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O que Yahoo, Crocs e Whoop revelam sobre a nova arquitetura de influência

Painel revela como creators passaram a estruturar narrativa, confiança e reputação das marcas

Francesca Tomaselli

Diretora de Estratégia Digital da Oficina 16 de março de 2026 - 12h02

No SXSW, um painel que reuniu Yahoo, Crocs e Whoop trouxe um diagnóstico interessante sobre o futuro da comunicação das marcas: creators deixaram de ser apenas um canal de mídia e passaram a funcionar como infraestrutura de reputação.

Empresas de categorias completamente diferentes mostraram como estão reorganizando suas estratégias em torno de um modelo de influência contínua, no qual creators participam da construção de narrativa, confiança e identidade ao longo do tempo.

No caso da Yahoo, a reinvenção da marca começa pelo social. Após anos tentando se reposicionar no mercado digital, a empresa decidiu apagar seu antigo handle e reintroduzir a marca com uma lógica que chamam de brand-led transformation.

A nova Yahoo se define pelo ethos “funny, wild and free”, pelo retorno do icônico yodel e pela reafirmação do roxo como símbolo da marca. Mas a mudança mais relevante está na forma como a empresa trabalha com creators.

O social se tornou a nova porta da frente da marca, enquanto creators funcionam como uma espécie de porta lateral, convidando novas audiências a entrar no universo da Yahoo.

A lógica é trabalhar com pessoas que já carregam naturalmente o espírito da marca — creators que, como disseram no painel, “são Yahoo por dentro”.

Crocs: quando o produto vira entretenimento

A Crocs apresentou um caminho diferente: usar creators como motor de cultura e entretenimento. Inicialmente, eles ajudaram a resolver uma barreira prática da marca por meio de criadores de moda como Wisdom Kaye.

Mas a estratégia evoluiu para algo maior. Uma história real envolvendo uma funcionária da Crocs que colocou um jibbitz, pequenos acessórios, na porta do vizinho acabou virando um microdrama chamado “Charmed to Meet You”, produzido com a ReelShort e a CAA.

O caso ilustra uma mudança importante: a marca está transformando seu produto em IP de entretenimento, usando plataformas como YouTube e vídeos curtos para contar histórias mais longas e emocionais. Nesse modelo, campanhas passam a competir menos com outros anúncios e mais com o próprio entretenimento cultural.

Whoop: creators como prova de verdade

Se Crocs aposta na cultura, a Whoop trabalha influência pela credibilidade.

A empresa estrutura sua estratégia em uma espécie de pirâmide de influência. No topo estão nomes globais como Cristiano Ronaldo, Ferrari e o atleta Rich Roll. Na base, uma rede maior de creators menores, mas altamente conectados ao universo de performance.

Para trabalhar com a marca, os criadores de conteúdo precisam usar o produto de forma contínua e estabelecer parcerias de longo prazo, geralmente entre seis meses e um ano.

O objetivo é construir narrativas reais de transformação, explicar métricas fisiológicas e educar o público sobre performance.

A marca também inclui cientistas e especialistas em conteúdos como “Ask the Performance Scientist”, reforçando uma linguagem baseada em evidência em um mercado repleto de promessas fáceis.

A nova arquitetura de influência

Um dos conceitos centrais do painel foi o de “arquitetura de influência”. Em vez de depender apenas de creators externos, as marcas passam a estruturar ecossistemas que combinam diferentes vozes: creators independentes, executivos, especialistas e equipes internas.

Na Whoop, o CEO trabalha com um creator dedicado para desenvolver sua presença digital. Na Crocs, o Chief Brand Officer participa de lives e conteúdos. Na Yahoo, o próprio Creative Lab aparece em narrativas sobre o processo criativo. Esse movimento dialoga com uma tendência crescente também no Brasil: o aumento do advocacy de executivos e funcionários, especialmente em plataformas como o LinkedIn.

O que isso significa para o Brasil

O painel deixou três provocações para o mercado brasileiro. A primeira é repensar o briefing: em vez de pedir posts com influenciadores, marcas precisam estruturar estratégias contínuas de influência.

A segunda é tratar plataformas como territórios de reputação, mapeando não apenas creators pagos, mas também críticos e vozes orgânicas.

A terceira é construir um mapa de influência da marca, definindo quem educa, quem entretém, quem emociona e quem responde a crises.

Enquanto grande parte do mercado ainda trata creators como um aliado em mídia, empresas como Yahoo, Crocs e Whoop mostram que a próxima fronteira da comunicação está em algo mais profundo: a arquitetura da influência.