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“Porque sempre foi assim” é fatal para agências

Inteligência artificial impõe profunda mudança de mentalidade para que seu uso evolua do modo repetição para modo inovação e alta performance

Luiz Fernando Ruocco

VP Sênior de Performance da Monks Brasil 16 de junho de 2026 - 6h00

O famoso refrão de Lulu Santos “nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia” é o alerta perfeito para as agências nesse momento. Munidos de incontáveis possibilidades trazidas pela inteligência artificial, muitos profissionais estão utilizando a ferramenta para otimizar o que já faziam no passado. Em outras palavras, em vez de inovação a partir da IA, tem prevalecido a repetição. As entregas ganharam escala e agilidade, é claro. Mas dentro de uma arriscada mesmice.

Tentar manter-se na zona de conforto é natural e humano. Há quanto tempo as agências trabalham com duplas criativas? O famoso arranjo mostra como as tradições se cristalizam e permanecem sem questionamento ou revisão por longa data. Por quê? “Porque sempre foi assim.” Essa resposta, que preferimos não dizer, mas praticamos a torto e a direito sem nem perceber, enterra o futuro de qualquer negócio.

Explorar o potencial infinito da inteligência artificial passa obrigatoriamente por superar a força da inércia. Não podemos operá-la como uma réplica do nosso cérebro, e sim dentro de sua própria lógica, que é específica e distinta da nossa. Alcançar o modelo de IA nativa, obtendo alta performance em toda a operação, é um desafio imenso. Envolve abertura para o desconhecido e uma profunda mudança de mentalidade. Crenças, padrões e expectativas já bem estabelecidos terão de ser reformulados. É isso ou ficar para trás.

Se até aqui senioridade, por exemplo, foi sinônimo de possuir conhecimento e experiência, de agora em diante o lema é outro: só sei que nada sei e preciso descobrir, testar e aprender. Mais do que acumular expertise, importa a capacidade de saber mudar e se adaptar às novidades. Curiosidade, ousadia e coragem de fazer diferente tornam-se habilidades não apenas valorizadas, mas indispensáveis.

A ideia de carreira e promoção também é impactada nesse processo. O que significa, hoje, ter um bom desempenho a ponto de ser promovido? O crescimento profissional continua fortemente atrelado a tempo de casa e idade. Embora esses critérios sejam pertinentes e relevantes, não podem ser os únicos nem os principais. Um novato que produz inovação e resultado precisa ser reconhecido e recompensado antes que o concorrente saia na frente e o faça.

O onboarding de estagiários, detentores por excelência do poder de renovar tudo, deve ser repensado. Se a integração e treinamento de recém-chegados preveem primeiro apresentação de processos e depois utilização de IA, talvez seja hora de inverter a ordem das etapas. Em constante transformação, a ferramenta precisa ganhar prioridade, para que faça sentido quando for aplicada.

Uma transformação tão radical quanto essa não acontece por esforço individual. Ela começa e é sustentada pela cultura organizacional. Profissionais dispostos a arriscar, errar e aprender crescem em um ambiente seguro e saudável, que preze e estimule de verdade iniciativas criativas e arrojadas.

Estruturas rígidas, fechadas e muito críticas inibem esse tipo de atitude, pois identificam sucesso a acertos, e falhas à perda de tempo. Ideias brilhantes raramente nascem prontas – elas resultam de dúvidas, tentativas e fracassos. Faz parte do jogo.

É hora de rever conceitos e preconceitos. Mudar antes que seja urgente mudar é sempre a melhor alternativa. Quem já começou?