Marketing

Por que as multinacionais estão revendo seu portfólio?

Companhias como Nestlé, Unilever e Reckitt promoveram mudanças em suas divisões de negócio

i 5 de março de 2026 - 6h00

Em fevereiro, a Nestlé apresentou seus resultados financeiros de 2025 e anunciou que vai concentrar sua operação em quatro grandes pilares globais: café, petcare, nutrição e snacks. Juntos, os três primeiros representariam 70% das vendas globais da empresa.

Reestruturação de portfólio:

No mercado brasileiro, a divisão de sorvetes com a marca Nestlé já é operada pela Froneri, desde a criação da joint-venture em 2016 (Crédito: Opasbbb-shutterstock)

Em snacks, o grupo avança em uma racionalização das marcas com a venda dos negócios restantes de sorvetes para a Froneri. A companhia também iniciou um processo formal para buscar compradores para a divisão Nestlé Waters & Premium Beverages, que inclui as marcas Perrier, Acqua Panna e S. Pellegrino.

No mercado brasileiro, a divisão de sorvetes com a marca Nestlé já é operada pela Froneri, desde a criação da joint-venture em 2016. O negócio de águas, por sua vez, foi vendido em 2018 para o Grupo Edson Queiroz. As marcas premium de Nestlé Waters & Premium Beverages e Nestlé Pureza Vital estão no País por meio de acordo de licenciamento e distribuição de marcas.

Outras multinacionais também têm passado por movimentos de reestruturação de portfólio. A Unilever concluiu no ano passado o processo de separação da sua unidade de sorvetes, que deu origem à Magnum Ice Cream Company. Em comunicado, a companhia explicou que a separação faz parte da estratégia global para impulsionar crescimento e tornar a empresa mais ágil e eficiente.

“A categoria de sorvetes apresenta características operacionais específicas que se beneficiam de uma gestão independente e especializada para expandir. Com um portfólio organizado em quatro unidades de negócios (Beleza e Bem-Estar, Cuidados Pessoais, Cuidados com a Casa e Alimentos), a Unilever fortalece sua capacidade de acelerar a inovação, aprimorar sua performance e gerar mais valor para acionistas, clientes e consumidores”, apontou a companhia, em comunicado.

Também no ano passado, a Reckitt conclui a venda de sua participação majoritária na divisão de Essential Home, que conta com a marca Air Wick, para a Advent International. Para Rodrigo Catani, sócio da Gouvêa Consulting, o caso das divisões de sorvetes tem algumas particularidades, como a sazonalidade de vendas, a complexidade de gestão e os custos da cadeia do frio.

O que motiva a reestruturação de portfólio?

“Elas decidiram focar seus esforços em negócios com alto potencial de crescimento e grande sinergia comercial e operacional. Mas pensando de modo geral, todas as empresas têm buscado um aumento de efetividade e certamente isso passa por uma discussão estratégica de portfólio”, aponta o executivo.

Professor da FGV e da Strong Business School, Ulysses Reis, relaciona a decisão das companhias com o momento da economia global. “A população do planeta está sofrendo, em termos gerais, um aumento de custos e uma redução do poder de consumo. Então, o que as grandes organizações estão fazendo? Estão se concentrando nas categorias que têm maior rentabilidade”, explica.

Nesse cenário, surgem dois movimentos opostos. De um lado, a pressão econômica e a busca por melhores margens podem gerar uma concentração em categorias core para garantir a rentabilidade e a relevância das marcas frente à concorrência crescente e consumidores menos fiéis. Do outro, a reestruturação de portfólio abre espaço para inovação e o investimento em categorias e linhas de produto emergentes, que acompanhem a mudança no comportamento do consumidor. Seria o caso, por exemplo, das unidades de saúde e produtos funcionais.

O impacto dessas decisões na percepção de marca depende do nível de conexão. “No caso da Unilever, as marcas são bastante independentes, no caso de sorvetes a marca é a Kibon, aqui no Brasil. Então de certa forma, a marca institucional fica razoavelmente blindada. No caso da Nestlé, até por usar uma estratégia de marca guarda-chuva, a relação é direta por usar a marca Nestlé Sorvetes. Mas, mesmo neste caso, a marca é sólida e forte o suficiente para ser abalada por uma decisão desse tipo”, analisa Catani.