Uma indústria furiosa, mas (que ironia) pouco veloz
No Salão do Automóvel de São Paulo, fabricantes mostram que ainda têm um longo caminho a percorrer na criação de experiências digitais integradas ao contexto de seus usuários
Nos últimos anos, o Brasil viu o Uber quintuplicar de tamanho, o Waze bater a casa dos 6 milhões de usuários e o car-sharing começar a sair do papel. Enquanto isso, a produção de veículos despencou quase 18% até outubro de 2016, na mesma proporção que a emissão de CNHs (há quem diga que os filhos dos millenials sequer aprenderão a dirigir), e o celular definitivamente se tornou um acessório extra-oficial do carro, mesmo com as multas para o uso do aparelho ao volante cada vez mais rigorosas. No entanto, uma volta pelo Salão do Automóvel de São Paulo, evento realizado na semana passada e que é um dos maiores da indústria automotiva mundial, faz parecer que pouco ou nada disso aconteceu.
Nos estandes, veículos com sistemas de navegação embarcada, centrais de infotainment sem touchscreen e a enxurrada de crossovers e SUVs – em contraposição ao número de carros elétricos que sequer contam com estrutura para aportar em massa no Brasil – mostram uma indústria desconectada do seu zeitgeist (o espírito da época, em bom português) e dos hábitos e necessidades digitais de seus usuários.
Por exemplo, ainda são poucos (poucos mesmo!) os fabricantes que apresentaram um console verdadeiramente apropriado para acomodar o celular, seja para uso espelhado ou como tela principal. Boa notícia para os fabricantes das populares “garrinhas”, que continuarão ganhando dinheiro com a venda de suportes inadequados para os padrões de segurança que um carro exige.
A palavra conectividade até brilha nos estandes dos principais, mas muito graças a iniciativas da indústria da tecnologia, como o Android Auto, do Google, e o CarPlay, da Apple. Nos sistemas próprios desenvolvidos pelas montadoras, as interfaces ainda carregam no visual o skeumorfismo da internet de anos atrás
A palavra conectividade até brilha nos estandes dos principais, mas muito graças a iniciativas da indústria da tecnologia, como o Android Auto, do Google, e o CarPlay, da Apple. Nos sistemas próprios desenvolvidos pelas montadoras, as interfaces ainda carregam no visual o skeumorfismo da internet de anos atrás. Mas, independente do design, será que reproduzir no carro o que já temos no celular, mesmo que de forma mais segura, é o melhor que a conectividade tem a oferecer?
Os serviços de concierge tentam dar um passo além. Assistentes como o OnStar e o BMW Connected Drive auxiliam o motorista com sugestões de entretenimento, fazem reservas e ainda solicitam ajuda em casos de emergência. Também oferecem uma série de alertas e funções para garantir a segurança do veículo, como travamento e abertura do carro a distância. Eles podem ser acionados de forma relativamente fácil: direto do carro, por meio de um botão ou de aplicativos. A montadora líder de vendas no país, inclusive, já inclui o serviço como cortesia nos 12 primeiros meses.
Ainda assim, o que se viu no Salão do Automóvel de São Paulo foram iniciativas aquém para a expectativa em relação ao potencial do setor. A indústria automotiva, cada vez mais em fúria por vendas, precisa de novos parceiros para olhar além do chassi e criar experiências relevantes para usuários. E isso só é possível a partir do entendimento do seu contexto ao seu redor e, principalmente, do comportamento do seu usuário – que, vale lembrar, tende a ser cada vez mais passageiro do que motorista. A revolução que vimos em outros bens de consumo, como o de dispositivos móveis, ainda parece tão distante do setor automobilístico quanto o Lamborghini Huracán (o veículo mais caro do evento) da minha garagem.
A indústria automotiva, cada vez mais em fúria por vendas, precisa de novos parceiros para olhar além do chassi e criar experiências relevantes para usuários. E isso só é possível a partir do entendimento do seu contexto ao seu redor e, principalmente, do comportamento do seu usuário
No final do dia, o Salão do Automóvel acaba sendo um evento para encantar e inspirar – seja com os carrões exibidos ou com os espetáculos preparados pelas fabricantes. E é aí que ele cumpre bem o seu papel. O “Espaço dos Sonhos”, destinado aos veículos mais luxuosos, por exemplo, é prova disso. Quem não se emociona com os detalhes da Maserati Quattroporte GTS ou do novo Porsche Panamera? Como não se ver em uma relação extraconjugal com a curvilínea Ferrari 488 GTB? E o Tesla Model S certamente nos faz pensar em um acordo de paz com o meio-ambiente.
De qualquer forma, um pouco mais de conexão com nosso tempo, e nossos hábitos digitais, seria muito bem-vinda por parte dos principais fabricantes do setor. Quem sabe os alegres tons de laranja e azul com que as montadoras tingiram seus veículos nessa edição remetam a um horizonte mais colorido em termos de conectividade e integração com as necessidades digitais dos usuários.