Opinião WW

Afeto como estratégia

Nesse momento de tanta pressão por resultados e aumento da competitividade, precisamos investir mais tempo na construção de vínculos

Malu Weber

VP de comunicação da Bayer e presidente do Conselho Deliberativo da Aberje 27 de março de 2026 - 12h47

(Crédito: Master1305/Shutterstock)

(Crédito: Master1305/Shutterstock)

Durante toda minha carreira, sempre sofri um certo preconceito por valorizar e acreditar na força das chamadas soft skills. Que, de “soft”, não têm absolutamente nada. Por muito tempo, falar de afeto, escuta, cuidado e empatia parecia quase um desvio daquilo considerado “o que realmente importa” nos negócios. Como se resultado e afeto não pudessem ocupar o mesmo espaço.

Mas algo curioso vem acontecendo… e parece que o mundo inteiro finalmente acordou. Hoje já presenciamos grandes nomes da ciência e do mundo corporativo falando que liderar com afeto não é romantismo: é estratégia. O que era considerado “nice to have” (habilidade desejável, mas não obrigatória) vem se tornando pauta central, inclusive de um dos eventos mais esperados do ano, o SXSW.

Não fui para Austin, mas acompanhei de perto as palestras do maior evento de tecnologia e inovação do mundo, e um dos temas mais recorrentes foi justamente esse: a humanidade e a importância da construção das relações. Kasley Killam, uma das palestrantes que mais me chamou a atenção, alertou: “não deixe suas relações para depois! Invista tempo e energia na construção das suas conexões, trate relacionamento como saúde estratégica e métrica de performance: priorize as relações humanas antes de falar de resultado”.

A grande preocupação, por trás deste alerta, é a epidemia silenciosa mais letal que vem crescendo na era da inteligência artificial: a solidão. O isolamento digital tem ameaçado a saúde da humanidade. Já considerada um problema de saúde social, a solidão deveria ser tratada no mesmo nível que saúde física e mental. Porque, no fim do dia, a qualidade das nossas relações é um dos maiores indicadores de felicidade, longevidade e produtividade, ainda pouco valorizados como deveriam.

Confesso que ouvir tudo isso só reforçou uma convicção que me acompanha desde o início de minha carreira. Ao longo dos anos, passei por diferentes empresas, culturas e desafios. Mas investir tempo na construção de vínculos e relações de longo prazo sempre foram prioridade, mesmo diante das organizações mais hierárquicas e formais, onde o líder era apenas um mero cobrador de metas.

Muito antes deste tema ganhar palco global, foi essa mentalidade que guiou minhas decisões, minhas escolhas de carreira e, principalmente, a forma como tenho construído conexões pessoais e profissionais ao longo do caminho. Aprendi na vida, e especialmente nos 300 dias em que morei dentro de um hospital e tive que trabalhar à distância, que o que sustenta qualquer jornada são os vínculos que a gente constrói. E que resultado e afeto não só podem ocupar o mesmo espaço, como juntos estimulam que as pessoas atinjam patamares extraordinários, sintam-se comprometidas e deem o seu melhor, quando se sentem valorizadas e cuidadas.

Mas isso não acontece por acaso. É uma escolha diária e intencional. Feita de consistência e coerência nas interações mais simples do dia a dia. Temos, sim, que ser efetivos e entregar resultados (com o apoio absoluto de IA), mas sem abrir mão de sermos afetivos, empáticos, com escuta ativa, importando-se com o outro.

Especialmente nesse momento de tanta pressão por resultados e aumento da competitividade, precisamos investir mais tempo na construção de vínculos com todos que estão conosco nessa jornada. E parar de uma vez por todas de chamar de soft o que sempre foram power skills. Ou de achar romântico e supérfluo o que é pura estratégia de longo prazo. Afeto gera saúde: o bem mais precioso tanto para as pessoas quanto para os negócios que queiram viver melhor e por muito mais tempo.