta experiência impactou a minha forma de enxergar as pessoas à minha volta. E é por isso que escolhi esse tema para abrir a minha participação neste espaço.
É que devemos avançar por outros caminhos e enxergar novas possibilidades, com respeito pela jornada alheia.
Lidamos com no mínimo 35 tipos de luto ao longo da vida, e a maioria deles não tem a ver com a morte física. Mas sim uma reação à perda de um vínculo significativo. Desde a demissão de um companheiro de trabalho querido, a mudança brusca de uma diretoria, o encerramento de um projeto no qual depositamos sonhos, ou até a perda de um pet. Tudo pode nos impactar.
Entre os jovens que estão entrando no mercado agora, muitos sequer tiveram ritos de passagem. Devido à pandemia, não tiveram formaturas presenciais, não viveram o aprendizado no escritório, do dia a dia, durante os anos de isolamento. Eles também apresentam em suas relações algumas perdas que muitas vezes nós, líderes mais experientes, falhamos em acolher por estarmos condicionados à velocidade do “tudo pra ontem”.
Com nossas vidas expostas, parece cada vez mais que a tristeza precisa ter a duração de um post. Comunicamos algo e recebemos o apoio. E pronto. Está resolvido. E a superação ao problema relatado também virá rapidamente, com um próximo clique.
Não temos o hábito e o tempo de escutar o nosso silêncio. Nosso tempo de recolhimento e reflexão.
O luto não segue o calendário oficial. E um líder que ignora a dor do outro está, na verdade, sabotando a própria eficiência da equipe.
Precisamos, em 2026, de uma energia mais humana. Não se trata de tornar a empresa um consultório terapêutico, com longas conversas ou divagações. Mas transformar o nosso ambiente em um espaço de validação de sentimentos. Entender, acolher e ouvir. Ter uma troca justa, harmônica. Saber perguntar.
Uma frase que todas podemos adotar daqui por diante é: “vamos conversar sobre isso?”, abrindo espaço para um diálogo mais saudável.
Que a nossa história neste ano traga essa marca da empatia.
Vamos nessa?
PS: minha indicação é que você reserve um tempo para a obra de Mariana Clark. É um livro curto, mas com uma densidade necessária. Ele nos lembra que liderar não é somente buscar resultados; é ter a coragem de olhar nos olhos e reconhecer a humanidade do outro, com todas as suas cicatrizes. Boa leitura.