O próximo presidente da Fifa não importa tanto assim

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O próximo presidente da Fifa não importa tanto assim

Com as reformas aprovadas, a entidade tem uma boa chance de se reinventar e renascer após a crise. Agora é esperar a votação e torcer pelo bom senso das federações

Ricardo Fort
23 de fevereiro de 2016 - 3h44

No dia 26 de fevereiro, as 209 federações nacionais de futebol associadas à Fifa terão a reunião mais importante desde a fundação da entidade, em 1904. Na sessão extraordinária do Congresso ocorrerá a votação para eleger o novo presidente e para aprovar as reformas propostas para a entidade.

O último ano foi marcado por escândalos semanais dignos das páginas policiais e tabloides ingleses. Tudo começou em maio, quando o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, em parceria com a polícia suíça, prendeu uma série de executivos no hotel Baur Au Lac, em Zurique.

Desde então, o impensável aconteceu: o presidente Joseph Blatter, o secretário geral Jerome Valcke, o presidente da confederação europeia Michel Platini e uma série de executivos sêniores ligados ao futebol foram afastados, indiciados ou presos. Isto inclui o ex-presidente da CBF José Maria Marin, que está em prisão domiciliar em Nova York.

O fim desta novela, ou pelo menos um importante capítulo, acontecerá no fim deste mês.

Mas enquanto a imprensa esportiva mundial gasta seus teclados e canetas (será que alguém ainda escreve com elas?) falando sobre os candidatos à presidência, a mais importante das decisões praticamente não recebe nenhuma atenção: as reformas dos estatutos da Fifa.

Enquanto a polícia fazia seu trabalho de forma bastante pública, uma série de pessoas competentes e bem intencionadas trabalhavam na administração da Fifa escrevendo o equivalente à sua nova constituição.

Domenico Escala, chairman do Comitê de Auditoria e Governança da Fifa; federações, escritórios externos de advocacia e consultores em governança coorporativa trabalharam sob a coordenação de François Carrard, reconhecido advogado suíço, no processo de revisão dos estatutos.

A razão pela qual as reformas são mais importantes que o próprio presidente está em uma das cláusulas que limita o poder do presidente e do Comitê Executivo. Se aprovadas, quem quer que assuma o cargo terá pouquíssimas chances de influenciar o futuro do negócio do futebol como Blatter, Havelange e seus antecessores tiveram.

Além deste, há muitos outros pontos que mudarão a Fifa para sempre. Os controles impostos aos executivos do futebol da Fifa passam a valer também para as confederações continentais (entenda-se Uefa, Conmebol, etc.) e para todas as federações nacionais (por exemplo, a CBF).

Estritas regras de como contratar, como investir, como usar fundos disponibilizados pela Fifa, verificação de antecedentes criminais, etc., são algumas das medidas criadas para eliminar ou diminuir os riscos de corrupção. Nada muito diferente do que qualquer organização internacional já aplica em seus negócios. Mas uma mudança radical para uma entidade gerenciada com pouquíssimo controle fora de Zurique.

Mas a aprovação não é simples. Ela requererá 75% dos votos das federações. Quando depositarem seus votos secretos, as federações poderão salvar a Fifa ou decretar o seu fim definitivo. Será uma escolha entre o coletivo e o pessoal. O bem do esporte contra os benefícios e verbas que muitos se acostumaram a ganhar todos os anos.

A imprensa pode não estar prestando atenção na reforma, mas os patrocinadores estão. Sem ela, o fim de muitos contratos pode estar próximo. As empresas que pressionam pública e privadamente a organização desde que a crise estourou dificilmente aceitarão que o desmando se perpetue, e as reformas são a única esperança.

Com ou sem um bom presidente, mas com as reformas aprovadas, a Fifa tem uma boa chance de se reinventar e renascer. Agora é esperar a votação e torcer pelo bom senso das federações.

Ricardo Fort (@SportByFort) é executivo de marketing internacional baseado em São Francisco, Califórnia

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