O que você carrega?
Sobre a teoria da bolsa, o significado de trabalho para as mulheres e o que vem pela frente

(Crédito: Divulgação/Maira Kalman)
“O que as mulheres carregam? O lar, a família, as crianças, a comida, as amizades, o trabalho, o trabalho do mundo e o trabalho de ser humana, as memórias, as dificuldades, as tristezas, os triunfos e o amor.”
Talvez você já tenha ouvido esse poema da Maira Kalman em um vídeo na internet. “Women holding things” foi impresso em 2022, registrado em uma palestra no Ted Talks de 2023, publicado no formato de vídeo em 2024 pelo perfil @messynessychic, com imagens de mulheres segurando todo tipo de coisa pelas ruas, e frequentemente retorna para o feed republicado por algum perfil, provavelmente por conta da sua atemporalidade. Recomendo ver caso tenha perdido.
Lembrei desse poema ao ler o ensaio da Ursula K. Le Guin, escrito em 1986 e recentemente lançado pela Cobogó: “A teoria da bolsa de ficção”. São poucas páginas, mas que, como uma bolsa, contêm um universo.
Le Guin, filha de um antropólogo, conta no ensaio que, ao contrário do que muitos imaginam, “o primeiro dispositivo cultural foi provavelmente um recipiente.[…] para armazenar itens coletados e algum tipo de tipoia ou rede de carga”.
Faz sentido, afinal, “… se pararmos para pensar, certamente muito antes da arma, ferramenta moderna luxuosa e supérflua; muito antes da útil faca e do machado; junto com os indispensáveis cavador, moedor e amolador — pois qual o sentido de desenterrar um monte de batatas se você não tem com o que carregar para casa as que não pode comer na hora? –, junto ou antes do equipamento que nos faz gastar energia, nós criamos o equipamento de levar energia para casa”.
Assim como Le Guin, eu gosto mais dessa Teoria da Bolsa da evolução humana. Ela nos conecta muito mais a uma humanidade que carrega, sustenta, segura, aguenta e mantém as coisas juntas, do que uma que corta, fere, golpeia.
A autora vai além e mostra como uma bolsa também é uma boa imagem para uma história. Uma narrativa tradicional é linear e orientada por um herói e seu conflito; já uma narrativa como bolsa, no lugar de heróis, contém pessoas, sempre indecifráveis e imprevisíveis.
Em “Meander, Spiral, Explode: Design and Pattern in Narrative” (“Serpenteio, espiral, explosão: design e padrão na narrativa”, ainda sem tradução para o português), Jane Alison remete a algo parecido mencionando o conhecido arco dramático: uma situação surge, ganha tensão, atinge o clímax, se desfaz. No livro, ela também procura ir contra essa rota tão navegada e se inspira em outros padrões da natureza como ondas, espirais, redes, fractais, para descrever outras narrativas não-lineares.
A bolsa é um recipiente que pode conter todas essas estranhas formas e ainda sobrar espaço para mais.
Desviando das convencionais rotas heróicas, com essa “bolsa grande e pesada cheia de coisas, minha sacola lotada de fracotes e desajeitados, e grãozinhos de coisas menores que um grão de mostarda, […] cheia de começos sem fins, de iniciações, de perdas, de transformações e traduções…”, Ursula K. Le Guin reuniu uma obra que inclui 23 romances, 12 coletâneas de contos, 11 livros de poesia e 13 livros infantis.
Todo o repertório que foi agregando e carregando por todos os anos formou sua bolsa de ficção. Um trabalho que não apenas teve reconhecimento literário, mas é considerado inovador e redefiniu o alcance e o estilo da ficção especulativa. “A mão esquerda da escuridão” (1969), sua obra mais conhecida, não apenas foi o marco de uma geração, como também uma das responsáveis por elevar a ficção científica como uma forma de explorar questões sociais, políticas e psicológicas.
Pensar na bolsa como esse repositório infinito à disposição pode ser uma maneira de encarar o que vem pela frente. Não apenas na construção de uma história, mas na hora de pensar nossas próprias narrativas pessoais e profissionais. Tudo o que coletamos e sustentamos, pode ser ferramenta ao longo de um caminho que não precisa ser linear ou ter um clímax para ser vasto.
Mesmo que tudo o que a gente carrega, “o trabalho, o trabalho do mundo e o trabalho de ser humana, as memórias, as dificuldades, as tristezas, os triunfos e o amor”, por vezes possa parecer pesado demais, “ainda há sementes a serem colhidas e espaço na bolsa de estrelas”.
Leituras recomendadas:
“Women holding things”, Maira Kalman
“A teoria da bolsa de ficção”, Ursula K. Le Guin
“A mão esquerda da escuridão”, Ursula K. Le Guin
“Meander, Spiral, Explode: Design and Pattern in Narrative”, Jane Alison