As peças brancas se movem primeiro
Quando você dirige uma agência minimamente relevante, suas opiniões circulam por onde não foram convidadas e, eventualmente, voltam na forma de oportunidades que deixaram de existir
Passei parte considerável da vida tentando convencer diretores de marketing sobre as minhas ideias – e departamentos de compra de que essas ideias custavam mais do que um prego. Nesse período, aprendi bastante sobre gestão, criatividade, negócios e uma modalidade muito particular de contorcionismo moral que o mercado convencionou chamar de maturidade.
A publicidade adora gente que desafia convenções, questiona o sistema, rompe paradigmas, enfrenta o status quo, desde que isso tudo renda bons cases e prêmios em Cannes, nossa meca do white saviourism. A grande questão, porém, é quando essa rebeldia toda extrapola o keynote.
Sempre me posicionei politicamente. Antes, durante e depois de ter agência. Não considero isso uma virtude extraordinária. Tenho opiniões, algumas convicções, instinto de sobrevivência e a inconveniência de achar que direitos fundamentais não deveriam depender das circunstâncias comerciais de quem os defende. O que descobri ao longo desses anos é que, quando você dirige uma agência minimamente relevante, suas opiniões circulam por lugares onde não foram convidadas, chegam a reuniões em que você não está e, eventualmente, voltam na forma de oportunidades que deixaram de existir. Sou familiarizado com esse risco fora da teoria e com a intimidade desagradável de quem já conhece os cobradores pelo primeiro nome. Vi relações comerciais terminarem sem briga, sem e-mail, sem nada, apenas aquele esfriamento educado em que o “vamos marcar um café” vira “vamos falando” e depois vira nada. Fui cortado de concorrências que eu teria vencido. Sumi de listas de convidados de festas a que eu nem queria ir, o que não impediu que doesse. A vaidade é um órgão que continua sentindo mesmo depois de amputado. Ninguém nunca me disse o motivo, claro, porque o mercado publicitário tem a delicadeza das famílias tradicionais: ninguém briga, todo mundo apenas para de convidar. As faturas chegaram diretamente ao meu endereço, com meu nome escrito certo, o que, convenhamos, é mais atenção do que alguns clientes me dedicaram em anos de contrato. Algumas dessas faturas eu ainda estou pagando. Outras paguei com gosto, como quem compra o direito de continuar se olhando no espelho sem pedir desconto.
Há uma particularidade nessa história. Sou um homem que passou 15 anos comandando uma agência num mercado em que o poder ainda circula com uma familiaridade impressionante entre determinados sobrenomes, escolas e tonalidades de pele bem distintas da minha. Aprendi que uma liderança preta pode ser celebrada por sua trajetória e, simultaneamente, constrangida pelas opiniões que essa mesma trajetória ajudou a formar. A diversidade é muito bem recebida quando está na moda e na meta. Quando está na mesa, começa a exigir algumas adaptações.
Mas seria muito fácil transformar essa experiência numa história sobre um empresário corajoso enfrentando um mercado covarde. Além de falsa, seria uma narrativa bastante conveniente para mim. A verdade é que tive medo. Fiz contas. Engoli comentários. Evitei discussões e, em algumas ocasiões, me calei. Havia dezenas de pessoas esperando seus salários no fim do mês e nenhuma delas poderia pagar o supermercado com a satisfação moral do chefe. A coragem tem uma relação bastante problemática com o fluxo de caixa, principalmente quando o fluxo é negativo. Como bem disse Seu Madruga, “Quando o bolso aperta, a vergonha afrouxa.”
Dirigir uma agência exige negociar contradições que dificilmente aparecem nas palestras sobre liderança. Você pode discordar profundamente de alguém e construir com essa pessoa uma relação profissional respeitosa. Pode defender publicamente uma convicção e precisar considerar os efeitos dessa manifestação sobre pessoas que não participaram da decisão. Pode acreditar que determinada posição é necessária e, ainda assim, passar a noite fazendo contas para descobrir quanto custaria sustentá-la.
Às vezes, penso no quanto minha vida teria sido mais rentável se eu tivesse aprendido melhor essa coreografia. Vi muita gente fazendo isso. De certa forma, invejo. Alguns, hoje, têm casa na praia. Eu tenho este texto. Não sei se ganhei a troca, mas pelo menos conheço parte do que ela me custou, o que, para um publicitário, já é uma forma rara de honestidade.
Para algumas pessoas, o silêncio é uma estratégia comercial perfeitamente administrável, como foi para os banqueiros suíços que guardaram o ouro de todos os lados durante a guerra, com a neutralidade impecável de quem não pergunta a origem do depósito. O silêncio de que falo é um negócio de longo prazo, com juros compostos.
Calar para não perder um cliente é humano. Eu entendo. Já fiz coisas piores por menos. Mas calar e depois ganhar prêmio com a consequência do silêncio é outra modalidade de rendição. Quem se cala, nesse sentido, não é covarde. É um atuário. Calcula a probabilidade de sinistro e decide segurar a própria opinião. O problema dos atuários é que eles acertam o preço de quase tudo e nunca o valor de coisa nenhuma.
Depois de 15 anos, continuo sem uma fórmula para conciliar convicções, responsabilidades e interesses comerciais. Tenho algumas cicatrizes, contas que preferia não ter pagado e a suspeita de que poderia ter administrado melhor determinadas situações. O que sei é que se posicionar tem um preço. O silêncio também. A diferença é que o primeiro costuma chegar na forma de uma fatura e a conveniência continua cobrando juros por anos, discretamente, com a pontualidade que somente os credores e a consciência têm.