Opinião

O legado que fica

Por que a mentoria é a ferramenta mais poderosa da liderança

Patrícia Corsi

Chief growth Officer da Kimberly-Clark 30 de outubro de 2026 - 6h00

Recentemente, perdi uma grande amiga, a Luiza. Nossa amizade começou trabalhando como pares, juntando forças para resolver problemas de negócio e acelerar o crescimento da categoria em que trabalhávamos, eu na área comercial e ela em R&D. Juntas, éramos imbatíveis; não havia problema pequeno ou grande demais. Trabalhar era mais do que obrigação, era um prazer e um aprendizado cotidiano. Aprendíamos uma com a outra, diariamente, e, mesmo sem nunca termos etiquetado a nossa conexão, uma era mentora da outra. Ela me guiava em como trabalhar na Europa, e eu, em contrapartida, ensinava a perseverança e determinação brasileiras.

Trabalhamos juntas em duas companhias e segui aprendendo com ela, a sua liderança humilde e a serviço do time sempre me inspiraram. Por isso, quando ela me ligou para contar que tinha uma doença terminal, depois de passar uma semana pedindo que aquela ligação tivesse sido um pesadelo, resolvi trazer à vida todo o seu impacto, e honrá-la – mesmo que brevemente – antes da sua partida. Usei a minha rede de contatos e consegui encontrar pessoas que tinham trabalhado com ela nos últimos 35 anos. Colhi depoimentos, fotos e testemunhei uma enxurrada de reconhecimento. Nenhum deles falava das fábricas que ela abriu, dos empregos e resultados que gerou. Todas falavam da líder, da mentora generosa e solidária.

Montar o livro com esses depoimentos foi uma lição do que é ser um grande mentor. O que recebi foi consistente e emocionante: a cada e-mail, uma história de gratidão e exemplos de como ela havia guiado, apoiado e aconselhado cada indivíduo, e como aquelas experiências fizeram a diferença para cada uma das pessoas que ela alcançou. Esse foi o seu legado.

Enquanto eu refletia, reconheci que mesmo as pessoas mais confiantes se beneficiam ao ver alguém experiente reconhecendo seus talentos, e até os mais teimosos escutam quando o conselho é genuíno e sem segundas intenções.

Eu – que já acreditava piamente no poder da mentoria na ONG da qual sou fundadora, a “Latinas do Bem”, e esse é o nosso programa gratuito carro-chefe – preciso confessar que saí ainda mais determinada a divulgar a sua importância e impacto.

A mentoria como ferramenta de desenvolvimento e crescimento tem sido usada e provada com sucesso por mais de três mil anos. Para quem não sabe, a palavra apareceu escrita pela primeira vez na Odisseia de Homero, em que Ulisses confia a educação de seu filho a um fiel amigo, que se chamava Mentor.

Mas você não precisa ir à mitologia grega para ver e crer nos benefícios: Phil Jackson e Michael Jordan, Sir Alex Ferguson e Cristiano Ronaldo, Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade, Helena Pacheco e Marta. Esses são apenas alguns exemplos brasileiros e internacionais de mentor e mentorado que mudaram a história.

O sucesso do mentorado e do mentor estão conectados de maneira profunda e duradoura. A mentoria é mutuamente benéfica, mas, se é assim, por que não a temos integrada em todos os setores ao nosso redor? Em empresas, universidades, clubes esportivos e órgãos de governo?

Minha hipótese? Exige tempo e investimento pessoal. E atualmente esses são ativos dos mais preciosos que todos nós temos.

Mas se não mudarmos isso, no contexto atual, em que todos nós fazemos malabarismo, equilibrando pratos, em um mundo que se torna mais complexo e imprevisível, em negócios que enfrentam desafios cada vez maiores, seremos parte de um futuro com menos potencial e menos legados profissionais.

Acredito na criação de movimentos pelo bem e para o bem. Se cada pessoa que estiver me lendo se comprometer a mentorar um único indivíduo, e esse indivíduo fizer o mesmo, começaremos a construir um know-how instintivo que não precisará de lembretes, ou mesmo de um mês no ano para celebração.

Eu seguirei o legado e exemplo que recebi. Sei que a Luiza teria gostado de ver.