Opinião

Já é 11.11 na China

A data dupla deixou de ser o aquecimento da Black Friday e virou o laboratório de como e quem vai comprar por nós em novembro

Briza Bueno

Diretora do AliExpress para a América Latina 3 de novembro de 2026 - 14h00

Toda vez que alguém me pergunta se o 11.11 é “a Black Friday chinesa”, eu respondo que não. E, neste ano, a própria China me deu o melhor argumento. Em um grande e-commerce do país o Tmall, o festival abriu a pré-venda no dia 15 e começou oficialmente às 20h de 20 de outubro. Basicamente, virou uma data dupla que dura quase um mês inteiro. Essa ação, parece somente um detalhe de calendário, mas diz muito sobre o que o 11.11 virou.

Os números, como sempre, impressionam. Segundo a Tmall, são 1 milhão de marcas e mais de 70 milhões de produtos participando, um recorde. Ainda de acordo com a empresa, o número de lojistas lançando produtos novos antes do festival cresceu 64% em um ano, e 60 mil vendedores estreiam na data em 2026. Mas, para mim, a grande novidade não está no tamanho. Está em quem vai fazer as compras.

Este é o primeiro 11.11 em que um agente de inteligência artificial (IA) conhece o catálogo inteiro. Em maio, o Alibaba anunciou que o Qwen, sua IA, passou a estar conectado a mais de quatro bilhões de produtos das suas plataformas na China. O assistente compara opções, faz prova virtual de roupas e, talvez o mais simbólico, calcula sozinho a melhor combinação de cupons no checkout.

E tem um detalhe quase poético. Neste ano, a própria IA virou produto em promoção, com uma área inteira do festival dedicada a pacotes de tokens de IA, segundo a plataforma. O 11.11 vai ser o maior campo de treinamento da IA do grupo. Faz sentido. Nenhum outro momento do ano reúne tanta gente, tanto produto e tanta decisão em tão pouco tempo.

O 11.11 é a data da descoberta

E 2026 traz um elemento novo para essa conta. O consumidor brasileiro chega a novembro com um assistente no bolso. Segundo o Agentic Commerce Report 2026, da Global Payments, a parcela de brasileiros que já testaram ou aceitariam deixar um agente de IA comprar por eles saltou de 39% para 72% em um ano, atrás apenas da China. Já o estudo Black Friday Talks 2026, da Stefanini Marketing, aponta que 86% dos consumidores pretendem usar IA durante a Black Friday, principalmente para comparar ofertas e checar se o desconto é real.

Isso muda o jogo para as duas datas, mas de formas diferentes. Na Black Friday, o agente vai ser o fiscal implacável do preço, compara especificação, histórico e frete em segundos, e não se deixa levar por contagem regressiva. No 11.11, pode ser o melhor amigo da descoberta, desde que a marca tenha algo para ser descoberto. No fim, novembro deixou de ser um mês com duas datas para virar uma temporada com dois idiomas. Um fala com o algoritmo, preço, informação, zero fricção. O outro fala com as pessoas, entretenimento, surpresa e a alegria de achar algo diferente. As marcas que vão sair na frente são as que forem fluentes nos dois.

Na China, o 11.11 já começou. E na sua empresa, ele começa quando?