SXSW: Sua mensagem sobrevive à amnésia do dia seguinte?
Como as marcas vão se recriar em um mundo digital onde as relações humanas se fazem imperativas mesmo com tantas novas tecnologias?
O SXSW é um evento que sempre nos conecta a novas visões de mundo, baseadas nas principais tendências que aqui são afloradas e debatidas. Não à toa essa é minha terceira vez no festival. Quando pensamos em eventos como esse, é natural esperar que conversas sobre tecnologia e inovação sejam as protagonistas, especialmente com a inteligência artificial (IA) tão em alta. Mas as relações humanas também são um tema emergente por aqui.
As conversas sobre o resgate da essência do que significa ser humano, também surpreenderam e se destacaram aqui em Austin este ano. Como seres humanos, buscamos atenção. Precisamos ser ouvidos, escutados e não apenas sentir que alguém está olhando para nós em uma conversa, mas que essa pessoa está realmente captando o que queremos dizer, que está presente naquele momento.
Isso sobrevive a uma era onde a tecnologia permeia todos os aspectos da vida humana, prometendo eliminar fricções e tornar tudo mais eficiente. A psicoterapeuta belga Esther Perel falou sobre isso durante a sua participação na gravação do podcast “Unlocking Us” (‘Desbloqueando-nos’)” da Dr. Brené Brown , aqui no SXSW. Esther abordou como as relações humanas são fundamentadas na fricção, e que precisamos olhar para a atenção genuína e para a escuta ativa. Alguns dos insights valiosos da palestra compartilho aqui com vocês, pois valem a reflexão. Segundo Esther Perel, “Listen shapes what the person will tell” (‘Ouvir molda o que a pessoa vai contar’) e “The listener create the speaker” (‘O ouvinte cria o locutor’). E Brené Brown diz que “attention is a undervalued form of love” (‘Atenção é uma forma de amor subvalorizada’). Vocês concordam? Eu concordo totalmente.
Em um mundo onde a inteligência artificial busca eliminar qualquer forma de atrito, surge a questão crucial: como podemos cultivar laços verdadeiros em um ambiente moldado pela eficiência tecnológica? É em meio a essa corrida desenfreada pela automação, produtividade e pela praticidade que nasce um paradoxo: apesar da velocidade e eficiência, nossa essência humana anseia por algo mais profundo.. Somos seres que buscamos vínculos autênticos, mesmo em meio ao turbilhão de estímulos digitais.
Em um cenário onde a habilidade de formular as perguntas adequadas e direcionar prompts para a inteligência artificial são essenciais, a curiosidade emerge como o motor propulsor da autenticidade nas interações entre marcas e indivíduos, dentro do mundo real. Especialmente em um mundo repleto de estímulos. Estamos imersos em um oceano de mais de 5.000 estímulos diários de diversas marcas, mas apenas duas mensagens resistem à amnésia do dia seguinte, como apontou Raja Rajamannar, CMO da Mastercard, em sua palestra no evento. Mas, o que nos faz parar e realmente prestar atenção?
Em sua palestra sobre desbloquear a linguagem da conexão, Charles Duhigg, jornalista e autor do best seller “O poder do hábito”, ressaltou a importância de realizar perguntas com profundidade, para assim se conectar com as pessoas e entender o que elas querem com aquela conversa. No entanto, fazer as perguntas certas não é o suficiente. É preciso também provar que estamos de fato ouvindo e desejamos nos conectar. Essa é a chave da supercomunicação, como ele mesmo definiu.
Isso não se aplica apenas às interações interpessoais, mas também ao universo das marcas. Neste contexto, explorar a relação humana em um mundo sem fricção é um desafio contínuo para as empresas. Ao abraçar esse paradoxo e priorizar a autenticidade e a atenção genuína, as marcas podem se destacar em um cenário saturado de estímulos e construir relações significativas que transcendem o digital e ressoam profundamente com o coração humano.
O caminho das pedras foi dado: o equilíbrio. A inteligência artificial busca eliminar fricções, mas não devemos esquecer que são essas mesmas fricções que nos tornam humanos e acendem essa valorosa conexão humana. Esses são os pilares que sustentam não apenas as relações interpessoais, mas também o sucesso das marcas em um mercado saturado de estímulos.