Parêntese: Austin
Aquele acaso planejado que só acontece quando nos permitimos ser vulneráveis.
Para quem ocupa cargos de liderança, o cotidiano é uma sucessão de certezas. Decidir rápido é esperado. Demonstrar dúvida, não.
O SXSW 2026 é o único lugar onde o meu maior KPI é a desorientação.
Quando digo que vou a Austin para “viver uma outra vida”, não falo de um alter ego de festival. Falo de suspender, por alguns dias, a versão funcional de mim mesma. De sair da executiva que precisa ter respostas e voltar a ser a estrategista que faz perguntas.
Austin é um parêntese no espaço-tempo corporativo. Um lugar onde o Teams adormece, mas o pensamento acelera. Onde a lógica produtiva perde força e a curiosidade volta a mandar.
Ali, insights não nascem em planilhas. Nascem no cansaço físico de atravessar a cidade. Na conversa improvisada. No desconforto de ouvir algo que desmonta convicções.
O luxo de ser ninguém
Em Austin, entre uma fila para um painel com astronautas da NASA e um taco de café da manhã, eu deixo de ser a VP de Estratégia. E isso é um baita privilégio.
Porque quanto mais alto o cargo, menor o espaço social para errar, para não saber, para se perder. O SXSW nos devolve esse direito.
Essa suspensão temporária da identidade corporativa é o que permite que novas ideias entrem. Ideias que não respondem a briefing nenhum. Que não têm meta. Que só fazem sentido meses depois, quando se conectam silenciosamente a um problema real.
Menos tendência, mais tensão
Em 2026, não vamos a Austin apenas buscar trends. Vamos medir tensão cultural.
O mundo já não cabe em categorias estáveis. IA não é mais novidade. Sustentabilidade não é mais discurso. Comunidade e fandom já fazem parte do vocabulário popular.
A pergunta deixou de ser “o que vem aí?” E passou a ser: “o que estamos normalizando sem perceber?”
Talvez a melhor palestra não esteja no auditório principal, mas na conversa que acontece porque você se perdeu no caminho. É nesse desvio que a mente expande.
Voltando diferente
O objetivo não é voltar com um relatório de tendências. É voltar estrangeira para os problemas de sempre.
É lembrar que por trás de cada estratégia, dado ou algoritmo, existe uma pessoa tentando entender o próprio tempo.
O SXSW não muda o mundo. Mas pode mudar a forma como você o enxerga.
E, para um estrategista, essa é a única mudança que realmente importa.
E desta vez, há um ritual embutido: fazer aniversário no epicentro do caos criativo é uma forma simbólica de reiniciar a curiosidade radical do meu próprio eu.