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A Copa sem monopólio é apenas o sintoma de uma mudança maior na mídia

A discussão deveria ser sobre o que esse novo modelo revela a respeito da própria mídia

Edu Sani

CEO da AdsPlay 6 de julho de 2026 - 6h00

Durante décadas, a Copa do Mundo funcionou como o maior exemplo de concentração de audiência da publicidade brasileira. Grandes marcas disputavam espaço em torno de uma mesma transmissão, confiando que milhões de pessoas estariam reunidas diante da mesma tela, ao mesmo tempo. A edição de 2026 encerra definitivamente essa lógica.

Pela segunda vez desde 1998, os direitos de transmissão deixam de estar concentrados em um único grupo de comunicação. Globo, SporTV, Globoplay, CazéTV, SBT e N Sports dividem a cobertura do principal evento esportivo do planeta. Mais do que uma redistribuição comercial, essa mudança materializa uma transformação que o mercado já vivia, mas que agora se torna impossível de ignorar.

A discussão não deveria ser sobre quem ganhou ou perdeu espaço na transmissão da Copa. Ela deveria ser sobre o que esse novo modelo revela a respeito da própria mídia.

Os números mostram isso com clareza. A televisão aberta continua concentrando o maior alcance, com cerca de 96 milhões de pessoas impactadas nos primeiros dias do torneio. Ao mesmo tempo, plataformas digitais acumulam audiências inéditas. A CazéTV alcançou quase 39 milhões de pessoas no mesmo período, enquanto mais de 74 milhões foram impactadas pelo canal apenas na primeira semana da competição. O pico de audiência simultânea chegou a 16,1 milhões de dispositivos conectados em um único jogo.

Nenhum desses dados, isoladamente, conta a história completa. O que eles revelam é que a audiência deixou de migrar entre plataformas. Ela passou a existir em várias delas ao mesmo tempo.

O mercado, durante muito tempo, tratou a fragmentação como consequência da digitalização, quando na verdade ela representa uma mudança mais profunda: a atenção deixou de ser concentrada em um único ambiente e passou a circular continuamente entre diferentes telas, formatos e contextos. E o consumidor, que já não escolhe entre televisão ou streaming, entre celular ou computador, combina todos esses ambientes em uma única experiência de consumo.

Essa mudança altera completamente a lógica do planejamento de mídia.

Historicamente, grandes eventos esportivos permitiam resolver boa parte do desafio de comunicação por meio da escala. Bastava comprar um espaço de alta audiência para alcançar praticamente todo o público desejado. Hoje, o alcance continua importante, mas já não garante eficiência. Estar presente em vários canais também deixou de ser suficiente. O foco é compreender o papel que cada ambiente exerce dentro da jornada do consumidor. Essa diferença parece sutil, mas muda toda a estratégia.

Quando a audiência era concentrada, a discussão girava em torno de cobertura e frequência. Em um ambiente distribuído, entram em cena integração, mensuração e capacidade de interpretar comportamentos que acontecem simultaneamente em diferentes plataformas. É justamente por isso que a Copa de 2026 extrapola o universo esportivo, onde expõe um fenômeno que já vinha reorganizando toda a indústria da comunicação.

O próprio investimento acompanha essa transformação. Segundo o Digital AdSpend 2026, o mercado brasileiro movimentou R$ 42,7 bilhões em publicidade digital em 2025, crescimento de 12,7% em relação ao ano anterior. Ao mesmo tempo em que surgem novos canais, cresce também a pressão para justificar resultados em um ambiente cada vez mais complexo.

Essa complexidade ajuda a explicar outro movimento importante. O mercado sempre discutiu quais canais deveriam receber mais investimento. Hoje, a questão mais relevante talvez seja outra: como fazer todos esses canais funcionarem de maneira coordenada. Quanto maior a fragmentação, menor a utilidade de estratégias construídas de forma isolada.

Isso vale para televisão, redes sociais, streaming, programática, retail media, DOOH ou qualquer outro formato que venha a surgir. A discussão deixa de ser sobre mídia e passa a ser sobre integração. E esse novo cenário também altera a forma como campanhas são avaliadas.

Alcance era o principal indicador de sucesso. Atenção, interação, tempo de exposição, qualidade do engajamento e capacidade de gerar dados passam, hoje, a dividir protagonismo com as métricas tradicionais. Obviamente, não significa que a audiência perdeu importância. Significa que audiência, sozinha, já não explica resultado.

É por isso que formatos mais interativos, tecnologias de mensuração e inteligência de dados ganham espaço justamente quando a mídia se torna mais pulverizada. Quanto mais distribuída está a atenção do consumidor, maior a necessidade de compreender como ela se manifesta em cada ambiente. A Copa apenas torna esse movimento mais visível porque concentra, em poucas semanas, uma transformação que o restante da indústria experimenta diariamente.

O estudo SportScope, da Kantar IBOPE Media, reforça esse contexto por outro ângulo. O levantamento mostra que 81% dos fãs da Copa acreditam que as marcas patrocinadoras ajudam a fortalecer a competição, percentual superior ao observado entre o público geral. Ao mesmo tempo, esses torcedores demonstram elevada receptividade a diversas grandes marcas, inclusive concorrentes diretas dos patrocinadores oficiais.

O dado revela uma mudança importante. A disputa deixou de acontecer apenas pelo espaço publicitário. Ela passa a depender da capacidade de construir relevância em um ambiente onde atenção, preferência e consumo de conteúdo acontecem de forma muito mais distribuída. As marcas continuarão alcançando milhões de pessoas, mas com uma diferença: dificilmente voltarão a encontrá-las todas no mesmo lugar.