opinião - denis de lutiis

Da busca à era da resposta: o novo desafio das marcas na IA

A transição para interações mediadas por sistemas inteligentes redefine marketing, conteúdo e competitividade

Denis de Lutiis

Head de marketing da Getnet Brasil 19 de junho de 2026 - 6h00

Durante décadas, a lógica da internet foi baseada em busca. O consumidor pesquisava, comparava opções, abria dezenas de abas e decidia sozinho qual produto ou serviço escolher. Nesse modelo, as marcas competiam por atenção: vencer significava aparecer primeiro.

Esse paradigma começa a mudar de forma acelerada. Com o avanço da inteligência artificial, o consumidor deixa de buscar links e passa a buscar respostas prontas, contextualizadas e personalizadas. Em vez de navegar por páginas, ele conversa com uma IA que interpreta necessidades, recomenda soluções e, cada vez mais, influencia diretamente decisões de compra.

Segundo estudo “Nova Lógica de Compra”, conduzido pela Gauge, Ecglobal e W3haus, empresas da unidade de negócios Stefanini Marketing, a inteligência artificial atingiu em dois meses, o que a internet levou sete anos, ou seja, 40 vezes mais rápido. Trata-se de uma mudança estrutural na forma como consumidores pesquisam, avaliam e escolhem, e que redefine profundamente a presença digital das marcas.

Nesse cenário, também vemos a forte presença do Agentic Commerce, no qual o agente de IA passa a monitorar preferências, rotinas e necessidades dos usuários. Ele não apenas decide o que comprar, mas onde comprar e como pagar. As projeções indicam que esse modelo pode movimentar até US$ 5 trilhões até 2030.

O impacto para as marcas é direto: se antes a disputa era por cliques, agora passa a ser por relevância algorítmica.

Da disputa por cliques à disputa por confiança

As IAs generativas mudaram completamente a dinâmica da descoberta digital. O consumidor deixou de interagir com palavras-chave isoladas e passou a formular demandas completas, contextualizadas, próximas de uma conversa humana. Isso altera profundamente a lógica de visibilidade.

No setor de meios de pagamentos, por exemplo, já não é suficiente disputar termos genéricos como “maquininha” ou “adquirência”. As perguntas evoluíram: “qual solução integra melhor com e-commerce?”, “como reduzir fraude em pagamentos digitais?”, “qual API oferece mais estabilidade para marketplaces?”.

Nesse novo ambiente, três fatores atuam de forma decisiva: reputação, relevância e autoridade. Assim, profundidade de conteúdo, clareza técnica e autoridade contextual passam a ter mais peso do que escala de investimento em mídia ou tamanho de marca.

O próprio estudo aponta que, nas respostas geradas por IA, conteúdo e contexto são mais relevantes do que participação de mercado. Isso cria um novo cenário competitivo.

Mais do que nunca, a relevância deixa de ser definida apenas pelo que a própria empresa comunica, e passa a depender do que o ecossistema digital, imprensa, comunidades, especialistas e clientes, reforça sobre ela. Mais vale um conteúdo externo falando bem da marca do que sua apresentação proprietária.

O novo desafio das marcas: serem compreendidas pelas máquinas

Historicamente, o marketing foi construído para impactar pessoas. Agora, passa a exigir uma camada adicional: ser compreendido por sistemas de inteligência artificial.

Na prática, isso significa estruturar conteúdos que não apenas engajem o público, mas também sejam interpretáveis por modelos que organizam, sintetizam e recomendam informação.

Uma marca, nesse contexto, deixa de ser definida exclusivamente por seus canais proprietários e passa a ser construída por um conjunto distribuído de sinais: menções, avaliações, conteúdos técnicos, matérias jornalísticas e interações no ambiente digital.

Quando essa narrativa é consistente em múltiplas fontes, ela se consolida como um padrão confiável, tanto para pessoas quanto para máquinas.

Mesmo assim, a confiança segue sendo um elemento central. O estudo do Grupo Stefanini mostra que 68% dos consumidores ainda buscam validar recomendações geradas por IA em outras fontes antes de concluir uma compra.

Isso reforça que, mesmo em um ambiente automatizado, credibilidade continua sendo um ativo decisivo.

O comércio invisível já começou

Estamos apenas no início dessa transformação.

O avanço do Agentic Commerce deve provocar a maior mudança estrutural no comércio digital desde o surgimento do e-commerce. Nesse cenário, o pagamento deixa de ser um momento explícito de checkout e passa a operar como

uma camada invisível, integrada às decisões automatizadas dos agentes inteligentes.

Isso demanda novos padrões de interoperabilidade, segurança, autenticação e integração entre ecossistemas.

No setor financeiro, essa discussão já está em curso. As empresas que conseguirem estruturar seus dados, APIs e reputação digital desde agora estarão melhor posicionadas para competir à medida que esse modelo ganha escala.

A era da resposta redefine relevância

Estamos deixando a era da busca para entrar definitivamente na era da resposta.

Essa transição não é apenas tecnológica, ela redefine o papel do marketing, a lógica do comércio digital e a forma como marcas constroem confiança.

Mais do que serem encontradas, as marcas precisarão ser escolhidas por sistemas que filtram, interpretam e recomendam.

E, nesse novo ambiente, não vencerá quem apenas aparece, mas quem consegue ser compreendido, confiável e relevante, tanto para pessoas quanto para máquinas.