Entre a performance e o pertencimento
Em meio às discussões sobre tecnologia, um dos apontamentos mais importantes falava de relações humanas
Já no primeiro dia de festival, a jornalista e autora Jennifer Wallace trouxe ao palco reflexões que ela desenvolve no livro Never Enough, resultado de anos observando ambientes altamente competitivos, especialmente no universo da alta performance acadêmica.
Ao analisar diferentes trajetórias de vida, Wallace percebeu que as pessoas que demonstravam maior equilíbrio emocional e satisfação não eram necessariamente aquelas com mais conquistas, status ou reconhecimento público.
No livro, ela explora justamente as consequências de uma cultura que associa valor pessoal apenas a resultados e conquistas externas. Em muitos contextos, o pertencimento passa a ser definido por fatores extrínsecos, como títulos, instituições frequentadas ou posições ocupadas.
Essa lógica é familiar em diferentes partes do mundo e também bastante presente em ambientes de alta exigência no Brasil, especialmente entre grupos onde o tipo de escola, o tipo de carreira e os símbolos de status acabam se tornando referências centrais de reconhecimento. Quando o valor individual é medido predominantemente por essas métricas externas, surgem lacunas profundas de pertencimento e de sentido.
A autora usa o conceito de mattering para explicar essa necessidade humana fundamental. As pessoas precisam sentir que são vistas, valorizadas e que sua presença faz diferença para o outro. Essa sensação de pertencimento não acontece por acaso. Ela é construída a partir de práticas e comportamentos que tornam visível, no dia a dia, o quanto cada pessoa realmente importa.
Os quatro pilares do pertencimento
Para explicar como ambientes que cultivam esse sentimento são construídos, a pesquisadora apresentou uma estrutura chamada SAID, composta por quatro dimensões que ajudam a entender quando as pessoas realmente se sentem parte de algo.
A primeira é Seen, ser visto. Para além de reconhecer resultados, trata-se de perceber as pessoas de forma genuína, conhecer suas histórias, interesses e perspectivas. Se somos vistos apenas pelo que entregamos, a relação se torna transacional. Quando somos vistos como indivíduos, surge o significado.
A segunda dimensão é Accepted, ser aceito. Pertencer significa saber que não precisamos provar constantemente nosso valor para sermos incluídos. Ambientes de alta confiança permitem que as pessoas contribuam com autenticidade, sem a necessidade permanente de validação.
O terceiro elemento é Important, sentir-se importante. Isso acontece quando entendemos que nossas ações têm impacto real na vida de outras pessoas e no futuro da organização. Investir no desenvolvimento de alguém, apoiar seu crescimento e reconhecer a importância de seu papel são formas concretas de reforçar esse sentimento.
Por fim, Depended on, ser alguém em quem os outros confiam. Quando sabemos que outras pessoas contam conosco e que também podemos contar com elas, criamos vínculos capazes de sustentar desafios maiores. Não se trata apenas de colaboração, mas de interdependência genuína.
A qualidade das relações define o ambiente
Outro ponto destacado por Jennifer Wallace foi que ambientes de alta exigência não são necessariamente ambientes tóxicos. Pessoas conseguem lidar com grandes desafios e altos níveis de responsabilidade quando sabem que não estão sozinhas.
Quando a cobrança é alta, mas existe apoio, colaboração e confiança, a pressão pode se transformar em crescimento e aprendizado. O problema surge quando a equação muda. Altas demandas combinadas com baixo suporte costumam gerar sobrecarga, ansiedade e sensação de isolamento.
Mais do que reduzir exigências, o desafio está em fortalecer as relações que sustentam o trabalho coletivo. Quando as pessoas percebem que sua contribuição importa para o grupo e que existe uma rede de confiança e interdependência ao seu redor, surge um círculo virtuoso. Cada indivíduo passa a reconhecer que é importante para o todo e que também pode contar com os outros.
Essa dinâmica está diretamente ligada à motivação intrínseca, aquela que nasce do sentido e da contribuição, e não apenas de métricas externas de reconhecimento. Em um momento em que tantas discussões se concentram em tecnologia, dados e produtividade, talvez uma das perguntas mais relevantes seja: como fortalecer ambientes em que as pessoas sintam que fazem diferença para o coletivo?
No fim, a verdadeira inovação está menos em otimizar algoritmos e mais em fortalecer aquilo que sustenta qualquer sociedade. Relações humanas nas quais cada pessoa reconhece o valor da própria contribuição e entende que o coletivo também depende dela.