Comunicação

Opinião: no mundo criativo, o doido é você

Até os mais poderosos criativos que já existiram sabem: todos sofremos da dependência do barato do nosso trabalho e dos momentos mágicos de conexão com o mundo que eles oferecem

i 1 de dezembro de 2015 - 8h30

*Por Mauro Cavalletti

Trabalhar junto com os outros não é tarefa fácil para ninguém, por que seria para os criativos? O grande Salvador Dalí confessava em uma autobiografia, no seu estilo próprio de imagens e cores fortes, que a primeira vez que encontrou Pablo Picasso soube imediatamente que o mundo era pequeno demais para os dois. Maior que sua curiosidade e sua admiração pelo gênio do colega, identificou a impossibilidade de compartilharem um caminho criativo comum que não fosse penoso o suficiente para cortar qualquer viagem. “Picasso é comunista, eu também não”, concluía. Mas quem gosta de filmes antigos sabe que o olhar focado e delirante de Dalí não o impediu de colaborar intensamente com Luis Buñuel quando o espaço criativo era cinema surrealista, coisa que o colega dominava como ninguém.
Quando eu era estudante e tinha mais tempo para pensar sem muito objetivo, gostava de imaginar os dois discutindo dramaticamente as sequências mais malucas na presença da equipe: como alguém carrega um piano nas costas ou como uma navalha de repente corta um olho ao meio. Na minha imaginação, as cenas extras valiam tanto quanto o filme.

Do mesmo jeito, as regras coxinhas de Hitchcock não atrapalharam seu gênio nem impediram que o fantástico designer Saul Bass criasse dentro daquela caixa de areia. Mesmo que muita gente conte que as sequências mais populares do mestre tenham sido na verdade dirigidas por Bass. Quando o trabalho está rolando, ninguém mexe, ninguém fala alto para não acordar os outros. Se era assim para esses caras geniais, por que seria diferente para mim e para meus colegas? Até os mais poderosos criativos que já existiram sabem: todos sofremos da dependência do barato do nosso trabalho e dos momentos mágicos de conexão com o mundo que eles oferecem.

Entrar no fluxo criativo é uma fonte enorme de prazer, que acontece com tanta frequência quanto o desconforto de criar fora da linha. O pulso entre os dois momentos é o que nos move a todos, pode perguntar para qualquer criativo que você conheça. Mesmo que um diretor de criação, um cineasta ou um arquiteto tenham aquela atitude irritantemente segura de quem sabe o que está fazendo, pode acreditar que os momentos de insônia e falta de prumo os atropelam de vez em quando. A não ser que já tenham desistido de sair fora da caixa, mas isto é uma outra história. Junte dois ou três ou mais e você tem a tempestade perfeita: ou todo mundo se diverte como criança ou se detona sem piedade.

Um dos mais incríveis diretores de arte com quem já trabalhei era também um dos mais difíceis. Horas de meditação toda madrugada não eram suficientes para controlar suas reações glandulares explosivas, que geravam encrencas na mesma velocidade em que criavam as mais definitivas imagens. Tirava todo mundo da zona de conforto sem a menor piedade. O pior de tudo: ele derrubava o barraco com o melhor humor do mundo. Criar junto com ele era ter uma garantia total de bom trabalho, de muita risada e muita frustração. Era insuportável. Mas eu vivia trabalhando com ele por todos os mesmos motivos que desafiavam meus limites. Se o mundo fosse perfeito, todas as duplas seriam Jake & Finn e as aventuras nunca teriam hora para terminar.

Trabalhar com os outros é muito divertido. Para mim é uma brincadeira de pique, uma sessão de jazz. Gosto do olhar dos outros olhando para o mesmo ponto que eu. Quanto mais passam os anos, mais me sinto privilegiado por ter uma carreira criativa e pelo que aprendi com meus colegas. É como se a sociedade me desse um crédito que tenho usado ao longo da vida. Independentemente da qualidade de qualquer trabalho, meus amigos e eu usamos bastante este crédito e rachar a conta é sempre mais bacana.

*Mauro Cavalletti é head of creative shop do Facebook 

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