Seja um gênio criativo

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Seja um gênio criativo

Quais são os fatores que despertam a criatividade e quais a inibem?


20 de fevereiro de 2020 - 11h26

(Crédito: Erhui 1979/ iStock)

Você se acha criativo? Não precisa me responder, até porque eu já adivinhei sua resposta. Na realidade, todos nós nos achamos criativos e, na verdade, o somos, uns mais, outros menos. A questão que se coloca é: quais são os fatores que despertam a criatividade e quais a inibem? Existe realmente o chamado gênio criativo? Será que Picasso, Michelangelo, Proust, Verne, Woody Allen, Spielberg etc. são realmente gênios criativos, ou apenas “ex-medíocres” que resolveram encarar o desafio?

Quem sou eu para negar o brilho criativo de todos os nomes acima, dos quais sou fã incondicional. Por outro lado, vale a pena, apenas como exercício, negar em tese a criatividade inata, para perguntarmos se um reles mortal poderia se tornar um gênio criativo. Recentemente, um amigo me afirmou, sem a menor sombra de cinismo, que “ser criativo é apenas acumular mais referências”. Confesso que “parei” na afirmação do meu amigo. Seria um verdadeiro “ovo de Colombo”? Será que bastaria apenas aumentar a exposição dos medíocres para torná-los gênios criativos?

Durante um certo tempo esta afirmação temerária ocupou meus devaneios nos momentos que antecedem ao sono. Eu tenho um defeito inato (ou talvez uma qualidade): quando um assunto não está resolvido em minha cabeça, ele começa a crescer, e a crescer, até que não sobra espaço para mais nada e aí eu tenho que enfrentar meu dilema e resolvê-lo. Por isso, desde algum tempo, sempre que posso eu leio sobre os hábitos dos famosos e (supostos) criativos. A constatação não foi surpreendente. Woody Allen sempre foi “fanático por trabalho”, famoso pela sua rigorosa cronologia de fazer um filme por ano, ao longo de toda a sua carreira. Um cineasta como Spielberg chega a filmar 50 vezes a mesma cena, até chegar à perfeição.

Que tal mais um exemplo? Se um dia você for à Paris não deixe de visitar o museu Rodin. Uma das coisas interessantes para observar é a quantidade de modelos que o artista preparava, até que se sentisse confortável para produzir a obra de arte definitiva. Não surpreende que a estátua do “O Pensador” seja o resultado de um trabalho de anos (não dias ou meses).

Os críticos diriam que toda essa minha argumentação não tem a ver com referências (que remetem à experiência), mas sim com esforço. Isso é verdade, porém considerem que ninguém acumula experiência com preguiça. É preciso que o criador experimente, trabalhe muito, tente muitas vezes, até que finalmente a obra definitiva seja produzida. Por favor, não me entendam mal, pois longe de mim querer apagar a chama criativa dos grandes gênios da humanidade e fazer a apologia dos medíocres. Eu apenas defendo a ideia de que TODOS nós podemos ser criativos (talvez não gênios), em um ou outro sentido, se nos esforçarmos sem limites de tempo, cansaço, ou aplauso fácil. O verdadeiro gênio é, acima de tudo, um incansável e nada pode frustrá-lo, pois sabe que o sucesso pode estar escondido na próxima curva do caminho, mesmo que às vezes o caminho possa ser longo e áspero.

Simplificando, podemos afirmar que todo o medíocre é de certa forma um preguiçoso (ok, podem mandar as pedradas), ou pelo menos não tem auto-confiança, pois sempre desiste a um passo do sucesso. Isto aceito, temos aí a fórmula mágica para criação de gênios: colocá-los a trabalhar duro, sem tréguas, até que “a fagulha de genialidade acenda a palha sem graça do trabalho duro”. É preciso, porém, respeitar as limitações de cada um e aproveitar seus talentos inatos. Alguém que “não tenha ouvido” para música nunca será um grande compositor, mas poderá ser um grande matemático (o que chega bem próximo, pois música e matemática são ramos dissidentes da mesma arte). Por isso, buscamos em nossa empresa usar uma fórmula simples, que tem dado grandes resultados e revelado talentos surpreendentes:

(treinamento + experimentação + avaliação contínua de resultados) X muita repetição = sucesso)

Como qualquer técnico de futebol bem sabe, não se pode exigir muito de um pobre “cabeça de bagre” sem antes treinar muito, mas muito mesmo. Eu me lembro do Felipão, em plena Copa 2002, exigindo que o Roberto Carlos, o Cafu e o Ronaldinho treinassem bater escanteios à exaustão, debaixo de uma chuva de críticas (mas que perda de tempo ensinar craques a bater escanteio…). E me lembro também do velho Oscar do basquete, em um Pan-Americano (ou foi em um Mundial) treinando arremessos durante horas, com o dedo indicador quebrado.

Por isso, considero importante treinarmos as pessoas em coisa óbvias, como bater escanteio, apenas para ter a certeza de que elas não precisarão pensar quando a situação real acontecer. O treinamento abundante tem dois méritos: desperta a autoconfiança e estimula o surgimento da criatividade.

O segundo componente da fórmula, a experimentação, é a parte mais divertida. Nós permitimos, mais que isso, estimulamos, o chamado “erro criativo”. O “erro criativo” é o único tipo de erro louvável, pois a experimentação de caminhos inéditos pode resultar na solução de problemas antigos. O que não admitimos é a insistência no erro “não original”, pois, além de estúpido, isto seria um indicativo de preguiça mental (observem a insistência de um trabalhador preguiçoso, tentando soltar um parafuso enferrujado, até espanar a fenda, quando seria muito mais fácil pensar um pouco e lubrificar a rosca).

Também exigimos que o “try harder” (nada original) seja levado muito a sério. Procuramos não aceitar de nossos colaboradores nada menos do que a perfeição. Isso a princípio é dolorido, pois todos terão que atuar como auto-críticos, mas é gratificante perceber que, após alguma insistência, é possível implantar uma “cultura de excelência”. A cultura de excelência só estará enraizada quando a qualidade nos procedimentos de trabalho for replicável, não importando quem seja o encarregado da tarefa.

Mas, o mais emocionante mesmo é ver a vibração de cada um dos nossos “Firminos” (na minha opinião um cabeça de bagre do Liverpool, que se tornou brilhante nas mãos do técnico Jurgen Klopp), quando finalmente conseguem fazer um gol de placa. E viva o futebol (adoro), que nos prova diariamente o brilho possível dos medíocres, ou gênios, ambos potenciais, que somos todos nós.

*Crédito da foto no topo: Lou Batier/ Unsplash

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