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No SXSW, entre Spielberg, Disney e Spotify, inspirações de outro mundo

Karina Israel

CEO da YDreams Global 14 de março de 2026 - 13h39

No segundo dia do SXSW, uma ideia inesperada atravessa minha mente como um objeto não identificado. Eu já tinha reparado nos discos voadores presentes nos cartazes do evento, nos insights estratosféricos pairando nas redes sociais e nos bares de Austin, até que Steven Spielberg subiu hoje ao palco e respondeu perguntas sobre contatos imediatos e… extraterrestres.

Escutando isso no meio de um festival cheio de ideias sobre tecnologia, cultura e criatividade, uma percepção começou a se formar. Quem sabe esses sinais sejam o festival nos lembrando que, em um mundo que começa a ficar cada vez mais igual, gerado dinamicamente por IA, está na hora de ser diferente. Quase de outro planeta.

Spielberg contou que, quando era criança, tinha muitos medos. Medos que vinham da própria imaginação. Ele percebeu mais tarde que uma imaginação muito fértil costuma produzir dois efeitos ao mesmo tempo. Cria monstros e cria histórias.

A forma que encontrou para lidar com isso foi curiosa. Quando algo o assustava, ele inventava narrativas. Filmava pequenas cenas. Criava mundos. Era uma maneira de tirar o medo de dentro da cabeça e projetá-lo no universo. Um ritual criativo de abdução artística. Ali nascia um contador de histórias. Um dos maiores do nosso tempo.

Durante uma palestra do CEO do Spotify apareceu uma provocação interessante. Durante muito tempo empresas competiram por produto. Quem tinha a melhor tecnologia. O melhor catálogo. A maior eficiência. Hoje a disputa acontece em outra órbita. A relevância começa a nascer na identidade.

Não é apenas o que você entrega. É o que aquilo representa para quem consome. A música que alguém escuta diz algo sobre quem aquela pessoa é. As experiências que um cliente procura dizem algo sobre quem ele quer se tornar. Os parceiros escolhidos para um collab mostram que mensagem você quer transmitir. Plataformas, marcas e criadores passam a funcionar como espelhos culturais. Pequenos sinais emitidos para o mundo dizendo: “este sou eu”.

Nesse contexto, competir no âmbito da oferta, do produto ou do serviço, parece ser uma estratégia um pouco terrestre demais.

A Disney, em sua palestra, mostrou como há décadas opera com um radar semelhante. O que transforma uma experiência em memória é a emoção. Uma emoção forte cria memória. Uma memória cria vínculo. E vínculo cria relevância.

Quando uma experiência toca alguém emocionalmente, ela atravessa o tempo. Vira lembrança. Vira história para contar. Vira algo que a pessoa carrega consigo. Emoção parece ser o verdadeiro portal dimensional.

Talvez por isso parques, shows, exposições e experiências imersivas estejam vivendo um novo momento. Eles precisam oferecer algo que não caiba dentro de um dispositivo ou de uma tela. Precisam entregar uma sensação. Uma vivência. Um arrepio coletivo.

Spielberg falou também sobre seu próprio processo criativo. Algo surpreendente para alguém que dirige produções gigantescas. Em muitos filmes ele chega ao set sem saber exatamente onde colocar a câmera.

Ele segue a intuição.

Segundo ele, a intuição sussurra. A mente racional fala alto demais. No set, ele prefere escutar esses sussurros. Pequenos sinais captados por uma espécie de antena criativa invisível.

Talvez seja esse o segredo para que tantos de seus filmes tenham essa sensação de descoberta. Algo vai sendo revelado aos poucos, permitindo que voltemos a olhar o mundo com curiosidade, quase como crianças.

Em um planeta invadido pela inteligência artificial, bebendo das mesmas fontes do passado, fazendo associações novas e releituras que geram resultados parecidos. Conteúdos repetem padrões.

Ferramentas se replicam na velocidade de um enter.

Nesse cenário, o verdadeiro diferencial tende a surgir em outros territórios.

Na identidade que expressa uma visão de mundo.

No serviço que acompanha o produto.

Na sensibilidade de um relacionamento bem construído.

Na forma encantadora de contar histórias.

Na coragem de parecer estranho e imprevisível.

Perto do final da conversa fizeram uma pergunta divertida ao Spielberg. Se alienígenas chegassem à

Terra e pedissem um filme que representasse a humanidade, qual ele mostraria?

A resposta não foi um dos seus próprios filmes. Ele escolheria It’s a Wonderful Life.

Um filme sobre bondade, comunidade e sobre a capacidade humana de se perder e depois reencontrar o próprio caminho.

Essa reflexão nos convida a pensar que mais interessante que descobrir se existe vida inteligente em outros planetas, devíamos nos perguntar:

Como continuamos sendo relevantes neste planeta?