Opinião

O ESG começa da porta para dentro da organização

Cor lilás na publicidade sem governança e integração interna apenas adia que uma crise ganhe visibilidade

Fayda Belo

Jurista e especialista em direito das mulheres, direito antidiscriminatório e consultora jurídica 31 de agosto de 2026 - 15h00

Chegou o Agosto Lilás. Neste mês, as marcas mudam a cor das campanhas, contratam palestras e publicam mensagens de apoio para reforçar o compromisso com as mulheres.

Mas surge uma pergunta inevitável: será que as empresas realmente sabem proteger as mulheres que trabalham nelas?

A Lei Maria da Penha foi decisiva para entendermos que a violência doméstica não é um assunto privado, mas uma grave violação de direitos humanos que afeta toda a sociedade e, por isso, as organizações precisam avançar da conscientização para a gestão desse risco, pois a violência doméstica representa um risco estrutural que compromete a continuidade operacional de quem depende de pessoas.

No mercado da comunicação e publicidade, a incoerência entre o discurso e a prática é ainda mais sensível quando uma campanha defende o respeito às mulheres, mas nos bastidores o assédio é tolerado, bem como a sobrecarga, o silenciamento e a retaliação, a incoerência deixa de ser só um problema interno e vira uma contradição da marca que pode se transformar em crise. A comunicação, nesse caso, não resolve a falha de governança; ela só consegue adiar que a situação apareça.

Uma marca não sustenta, na comunicação, um compromisso que internamente não cumpre na própria cultura.

A pesquisa feita pelos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva revelou que 54 % das brasileiras, cerca de 47,7 milhões de mulheres, já passaram por algum tipo de violência prevista na Lei Maria da Penha. Diante desse número, a pergunta que devemos fazer não é “será que há casos na minha empresa?”, mas sim “quantas colaboradoras estão tentando entregar resultados enquanto administram medo, controle, ameaça ou perseguição?”

Mesmo que não tenha uma rubrica chamada violência doméstica no balanço, isso não quer dizer que a violência doméstica não esteja afetando o negócio, porque o custo aparece fragmentado entre as áreas da organização.

O RH registra as faltas e a rotatividade. A Saúde Ocupacional acompanha o adoecimento e o afastamento. A Operação absorve os erros, os prazos não cumpridos e o retrabalho. O Jurídico só entra quando a crise já está instalada. Isso mostra que, sem governança, cada área vê só uma parte do problema e ninguém cuida do risco por completo.

Na outra ponta está a mulher, para quem o trabalho é o último espaço de liberdade. É no trabalho que ela preserva a renda, os vínculos, a rede de apoio e tem alguma chance de romper o ciclo de violência, e perder o emprego pode ampliar esse ciclo.

A nova NR-1 reforça esse alerta incluindo expressamente os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no gerenciamento dos riscos ocupacionais, exigindo que as empresas passem a observar como a organização do trabalho tem resultado em assédio, violência, discriminação e sobrecarga, ou seja, em fatores de risco à saúde de seus colaboradores. Significa dizer que prevenir deixou de ser apenas uma escolha ética e passou a ser uma responsabilidade da gestão.

A capacidade institucional de resolução e resposta a essa demanda, começa com diagnóstico da cultura e dos riscos, canais seguros e confiáveis para denúncias, protocolos e fluxos com responsabilidades claras, lideranças treinadas para lidar corretamente, matriz de risco que entenda a gravidade de cada situação, proteção contra retaliações e preservação de emprego e renda.

Essa capacidade institucional também depende da integração entre a alta liderança, o RH, a saúde, a segurança, o jurídico, o compliance, o ESG e a comunicação.

Empresas que reconhecem que a violência doméstica também é um tema do mundo corporativo e agem preservam produtividade, reduzem riscos, retêm talentos, fortalecem a confiança interna do time, protegem sua reputação, preservam seus resultados e garantem um ESG baseado em evidências. Em vez de só evitar uma crise de imagem, criam coerência entre o que dizem ao mercado e o que fazem dentro da empresa quando uma mulher pede ajuda.

Neste Agosto Lilás, o desafio das marcas não é só colocar a cor lilás na publicidade. É garantir que, quando a campanha acabar, a proteção às mulheres continue.