Women to Watch

Mulheres periféricas 50+ vivem mais, mas envelhecem pior

Novo estudo do Data8 analisa as desigualdades do envelhecimento da população da periferia brasileira

i 3 de março de 2026 - 12h24

Novo levantamento do Data8, “Velhices Periféricas: o descompasso entre os tempos de viver, trabalhar, cuidar e sustentar”, revela que apesar do crescente envelhecimento da população brasileira, existe uma longevidade assimétrica que aprofunda desigualdades sociais. Brasileiros com mais de 50 anos das classes C, D e E, principalmente mulheres, vivem mais, trabalham por mais tempo, sustentam famílias e economias locais, mas envelhecem com menos saúde, autonomia financeira e proteção social.

De acordo com o IBGE, 16,4 milhões de brasileiros vivem nas favelas, o que representa 8% da população nacional. Analisando o perfil deste grupo, 55% das pessoas com mais 50 anos das classes mais baixas são mulheres, número que sobe para 59% na classe D. Além disso, cerca de 70% se declaram negras ou pardas. 

Em sua maioria, vivem em domicílios multigeracionais, com média de quatro pessoas por casa. Consequentemente, são as mulheres que sustentam e cuidam desses lares e das múltiplas gerações. Segundo o estudo, 43% ajudam financeiramente filhos e netos. A fé, sobretudo evangélica, organiza os valores e o cotidiano de 31% desse grupo.

Outro dado alarmante é a diferença no tempo de vida em territórios distintos. Dados do Mapa da Desigualdade, da Rede Nossa São Paulo, mostram que a expectativa de vida feminina varia de 82 anos em bairros como Alto de Pinheiros para 58 em regiões como Anhanguera, uma diferença de 24 anos dentro da mesma cidade. “Não é apenas desigualdade social. É desigualdade de tempo de vida”, destaca Adriana de Queiroz, coordenadora do estudo.

Trabalho, renda e consumo

No campo do trabalho, o estudo revela um prolongamento forçado da vida ativa. Apenas 34% dos brasileiros 50+ das classes C e D têm a aposentadoria como principal fonte de renda. Entre os aposentados da classe D, 52% continuam trabalhando. A previdência privada é praticamente inexistente: apenas 2% têm acesso. Logo, o trabalho autônomo acaba sendo a saída para 41%. 

Dados do Instituto Data Favela indicam que oito em cada 10 moradores de favelas têm ou sonham em ter um negócio próprio. A renda média mensal permanece baixa: cerca de R$ 1.600, entre as classes C e D, contra R$ 7.800, nas classes A e B, conforme o instituto.

Apesar disso, a economia periférica é ativa. O estudo do Instituto Data Favela estima que o consumo anual nas favelas brasileiras alcance R$ 300 bilhões. Entretanto, o dinheiro que circula não se transforma em poupança ou patrimônio. Entre os brasileiros 50+ das classes C e D, 60% têm poupança, 45% têm cartão de crédito e 17% acessam crédito consignado. Ainda assim, 15% seguem completamente fora do sistema financeiro formal. 

Sobre o consumo, preço e promoção orientam 80% das decisões de compra. Já marcas conhecidas e confiáveis influenciam 56%. “Aqui a gente compra o que resolve. Não tem espaço para erro”, responde uma das entrevistadas do estudo, mulher de 55 anos, classe C.

O público 50+ responde por 42% do consumo nacional. Nas classes C e D, movimenta R$ 180 bilhões por ano. Apesar disso, apenas 28% dos brasileiros 50+ da classe D se sentem reconhecidos pelas marcas, e somente 3 em cada 10 percebem produtos ou serviços pensados para sua rotina, seu corpo e sua renda. “O problema não é falta de consumo ou de desejo. É falta de estratégia”, afirma Cléa Klouri, coordenadora do estudo.

O digital é muito presente no cotidiano dos maduros periféricos. Entre os brasileiros 50+, das classes C e D, 65% acessam a internet diariamente, 94% usam WhatsApp, 72% Facebook e 41% Instagram. O celular concentra trabalho, banco, comunicação e vendas. Ainda assim, o estudo aponta que esse público permanece periférico nas decisões de design, produtos e serviços. 

Saúde reativa e solidão constante

De acordo com o levantamento, o cuidado da saúde nesta população ocorre de forma reativa, não preventiva. O SUS é a linha de frente para o grupo, que baseia seu autocuidado na fé, na experiência e na rede comunitária. Quase 60% dos brasileiros 50+ da classe D nunca tiveram plano de saúde. Para 61%, a UBS é a principal porta de entrada no sistema. Apenas 41% da classe D avaliam sua saúde como boa, contra 68% nas classes A e B. 

Apesar das famílias extensas e dos lares cheios de filhos e netos, a solidão é um sentimento comum destas pessoas, consequências da sobrecarga de responsabilidades: 38% relatam sentir-se mais sozinhas, percentual que chega a 48% na classe D. 70,5% das classes C e D têm netos e mais filhos do que as classes A e B. 

Entre os idosos, a solidão é ainda mais alarmante. 18% deles vivem sozinhos, sendo que na classe D este número sobe para 24%. Destes, 38,3% se sentem muito sozinhos, e na classe D, o percentual chega a 47,6%. 

O estudo ainda aponta um desgaste emocional contínuo entre as velhices periféricas. Sensações de cansaço permanente, de viver “no limite” e ausência de pausas estruturam o cotidiano desse grupo, revelando que o tempo vivido com bem-estar emocional não acompanha o aumento da expectativa de vida.

Dessa forma, o lazer não surge como consumo aspiracional, mas como estratégia de sobrevivência emocional. Atividades como assistir à TV aberta (73%), usar redes sociais (59%) e frequentar cultos e missas religiosas (26%) funcionam como mecanismos de manutenção da autoestima e do senso de pertencimento em contextos de escassez e sobrecarga. “Enquanto o lazer da elite é tempo livre, planejado, o da periferia é tempo possível, coletivo e afetivo”, ressalta o texto.

Os quatro tempos

O estudo propõe uma leitura da longevidade no Brasil a partir da identificação de quatro tempos: tempo de vida (lifespan), tempo vivido com saúde (healthspan), tempo de permanência no trabalho (workspan) e tempo de autonomia financeira (moneyspan). É o desalinhamento entre essas dimensões que ajuda a explicar as desigualdades do envelhecimento periférico e revela por que o aumento da expectativa de vida não se traduz, necessariamente, em mais saúde, segurança econômica e proteção social.

Conforme destaca a pesquisa, enquanto o tempo de vida aumenta, o tempo saudável estagna, o tempo de trabalho se estende e o tempo de autonomia financeira encurta. Dessa forma, o relatório defende que as desigualdades do envelhecimento periférico não se explicam somente pela renda e território, mas também pela distribuição desigual dos tempos de vida.

“Entender esse público é compreender a economia cotidiana: aquela que sustenta o país em silêncio, mas raramente orienta decisões estratégicas. Ontem, a classe C puxou o crescimento. Hoje, é essa classe C, em processo de envelhecimento, que sustenta o consumo cotidiano”, reforça o texto do relatório.

O conceito de periferia

No estudo, o termo periférico não classifica somente os moradores de favelas e comunidades, mas abarca também cidadãos que vivem nas periferias geográficas, econômicas e simbólicas do país. “A periferia é entendida, na análise, como uma condição social, marcada por menor acesso a serviços e oportunidades, menor proteção social, e maior exposição a riscos ao longo da vida do indivíduo. No Brasil, ninguém envelhece do mesmo modo, e essas diferenças socioeconômicas determinam o direito (ou não) à longevidade”, explica Adriana de Queiroz.

Na visão de Cléa Klouri, a análise não traça um retrato de carência, mas de centralidade invisível. “São essas populações que mantêm redes familiares funcionando, sustentam múltiplas gerações, permanecem mais tempo no mercado de trabalho e fazem o dinheiro circular, mesmo sem conseguir transformá-lo em proteção ou patrimônio. Ainda assim, envelhecem com menos segurança financeira, menos acesso à saúde preventiva e menos reconhecimento social. A velhice periférica evidencia os principais descompassos da longevidade brasileira: vive-se mais, mas não necessariamente se vive melhor”, afirma.

A pesquisa faz parte da série Brasil Prateado, dedicada a investigar as transformações demográficas associadas à longevidade e aos seus impactos sobre economia, mercado de trabalho, consumo, saúde e comportamento. O levantamento combina dados secundários e primários, análises quantitativas com mais de 1.800 entrevistados das classes C e D, e 12 entrevistas em profundidade realizadas em territórios periféricos da Grande São Paulo.