A IA que antecipa a dor do paciente
A Tandem Health é um assistente que surgiu para reduzir o trabalho médico administrativo
A Tandem Health é uma healthtech que nasceu a partir da constatação de que o trabalho médico administrativo ocupava 40% do tempo clínico total, ou seja, os profissionais de saúde trabalhavam além do atendimento às pessoas para gerenciar documentos.
O Tandem é um assistente médico completo baseado em inteligência artificial (IA), desenvolvido em resposta a essa realidade.
O assistente de IA auxilia os profissionais de saúde antes, durante e depois da consulta, e reduz o tempo e o esforço gastos com documentação para que a atenção do profissional seja focada no paciente.
Criado e gerenciado por profissionais de saúde, o Tandem se integra aos sistemas existentes e reflete o trabalho clínico diário.
Tandem e a melhora de processos
Lukas Saari é o CEO e um dos fundadores do Tandem. Questionado sobre porque pensou numa solução em relação aos prontuários médicos, em meio a tantos elementos que envolvem a saúde, o executivo diz que, ao estar junto a médicos, pensou, em algum momento, que precisava fazer algo para melhorar os processos.
“Gosto de otimizar a velocidade e pensar: como podemos começar e levar isso para os usuários o mais rápido possível? Quando começamos, falamos com, literalmente, com todos os médicos que eu conhecia para entender quais eram os principais pontos de dor na saúde”, diz Saari.
A decisão pela abordagem dos prontuários ficou sempre evidente. “Vendo que isso era também um caso de uso administrativo, e não apenas de uso clínico, significava que podíamos começar mais rápido, sem ensaios clínicos. Também é algo que se encaixa no fluxo de trabalho existente dos profissionais e resolve os principais pontos de dor que os médicos dizem ser o maior, que é sentar e fazer a documentação”, recorda.
Em terceiro lugar, afirma, era algo que podia se sustentar em cima dos sistemas de prontuários médico existentes de uma forma mais fácil porque não precisava substituir os sistemas existentes, o que estenderia muito os prazos de implementação.
Seis semanas depois
O desenvolvimento foi rápido, lembra Saari. “Seis semanas depois, fomos ao ar com nossa primeira clínica de atenção primária e clínicas de saúde mental que usavam o programa com pacientes e que trabalhavam de forma equivalente”, lembra.
Notoriamente, a saúde pode ser bastante cética sobre tecnologia, especialmente em relação à inteligência artificial (IA).
Portanto, como a Tandem quebrou esse preconceito?
No fundo, diz o CEO, trata-se de resolver um problema real que as pessoas têm no dia a dia. Como o assistente funcionava bem, foi muito mais fácil continuar e escalar.
Saari diz que não preocupou muito com a parte de captação de recursos para escalar a solução. “Acredito em construir um grande negócio e essas partes se resolvem sozinhas, essencialmente. Além disso, os processos levaram menos de duas semanas desde a primeira discussão sobre arrecadação de dinheiro em venture capital até uma grande quantidade de investidores interessados em financiar nossas rodadas. Portanto, tem sido mais sobre construir a empresa, e não focar em arrecadar fundos”, afirma.
Crises e desafios da saúde
A saúde enfrenta uma das maiores crises e desafios que temos na sociedade. Mais dinheiro é gasto em saúde a cada ano que passa, e não apenas em termos absolutos, mas também sobre parcela do PIB total. A maioria dos países gasta 20% do PIB apenas com saúde, diz o CEO.
“Temos uma população envelhecida que apenas vai piorar as coisas, o que significa que mais pessoas ficam mais velhas e exigem mais cuidados. Mas isso também significa que muitos técnicos e profissionais estão se aposentando e não estão sendo suficientemente substituídos”, aponta.
Portanto, questiona, o que precisa ser feito para que se possa melhorar ou, pelo menos, manter os padrões atuais de saúde?
Sobre os aprendizados que teve ao longo da jornada de escalabilidade do Tandem, Saari diz que, no começo, era uma equipe de 20 pessoas. “Agora, somos 150 pessoas em dez países. Mas faço tudo, como ser o CFO, o diretor de marketing, posso fazer vendas. Passei 80% do meu tempo programando durante a primeira metade do ano. À medida que cresce e se expande, percebe que cinco especialistas são muito melhores do que eu numa área específica”, diz, sobre o processo de crescimento.
IA e os empregos
Como em todas as áreas, também na saúde existe o debate sobre a IA tomar empregos. “Então, é daí que vem o nome tandem, que é a bicicleta com dois assentos e dois pedais, para que ambos possam fazer juntos. Imaginamos que os médicos permaneçam no banco da frente da bicicleta tandem. São eles que dirigem e mantêm o controle. E nós vamos no banco de trás tentando pedalar e dar superpoderes para eles, mas ainda são eles os que dirigem”, aponta, numa analogia a pedalar junto com outra pessoa.
Na análise de Saari, a saúde é indústria interessante por ser bastante única, pois há uma oferta limitada de cuidados de saúde, mas, ao mesmo tempo, há demanda infinita por saúde.
“Se você conseguir um atendimento melhor e mais acessível, as pessoas vão querer mais cuidados de saúde. É como se não faltassem trabalho. Temos uma escassez de médicos que para fazer executar todo o cuidado necessário. Como podemos empoderar os médicos?”, pergunta.
Assistente médico que apoia o profissional
É assim que o Tandem Health funciona, explica. Como um assistente médico que apoia o profissional técnico em todas as tarefas principais que desenvolveu durante o dia. “Podemos não apenas apoiar o médico durante e depois da consulta, mas também antes da consulta e dizer que você está prestes a conhecer seu próximo paciente. Normalmente, o médico estará sentado em frente ao paciente e se perguntará: O que devo fazer com ele? Isso é algo que consome muito tempo, mas também é impossível encontrar todos os detalhes certos para se elevar a qualidade de atendimento. Podemos usar um grande modelo de linguagem (LLM) que seja muito bom em processar grandes quantidades de informação que resuma e forneça a visão geral do paciente: que diga ao médico que você está prestes a conhecer o paciente ‘X”, ou que o médico o viu há um ano para isso, há quatro anos para aquilo, se é alérgico, se toma remédio etc.”
O CEO da Tandem diz que, obviamente há uma preocupação não somente com a tecnologia de saúde, mas de toda a indústria, com a dependência, quase demais, às vezes, da IA e de quanto isso tira o peso do elemento humano que, na área da saúde, especialmente na relação médico-paciente, é tão importante.
Se trata, de fato, de garantir que, mesmo com tecnologia, essa relação ainda seja de humano (médico) para humano (paciente). “A parte central é que o clínico permanece sempre à frente e são eles que controlam. Sempre temos o humano no circuito, mas, em vez de o humano no circuito ficar sentado e gastar de cinco a dez minutos fazendo tudo do zero, após cada consulta, ele recebe um rascunho que pode revisar e finalizar antes de assinar e aprovar”, exemplifica o CEO.
ChatGPT Health
A OpenAI lançou este ano, nos EUA, o ChatGPT Health, funcionalidade especializada que atua como assistente de saúde pessoal, integrado com prontuários eletrônicos e apps de fitness para oferecer análises de saúde personalizadas.
“Há números que indicam que, semanalmente, 250 milhões de perguntas relacionadas à saúde são feitas. Quero dizer, aqui se vê claramente a demanda por esse tipo de solução e o ponto de haver demanda infinita para atacar. Vamos avançar para o que são os médicos de IA que fazem isso de forma mais segura e regulada”, diz o CEO da Tandem.