Opinião WW

CSW e o futuro da agenda de gênero

A Comissão sobre a Situação da Mulher reforçou que, em meio a desafios complexos, há uma oportunidade que não pode ser desperdiçada

Gabriela Almeida

Gerente executiva de direitos humanos e trabalho do Pacto Global da ONU 20 de março de 2026 - 9h10

(Crédito: Igor Vinagre)

(Crédito: Igor Vinagre)

A 70ª sessão da Comissão sobre a Situação da Mulher (CSW, na sigla em inglês), realizada entre os dias 9 e 19 de março, em Nova Iorque, reafirma uma constatação central: a agenda de gênero segue sendo uma das mais desafiadoras e, ao mesmo tempo, mais mobilizadoras do sistema internacional. Em um contexto marcado por tensões geopolíticas, crises humanitárias e disputas ideológicas, a CSW mostrou que, longe de recuar, essa pauta continua sendo construída com base em articulação, presença e resistência.

O tema central desta edição trouxe à tona a urgência de acelerar compromissos históricos e avançar na implementação concreta de políticas que garantam direitos, autonomia e dignidade para mulheres e meninas. Mais do que reafirmações, este momento exige ação. E essa ação precisa necessariamente reconhecer que desigualdades não operam de forma isolada. Falar de gênero hoje é, inevitavelmente, falar de transversalidade e interseccionalidade, compreendendo como raça, território, renda e outros marcadores estruturam experiências distintas e demandam respostas igualmente complexas.

Mesmo diante de um cenário internacional adverso, foi marcante observar a presença ativa de governos, organizações da sociedade civil e diferentes lideranças. As vozes que ecoaram na CSW demonstram que, ainda que o contexto seja de incerteza, há uma base sólida de atores comprometidos em não permitir retrocessos e em pressionar por avanços concretos.

Nesse debate, torna-se cada vez mais evidente que o setor empresarial precisa ocupar um espaço ainda mais relevante. A transformação necessária não será alcançada sem o engajamento consistente das empresas, tanto na promoção de ambientes de trabalho mais equitativos quanto na influência que exercem em cadeias de valor e na sociedade. É justamente nesse ponto que as ações que partem de iniciativas como o Pacto Global da ONU operam como catalisadoras, mobilizando o setor privado em torno de metas claras, compromissos públicos e iniciativas coletivas.

Os avanços recentes dos movimentos Elas Lideram 2030 e Raça é Prioridade, por exemplo, refletem essa evolução. Com novas metas e uma abordagem cada vez mais integrada, essas iniciativas reforçam que não há avanço sustentável na agenda de gênero sem enfrentar, simultaneamente, o racismo estrutural.

A interseccionalidade deixa de ser apenas um conceito e passa a orientar estratégias concretas de transformação.

Outro elemento que ganhou destaque ao longo da CSW foi o momento de transição na liderança das Nações Unidas. Em meio às discussões, emergiu com força a expectativa histórica de que a organização possa, pela primeira vez, ser liderada por uma mulher. Mais do que simbólico, esse movimento representa a oportunidade de alinhar discurso e prática em uma instituição que tem a igualdade de gênero como um de seus pilares.

A CSW deste ano reforça que estamos diante de um momento de inflexão. Em meio a desafios complexos, há também uma capacidade concreta de mobilização, articulação e implementação que não pode ser desperdiçada. A igualdade de gênero se consolida, cada vez mais, como eixo estruturante de sociedades mais justas, inclusivas e sustentáveis, exigindo compromisso contínuo e ação coordenada de todos os setores.