The Brazilian Storm: o que mudou é a ambição
Brazilcore no SXSW: o "borogodó" brasileiro e nossa conexão humana viraram ativos globais e atitude
Você entra num café em Austin e o atendente já sabe: “Brazilian?” Antes de você abrir a boca. É o crachá, é o grupo, é a energia. Austin aprendeu a esperar por nós. Os restaurantes colocam cardápio em português, os motoristas de Uber puxam conversa sobre o Brasil, o comércio da cidade sabe que nesta semana de março os brasileiros movimentam Austin de um jeito que poucos países fazem. Nos corredores do festival, música brasileira saindo das ativações. Nos bares, o português compete com o inglês. E dessa vez, não viemos só como plateia.
O Brasil está em todo lugar. No Oscar, indicado a um filme pernambucano em que concorreu nas principais categorias. No TikTok, como segundo país com mais influenciadores do mundo. Nos restaurantes de Nova York e Londres que colocam ingredientes brasileiros no cardápio. E aqui, nos corredores do SXSW, onde o português se mistura com o inglês e o jeito brasileiro de fazer conexão vira o assunto que ninguém planejou, mas todo mundo percebe.
E isso tem um nome. É o Brazilcore! O que começou como estética de moda virou algo maior. É a cultura brasileira se tornando referência global, do jeito de se vestir ao jeito de se relacionar. Havaianas viraram objeto de desejo, funk virou trilha sonora de campanha internacional, a culinária brasileira aparece nos rankings dos melhores restaurantes do mundo. Com a Copa de 2026 no horizonte, as cores verde e amarelo voltam a circular com força. Mas o Brazilcore que acontece aqui no SXSW não é só estética. É atitude. É o Brasil se exportando com uma confiança nova, ocupando espaço sem pedir licença.
Amy Webb, que apresentou seu relatório anual aqui no SXSW, tem um conceito que ajuda a explicar o que está acontecendo: convergência. Quando várias forças se cruzam ao mesmo tempo, o impacto é outro.
E a forma como o Brasil decidiu ocupar Austin este ano mostra isso. São Paulo voltou com a SP House maior e com público recorde. Minas Gerais estreou a Casa Minas com cultura, gastronomia e negócios. O Rio Grande do Sul trouxe projetos de inovação via Invest RS. Executivas, executivos e empresários brasileiros nos palcos do festival. Não é só uma delegação grande. É o Brasil apresentando um pedaço da sua cultura para o mercado norte-americano. Ainda é só um pedaço, mas dá pra ver isso crescendo.
Na SP House, Esther Perel tocou num ponto importante. Ela falou sobre conexão e relacionamento, sobre como o brasileiro tem um molho que o resto do mundo está perdendo. E me fez pensar: conexão no Brasil não é soft skill nem hard skill. É parte da nossa cultura. É como a gente cresce, como faz negócio, como resolve problema. A gente puxa cadeira, oferece café, pergunta da família antes de abrir o laptop. Parece pequeno, mas num mundo onde a solidão virou epidemia e a tecnologia afasta mais do que aproxima, essa capacidade de criar vínculo é talvez o maior ativo que a gente tem pra oferecer. E a gente deveria levar isso mais a sério.
Austin já sabe quem a gente é. Nos recebe, nos espera, nos reconhece. A questão agora é o que a gente faz com isso quando o voo de volta decola.