SUSTENTABILIDADE

El Niño: quais os desafios da gestão de riscos climáticos?

Agricultura, transportes e setor elétrico estão entre os mais sensíveis ao fenômeno que afeta o território de maneira irregular

i 10 de agosto de 2026 - 6h02

No início da semana passada, o Instituto Nacional de Metereologia (Inmet) em uma ação conjunta com outros órgãos federais divulgou o Boletim nº 2 do Painel El Niño 2026-2027. O documento aponta que o fenômeno deve se intensificar ao longo do segundo semestre de 2026 com possibilidade elevada de atingir categoria muito forte.

Recife/ Pernambuco- 24 de abril 2026 (Crédito: Remi-C.-Lapa-shutterstock)

Recife/ Pernambuco- 24 de abril 2026 | El Niño pode impactar regime de chuvas e aumentar os riscos de desastres naturais (Crédito: Remi-C.-Lapa-shutterstock)

O boletim alerta para possíveis impactos no regime de chuvas, temperatura, recursos hídricos e risco de desastres naturais. O El Niño é um fenômeno natural marcado pelo aquecimento das águas o Oceano Pacífico. Na prática, esse aquecimento altera temporariamente a distribuição de calor e umidade no planeta.

Considerando os modelos climáticos, o El Niño de 2026 já vem sendo chamado de Super El Niño. Isso acontece quando a anomalia da temperatura da superfície do mar ultrapassa +2º C em relação à média histórica. O último Super El Niño aconteceu entre 2015 e 2026.

Quais os setores mais afetados?

Em uma perspectiva de negócios, o El Niño não tem um efeito único sobre o território brasileiro. Professor de MBA’s da Fundação Getúlio Vargas e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, José Mauro Nunes explica que o fenômeno pode representar um excesso de chuvas e maior ocorrência de tempestades no Sul, enquanto parte da região Norte, Nordeste e Centro-Oeste sofreria com o risco de calor, estiagem e irregularidade de precipitações.

“Dentro de um mesmo setor, algumas regiões e empresas podem ser beneficiadas e outras severamente prejudicadas”, aponta Nunes. Entre os setores mais vulneráveis, estão o agronegócio, já que a irregularidade de chuvas interfere no calendário de plantio e na produtividade; e a pecuária com a redução das pastagens e o maior custo da alimentação animal.

Outro setor afetado negativamente, segundo o professor da FGV, é o de transportes e logística porque as chuvas e deslizamentos impactam as rodovias e as secas prejudicam a navegação fluvial. “O efeito econômico aparece na forma de atrasos, perda de mercadorias, encarecimento do frete, dificuldade de abastecimento e maior imprevisibilidade dos prazos de entrega”, destaca.

O setor elétrico enfrentaria uma situação ambivalente. Isso porque o aumento das temperaturas historicamente eleva o consumo de energia. Porém, a distribuição irregular de chuvas favorecer determinadas regiões e prejudicar outras.

Com a soma desses fatores, o varejo e a indústria de bens de consumo também podem ser afetados. Os alimentos, por exemplo, podem sofrer oscilações de preço e disponibilidade. O fenômeno não acontece no vácuo. Para além dos possíveis eventos climáticos, as empresas já convivem com custos financeiros elevados e incertezas sobre o ritmo da atividade econômica.

“El Niño chega em um momento em que as empresas já enfrentam uma combinação de incertezas geopolíticas, energéticas, inflacionárias e financeiras. O problema, portanto, não é apenas o clima. É a interação entre diferentes riscos”, aponta Heiko Spitzeck, diretor do núcleo de sustentabilidade da Fundação Dom Cabral.

Mudanças na gestão  

Para Spitzeck, mais do que ações individuais, um fenômeno como o El Niño exige uma mudança de gestão por parte das empresas que devem analisar e prever impactos climáticos nas regiões onde operam e na logística ao longo de sua cadeia; preparar infraestrutura e fábricas para os impactos; e se articular com outras empresas, o governo local e organizações do terceiro setor.

“Muito melhor investir juntos e compartilhar os custos associados, em vez de se preparar sozinha”, defende o diretor do núcleo de sustentabilidade da FDC.

Outra mudança estaria no campo da comunicação. Nunes afirma que as empresas precisam estabelecer protocolos claros para informar os consumidores, funcionários, fornecedores e comunidades sobre atrasos, interrupções, mudanças de funcionamento e medidas de segurança.

“Em eventos extremos, comunicação não é apenas uma atividade reputacional; ela se torna parte da continuidade do negócio”, aponta o professor da Fundação Getúlio Vargas.

Nunes finaliza: “Mais do que um episódio passageiro, o possível El Niño intenso deve ser entendido como um teste da maturidade das empresas brasileiras na gestão de riscos climáticos. O diferencial competitivo estará menos na capacidade de prever exatamente o que acontecerá e mais na capacidade de responder rapidamente a diferentes cenários”.