opinião - gica trierweiler

Decidi que eu quero ter trabalho

Talvez seja hora de abandonar o sofá e abraçar o espírito de exploração e imaginação nos negócios

Gica Trierweiler

CSO da Bullet 28 de agosto de 2026 - 6h00

Para o desespero do meu cardiologista, eu sou do time do sofá. Se Aristóteles fosse vivo, me daria o prêmio Retórica do Ano como reconhecimento pela minha capacidade de articular centenas de motivos para não sair do sofá. É de lá que eu trabalho, como, durmo, faço reunião, peço comida, pago contas, bordo pedrarias, monto a lista do mercado e penso que, apesar de assinar dezenas de serviços de streaming, lá vou eu assistir The Office pela vigésima vez. Tudo isso porque não quero ter trabalho.

Eu tenho uma amiga que é inimiga do sofá, uma força da natureza. Alguns anos atrás criou um bloco de Carnaval cuja premissa era se plugar em outros blocos de Carnaval porque ela era uma pessoa só, mas não queria saber de se privar da experiência de realizar o sonho do bloquinho próprio. Tem um tempo que o bloco dela anda com as próprias pernas de pau, dezenas de instrumentos e muita gente que vence o sofá a cada saída, como a que aconteceu no último sábado, num treze de junho, lá no meio de uma área industrial de São Paulo.

Quem, em sã consciência, acorda cedo num sábado pra passar purpurina na cara, vestir uma fantasia e se deslocar até a casa do chapéu com um trombone nas costas? Bastante gente. Umas 100 pessoas, na verdade. Esse pessoal todo se deu o trabalho só porque era dia dos namorados, São João e tinha o debut da Seleção na Copa do Mundo. “Como assim a gente não vai festejar essa confluência de sazonalidades brasileiras?” eles perguntaram. “Senhor do céu, que trabalho”, eu respondi. Você precisava ver o olhar que o sofá me lançou quando cruzei a porta pra ir lá. Nem minha amiga acreditou. E é claro que foi lindo.

Tenho um outro amigo que tem uns parafusos a menos. Sueco. Dez anos atrás, muito antes de existirem entregadores-robô e drones de delivery, lá estava criando uma loja que anda sozinha pelas ruas de Singapura. Hoje ele é diretor de criação de um estúdio de design em Estocolmo e volta e meia trocamos uma ideia. O tema de ontem foi a dificuldade em encontrar gente do outro lado do balcão disposta a ter trabalho e o quanto as marcas estão entrando no time do sofá. Ao invés de reclamar, meu amigo instalou uma montanha-russa dentro do escritório (essa, com todos os devidos parafusos e muito bem apertados). Ele explicou:

“A montanha-russa é um lembrete do que defendemos: o oposto do previsível, do excessivamente polido e do que é analisado em excesso. Estamos todos cercados por conteúdos orientados por dados, cada vez mais ajustados para serem ‘atraentes’, mas que carecem daquele toque humano, das imperfeições, da espontaneidade e das surpresas. Essa montanha-russa é uma declaração contra essa tendência. Ela é inesperada, talvez até não muito prática, mas representa o espírito de exploração e imaginação”.