Por que ainda somos poucas na tecnologia?
A próxima grande transformação que precisamos acelerar não é tecnológica, é humana

(Crédito: Gorodenkoff/Shutterstock)
Quando olho para a evolução da tecnologia nas últimas décadas, às vezes tenho a sensação de que vivi várias eras diferentes dentro de uma mesma carreira. Saímos de sistemas que ajudavam empresas a organizar produtos nas prateleiras para algoritmos capazes de aprender, prever comportamentos e até criar conteúdo.
A tecnologia evoluiu numa velocidade impressionante. Mas existe uma pergunta que sempre volta, especialmente no mês das Mulheres: por que ainda somos tão poucas na tecnologia?
Quando tudo começou
No início dos anos 1990, uma das tecnologias que começava a transformar silenciosamente a economia global era o código de barras. Hoje parece algo trivial, presente em praticamente todos os produtos que compramos. Mas, naquele momento, representava uma verdadeira revolução na forma como empresas organizavam estoques, logística e operações de varejo por meio de dados.
Foi também ali que começou a minha carreira em tecnologia. Eu imaginava que estava entrando em um setor que, nas décadas seguintes, mudaria profundamente a forma como o mundo funciona. E, olhando para trás, é exatamente isso que aconteceu.
Naquele início dos anos 1990, quase não existiam estudos consolidados sobre a participação feminina na tecnologia no Brasil. Mesmo assim, estimava-se que entre 15% e 18% dos profissionais da área eram mulheres. Não era muito, mas havia uma expectativa natural de que esse número cresceria com o tempo. Afinal, o setor só crescia.
A era dos dados
Oito anos depois, mudei de empresa e fui trabalhar na maior companhia de banco de dados do mundo. Era um momento em que os dados começavam a se tornar o coração das decisões nas empresas. Sistemas corporativos ganhavam escala, bases de dados cresciam rapidamente e as organizações começavam a perceber que informação bem estruturada poderia transformar completamente a forma de operar e tomar decisões.
A tecnologia começava a sair dos bastidores e assumir um papel cada vez mais estratégico dentro das empresas.
A internet muda tudo
No início dos anos 2000, a internet começou a ganhar escala nas empresas e nas casas das pessoas. De repente, sistemas passam a se conectar. O comércio eletrônico surge. As empresas começam a entender que tecnologia não era apenas infraestrutura, era estratégia.
A tecnologia deixa de ficar nos bastidores e passa a moldar negócios inteiros. Mesmo assim, a presença feminina cresce muito lentamente.
O mundo entra no bolso
Em 2007, com a chegada dos smartphones, tudo muda novamente. A tecnologia deixa de estar apenas no escritório e passa a estar no nosso bolso, o tempo todo. Aplicativos surgem, plataformas digitais ganham força e a forma como nos comunicamos, consumimos e trabalhamos começa a se transformar rapidamente.
A era da inteligência artificial
Hoje estamos vivendo talvez uma das maiores revoluções tecnológicas da nossa geração. A inteligência artificial já escreve textos, cria imagens, apoia diagnósticos médicos, automatiza tarefas e transforma a forma como as empresas tomam decisões. Novas fronteiras, como computação quântica e sistemas cada vez mais inteligentes, começam a ganhar espaço.
A tecnologia deixou de ser apenas uma ferramenta. Ela se tornou parte da infraestrutura da sociedade.
Mas, mesmo depois de toda essa evolução, um dado continua chamando atenção. Hoje, no Brasil, apenas cerca de 19% dos especialistas em tecnologia são mulheres, segundo dados recentes do Observatório Softex. Ou seja: em mais de três décadas de revolução tecnológica, a presença feminina na área técnica mudou muito pouco.
Então qual é o problema? Na minha visão, nunca foi falta de talento. O que faltou, e ainda falta, é acesso. Acesso à formação tecnológica de qualidade, às primeiras oportunidades, a ambientes em que essas carreiras são apresentadas como possibilidades reais.
Existe também um fator cultural que começa muito cedo. Durante muito tempo, a tecnologia foi apresentada como um território masculino. Meninos eram incentivados a explorar computadores e programação, enquanto meninas muitas vezes não recebiam o mesmo estímulo. Essa diferença lá no começo acaba refletindo depois nas universidades e no mercado.
E tem ainda outro ponto importante: referências. Quando meninas não veem mulheres ocupando esses espaços, fica mais difícil imaginar que aquele caminho também pode ser delas.
O futuro começa muito antes do mercado de trabalho
Se quisermos mudar esse cenário de verdade, precisamos começar antes, muito antes. Precisamos começar na educação.
As crianças de hoje viverão em um mundo em que inteligência artificial, dados e tecnologia estarão presentes em praticamente todas as profissões, inclusive em muitas que ainda nem existem. Preparar essa nova geração não significa apenas ensinar programação, mas desenvolver pensamento lógico, criatividade, capacidade de resolver problemas e, também, consciência sobre os riscos e responsabilidades do mundo digital.
E significa garantir que meninas estejam dentro dessa jornada desde o começo.
Transformar inquietação em ação
Foi justamente dessa inquietação que nasceu a SoulCode. A percepção de que o maior desafio da tecnologia hoje não é apenas inovação, mas acesso.
Criamos um modelo de educação digital que busca ampliar oportunidades, especialmente para pessoas que historicamente ficaram fora da economia digital, muitas delas mulheres. Quando ampliamos o acesso à formação tecnológica, não estamos apenas formando profissionais, mas abrindo caminhos de autonomia econômica, mobilidade social e novas trajetórias de vida.
A próxima revolução precisa ser mais diversa
Nas últimas décadas, a tecnologia evoluiu do código de barras para algoritmos capazes de aprender. Mas a próxima grande transformação que precisamos acelerar não é tecnológica, é humana.
É garantir que as pessoas que constroem o futuro da tecnologia representem de fato a sociedade em que vivemos. Porque mais importante do que as máquinas que criamos é quem tem a oportunidade de criá-las.
Um sinal de esperança
E termino com uma ponta de esperança. Ao longo da minha trajetória, tive a sorte de caminhar ao lado de mulheres extraordinárias na tecnologia. Mulheres talentosas, competentes e que sempre estiveram presentes nessa jornada profissional que atravessou tantas transformações do setor.
Hoje vejo três delas assumindo posições de enorme destaque no mercado global de tecnologia: Milena Leal, country manager do Google Cloud no Brasil; Priscyla Laham, CEO da Microsoft Brasil; e Paula Bellizia, vice-presidente para a América Latina na AWS.
Ver mulheres que começaram essa caminhada há tantos anos chegarem a posições como essas não é apenas motivo de orgulho. É também um sinal claro de que estamos avançando, ainda que mais lentamente do que gostaríamos.
Talvez seja justamente assim que as mudanças acontecem: passo a passo, geração após geração, abrindo caminhos para que cada vez mais mulheres possam construir o futuro da tecnologia.