Conexão Austin

Quando a gente gosta, a gente cuida

Em meio à maratona de inovação, o evento reforça: tecnologia avança, mas a conexão continua humana

Karina Israel

CEO da YDreams Global 15 de março de 2026 - 16h33

Austin tem algo curioso, as ideias não chegam de uma vez, elas vão se revelando aos poucos. Um trecho em uma palestra, uma frase solta em um painel, uma conversa na fila de uma ativação.

E assim, quase que de repente, você percebe um conceito, uma palavra que se destaca, e essa palavra foi: conexão.
Ou talvez seja mais correto, e também mais doído, dizer: a falta dela.

Jennifer Wallace falou sobre isso em uma palestra sobre pertencimento.
Esther Perel se debruçou sobre o assunto ao discutir relacionamentos entre humanos e inteligência artificial com um convidado especial, o diretor do filme Her.
Kasley Killam trouxe a saúde social como o terceiro pilar da saúde.

Três sessões diferentes, de áreas completamente distintas, todas orbitando o mesmo fenômeno. Talvez a próxima grande crise não seja tecnológica, e sim relacional. Sentir que importamos.

Jennifer Wallace trouxe para o palco uma palavra pouco conhecida. Mattering. Na tradução, algo entre “importar” e “fazer diferença”. Não é apenas sobre pertencimento. Pertencer significa estar dentro de um grupo.

Mattering significa sentir que sua presença muda algo dentro dele. Como ela resume em um momento forte da palestra: “Depois de comida e abrigo, a necessidade mais profunda do ser humano é sentir que importa.”

Quando essa sensação desaparece, as consequências aparecem rápido: solidão, ansiedade, desconexão. Wallace chama isso de mattering gap. O espaço entre existir e sentir que nossa existência tem valor, e esse espaço parece estar crescendo. Talvez por isso uma frase tão simples da música brasileira soe quase como diagnóstico do nosso tempo: “Quando a gente gosta é claro que a gente cuida.” No fundo, sentir que importamos talvez seja isso, perceber que alguém cuida, que alguém nota, que alguém se importa com a nossa presença no mundo.

No dia seguinte, Esther Perel apresentou uma história que arrepiou a todos. Um paciente que estava visivelmente apaixonado por uma inteligência artificial. Ela não apenas narrou os fatos, mas trouxe trechos da sessão. A cada trecho ela pedia à plateia para respirar fundo, de tão forte que era. Ele tinha total consciência de que não estava lidando com uma pessoa, mas sim com uma máquina, e ainda assim se encontrava completamente apaixonado.
Mas por que alguém se apaixonaria por uma AI? Porque, de certa forma, ela oferece algo que muitas relações humanas não conseguem oferecer com tanta facilidade:
Disponibilidade constante.
Atenção permanente.
Ausência de julgamento.
Perel resumiu isso de forma direta: a inteligência artificial oferece algo que os humanos nem sempre conseguem oferecer, atenção constante.

Ela mostrou sua preocupação: os relacionamentos humanos nunca foram perfeitos, afinal, estamos lidando com uma outra pessoa, com todas as suas questões e complexidades. E por isso mesmo, fazem parte os atritos, como silêncios, mal-entendidos, pequenas frustrações, além da paciência que toda relação exige.
Já a inteligência artificial pode simular algo diferente: uma intimidade sem atrito, uma relação sem conflito, uma companhia sempre disponível. Ela foi programada para te agradar e faz isso como ninguém.
Se as relações digitais se tornam tão fáceis, o que acontece com nossa tolerância para relações reais? Talvez aqui caiba uma provocação que a própria música já nos fez antes: “Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração.” O amor, o afeto, o vínculo e até a frustração nunca foram territórios da lógica pura. Talvez o perigo de algumas relações artificiais seja justamente tentar eliminar o que há de mais humano nelas: a imperfeição.

E aí entra a conexão com a nova fronteira da saúde apresentada por Kasley Killam.
Social health, saúde social. Durante muito tempo pensamos saúde em duas dimensões, primeiro, a saúde física e depois, a saúde mental. Agora surge uma terceira camada: a qualidade das nossas relações.
Se a saúde física está no corpo, a saúde mental está na mente, a saúde social está nos vínculos.
Killam apresentou estudos que mostram que pessoas com relações sociais fortes têm:
Menos depressão.
Melhor sistema imunológico.
Melhor desempenho cognitivo.
Maior expectativa de vida.
Em alguns casos, o impacto é literalmente vital.
Segundo dados citados na palestra: “A solidão e a falta de interação social contribuem para 871 mil mortes prematuras a cada ano.” Ou seja. Conexão não é apenas um sentimento, é um fator de saúde pública. Para sabermos se estamos saudáveis, precisamos entender:
Estamos conectados? Fazemos parte de uma comunidade? Temos vínculos? Temos pessoas que realmente nos conhecem?

Surge aqui mais um paradoxo do nosso tempo: nunca estivemos tão conectados pela tecnologia e ao mesmo tempo tão desconectados entre nós.

Essa ampla sensação de solidão acontece porque conexão e vínculo não são a mesma coisa.
Conexões são rápidas, enquanto vínculos demoram a se estabelecer.
Conexões são numerosas, vínculos são profundos.

Como Jennifer Wallace lembrou no palco de Austin:

Sentir que importamos não é um luxo emocional, é uma necessidade humana básica.

E quem sabe, se o verdadeiro desafio da tecnologia nos próximos anos não seja se tornar mais inteligente, e sim nos ajudar a continuar sendo humanos.

E para fechar vou trazer uma provocação para as agências e produtoras que assim como nós criam ambientes de experiência, exposições, espaços interativos, ativações, museus, centros de experiência e lugares de encontro no mundo real. Não basta pensar em fluxo, impacto visual, interatividades e efeitos surpresa. Vamos pensar em design que conecte pessoas. Em espaços concebidos não apenas a partir da forma, da função ou da norma, mas da experiência humana e suas possibilidades infinitas. Lugares que convidem ao olhar, à conversa, ao riso, à memória compartilhada, ao encontro inesperado.

Porque se a próxima fronteira é a conexão, então talvez o papel do design seja menos impressionar indivíduos isolados e mais criar condições para que, de algum modo, como na música de Milton Nascimento, “a gente se encontre na beira do mar”. Mesmo quando nossa ponta de areia, seja um espaço bem desenhado que permita que cada um se permita se reconhecer no outro.