Conexão Austin

Por que o ‘conforto’ é o inimigo da evolução

O conflito não é o fim da relação, mas sim o caminho para a confiança real e a alta performance nas empresas

Mariana Tahan

Diretora de marketing da Wake 16 de março de 2026 - 11h29

Não vou dizer que é impossível, mas bastante difícil, consumir os conteúdos do SXSW e não notar como a busca pela eficiência parece estar nos empurrando para um lugar de cordialidade quase artificial. Parece que estamos em um nível que desejamos que tudo flua sem atritos, especialmente no trabalho e nas relações pessoais.

Mas, em uma das sessões que acompanhei, entre a especialista de Harvard, Amy Gallo, e o jornalista Nilson Klava, da Globo, a mensagem da conversa deles veio quase como um supetão: se você não está tendo conversas difíceis, você provavelmente não está construindo relações de confiança real. A Amy defende que “dar-se bem” com a equipe não tem nada a ver com sorrisos constantes e concordância total; o conflito não é o fim de um relacionamento, ele é, muitas vezes, o único caminho para uma conexão verdadeira.

Essa ideia de que o desconforto é o nosso processo de aprendizagem em tempo real me fez pensar muito na nossa resistência cultural ao “embate”. No Brasil, temos esse hábito de acreditar que uma crítica ou um feedback mais duro vai quebrar o vínculo, mas a ciência, que a própria Amy trouxe na conversa com o Klava, mostra justamente o oposto. Precisamos confiar em alguém para ter a coragem de ser honesto. Quando fugimos do conflito, por vezes, fugimos de uma verdade que é dura de ouvir, mas necessária. O sucesso de uma conversa difícil não deveria ser medido pelo bem-estar imediato, afinal, é normal sair de um papo desses se sentindo um pouco “pesado” emocionalmente. O sucesso de uma conversa difícil passa pela clareza e pela dignidade que permanecem quando a verdade é dita.

Não vou falar que é fácil colocar conversas difíceis para jogo porque não é. Mas a Amy trouxe um ponto que me ajudou, e acho que pode ajudar a todos: a desconstrução daquelas técnicas engessadas, como o famoso feedback sanduíche. Para ela, o segredo não é camuflar a crítica entre elogios, mas sim usar a intenção como base para uma conversa sólida. É sobre dizer, por exemplo (já aproveitando aqui para treinar): “meu objetivo com esse papo é que a nossa próxima entrega seja impecável, e por isso, você precisa ajustar isso, isso e aquilo”, e então descrever o comportamento e o impacto dele sem ataques pessoais. Isso tira o peso do ego e coloca os dois lados da mesa focados em resolver um problema comum. Quando o inimigo deixa de ser o colega e passa a ser o comportamento que atrapalha o time, o jogo vira e é aí que você passa a ganhar. Deixamos de ser adversários para nos tornarmos parceiros de solução.

Essa coragem para o embate ganha uma camada extra de importância quando olhamos para o papel das lideranças na construção de um ambiente justo. Ter espaços muito grandes de informações é o maior criador de histórias tóxicas em uma empresa. Quando um líder evita uma conversa difícil sobre uma promoção negada ou um projeto cancelado, o time preenche esse silêncio com suposições baseadas em inseguranças e vieses. Ser transparente, mesmo quando a resposta é “eu ainda não

sei”, é o que evita que a equipe gaste energia tentando decifrar intenções ocultas, permitindo que o foco volte para o que realmente importa: a execução e a colaboração.

Para isso, precisamos entender que nenhuma conversa é um ponto final. Muitas vezes nos cobramos uma perfeição imediata ao dar um feedback, mas a verdade é que temos direito ao segundo tempo (seja quem passa o feedback ou quem recebe). Voltar ao colega no dia seguinte e dizer “eu não gostei do tom que usei ontem e queria tentar de novo” não é sinal de fraqueza, é o auge da maturidade. Esse exercício de vulnerabilidade desarma o outro e humaniza o ambiente de trabalho, mostrando que, em um mundo cada vez mais pautado por respostas automáticas, a nossa capacidade de refletir e corrigir a rota é o que mantém as relações profundas e resilientes.

No fim das contas, a grande lição que fica é que a nossa regulação emocional é a ferramenta de trabalho mais poderosa que temos. Saber identificar se estamos reagindo por insegurança ou se o outro está apenas tentando defender o próprio espaço nos permite dar um passo atrás e retomar o controle da conversa.

Ter a coragem de pedir uma segunda chance para explicar algo que não saiu bem, ou simplesmente aceitar que o trabalho é, por natureza, um lugar de egos e subjetividades, nos torna líderes mais humanos.

A criatividade e a alta performance não nascem da harmonia cega, mas da coragem de atravessar o desconforto e descobrir o que existe do outro lado.