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Liderança feminina: os desafios que não aparecem no release

Ter uma mulher em posição de comando fica lindo no LinkedIn. Na vida real, é o começo de mais uma jornada de obstáculos visíveis e invisíveis

Lica Bueno

Presidente da Talent 24 de fevereiro de 2026 - 11h53

(Crédito: Shutterstock)

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Queria iniciar minha participação neste espaço refletindo sobre um tema que até parece batido, mas é sempre necessário: os vieses que se tornam empecilhos reais para as trajetórias profissionais de mulheres rumo à liderança. Faço então uma pergunta que demanda resposta “sim” ou “não” e toda a sinceridade do mundo: se ao entrar em um avião você soubesse que a pilota é mulher, sua sensação de segurança seria a mesma que se fosse um homem?

No Brasil, acredito que muita gente diria “não”, mesmo sabendo que qualquer pessoa nessa função precisa ter treinamento e rigor técnico equivalentes. Não é racional. Já sabemos que estereótipos propagados por décadas nos levam a um lugar onde, inconscientemente, posições de poder seguem relacionadas ao masculino. E o mesmo acontece quando assumimos a liderança de uma empresa.

Feministas e estudiosos americanos chamam esse efeito de glass ceiling: um teto invisível que impede o avanço feminino por preconceitos estruturais em nada relacionados a competência ou formação. Muito pelo contrário. No Brasil, embora o nível educacional feminino tenda a ser superior ao dos homens, a participação de mulheres em cargos de liderança sênior é de apenas 17,4%, segundo o Panorama Mulheres 2025 (pesquisa do Talenses Group e do Insper). É isso aí que você leu: em cada 10 líderes, nem duas são mulheres.

Para completar, ganhamos 20,9% a menos e muitas vezes somos chamadas depois que todas as tentativas já foram feitas para tentar “arrumar a casa”. Essa armadilha corporativa carrega o nome de glass cliff, ou penhasco de vidro, e refere-se ao fenômeno de promover mulheres a posições de liderança em momentos de crise, quando a situação já está insustentável e o desgaste com time e clientes é inevitável. Se der certo, mérito coletivo. Se der errado a culpa é dela: a líder chamada às pressas para tentar evitar que o barco naufrague de vez.

Conhece esse enredo? Pois é. São muitos os perigos que precisamos evitar não só no caminho, mas também quando chegamos a essa posição tão almejada, porém nem sempre confortável, que se chama liderança. Aqui vão três que vejo afetarem muitas de nós de forma recorrente e bastante incômoda:

Fogo amigo

Acredite. Nem todo mundo vai lidar bem com o seu sucesso. E isso pode acontecer tanto no ambiente de trabalho quanto no seu círculo mais íntimo de amizade. Embora não seja uma exclusividade das mulheres, o chamado “fogo amigo” é provavelmente mais intenso quando chegamos ao poder pelas outras mensagens que uma movimentação como essa carrega. Afinal, a ascensão feminina é um fenômeno recente. E tudo o que é novo incomoda, ainda mais quando mexe com anos de preponderância masculina.

Cargo esvaziado

Não raras vezes, vemos empresas promovendo mulheres a cargos de liderança, mas acima delas há um homem que é quem realmente tem o poder de decisão. Quase como se ainda precisássemos da legitimação masculina para atuar. No LinkedIn, a notícia fica linda. Na realidade, a autonomia não acompanha o título. Repita comigo, em voz alta, se quer ser “incluída fora dessa”: chega de lideranças de vitrine. Cargo de confiança precisa, realmente, ter confiança.

O peso da simbologia 

Você chega ao poder e, de repente, se torna inspiração e representante de todo um grupo minorizado. Isso é ótimo e extremamente necessário. Mas não se deixe abalar pela pressão silenciosa: cada decisão sua é medida como “exemplo de todas e para todas”, cada erro vira rótulo coletivo, e cada sucesso parece nunca ser suficiente para apagar décadas de desigualdade. Liderar não é ser um ícone perfeito. É sobre ocupar um lugar que é seu por direito e por uma trajetória que, certamente, foi construída com erros e acertos.

Chegar a essa posição, depois de tantos desafios, não é o fim — é só o começo. Novos obstáculos surgem, e enfrentá-los exige autonomia, confiança e resultados concretos. Só assim conseguimos desfazer os estereótipos que ainda nos perseguem, mostrando, mais uma vez, que podemos, queremos e merecemos estar aqui.