Bruna Tavares: “Produto deve ser maior que minha influência”
Criadora da marca de beleza homônima, que completou 10 anos neste mês, empresária fala sobre internacionalização e vontade de ampliar atuação em skincare
Há dez anos, a criadora de conteúdo Bruna Tavares apresentava ao público os primeiros produtos da linha de maquiagem que levava seu nome. Aquela, porém, não era a estreia da influenciadora no mundo dos negócios da beleza.

Empresária e criadora de conteúdo celebra 10 anos de sua marca com nova coleção, cocriada com Netflix, inspirada na série Bridgerton (Crédito: Divulgação)
Cinco anos antes do lançamento, Bruna, que é jornalista de formação, já havia trabalhado em conjunto com marcas de beleza e tinha até uma linha de beleza, derivada de seu blog, chamado Pausa para Feminices, cujos produtos eram fabricados pela Tracta/Farmaervas.
Criar uma marca com seu nome e sobrenome era, contudo, um objetivo não apenas ligado à consolidação de sua imagem ao universo da maquiagem como também a ideia de construir uma marca de representasse a beleza brasileira.
Ao longo dessa primeira, muitas transformações já aconteceram em BT. Em meados de 2024, a marca passou a fazer parte do conglomerado internacional Kiss New York, movimento que abriu uma fase de revisão de portfólio e relançamento de produtos.
Outra característica marcante de BT é a aposta em parcerias. A marca de Bruna Tavares já criou collabs com marcas como Coca-Cola, Sanrio, Disney e Netflix – essa última, responsável pelo mais recente lançamento da linha: uma coleção inspirada na série Bridgerton.
Ao longo desse processo, Bruna também vem se equilibrando nas funções de CEO, diretora criativa e, ao mesmo tempo, o principal rosto e motor do marketing da marca, algo que ela vê como vantagem competitiva.
“A vantagem é que poucas empresas têm uma liderança com acesso tão direto ao consumidor. Eu consigo ouvir uma demanda hoje e levar essa informação para uma discussão de produto. Isso encurta muito a distância entre quem cria e quem usa”, diz.
Em entrevista ao Meio & Mensagem, Bruna comenta sobre os planos de expansão internacional, descreve o trabalho do centro de inovação de BT e fala sobre os rumos que pretende dar a marca ao longo dos próximos anos.
Meio & Mensagem: Há 10 anos, quando você lançou a BT, você já atuava na indústria de maquiagem com a linha Pausa Para Feminices. Quais motivos levaram você, na época, a achar importante criar uma marca com seu nome e sobrenome?
Bruna Tavares: O Pausa Para Feminices foi fundamental para a minha história. Foi ali que comecei a transformar toda a escuta que eu tinha como jornalista, blogueira e consumidora em produto. Mas a BT também não nasceu do nada. Antes de criar a marca Bruna Tavares, eu passei cinco anos licenciando produtos, fazendo collabs e trabalhando diretamente com desenvolvimento. Então, apesar de a BT estar completando dez anos, a minha história dentro da indústria de desenvolvimento de produto já tem cerca de 15 anos. Foram cinco anos de uma escola muito importante para mim. Eu participei de desenvolvimento, escolha de cores, texturas, acabamentos, acompanhei processos e fui entendendo como uma ideia se transforma em um produto de verdade. E foi nesse período que eu descobri uma coisa fundamental sobre mim: eu me apaixonei por desenvolvimento de produto. Percebi que esse era realmente um dos meus grandes talentos e o meu core dentro da indústria. Ao mesmo tempo, o blog me dava uma ferramenta que considero valiosíssima até hoje: a escuta direta do consumidor. Eu fazia conteúdo, tutorial, testava produtos diariamente e recebia milhares de comentários. Então comecei a enxergar muito claramente os gaps do mercado brasileiro. Eu sabia o que as pessoas desejavam, onde tinham dificuldade e, muitas vezes, percebia necessidades para as quais ainda não existia um produto. Depois de cinco anos vivendo isso, entendi que já tinha repertório, conhecimento de mercado e experiência suficientes para dar um passo maior. A Pausa Para Feminices e os licenciamentos tinham uma força digital enorme, mas eu queria ir para a rua. Queria construir uma marca que estivesse de fato no varejo, nos displays, nas lojas, trabalhando B2B, com distribuição e estrutura para crescer para além do meu próprio ambiente digital. E foi aí que a Bruna Tavares passou a fazer sentido. Colocar meu nome e sobrenome na embalagem também tinha um peso muito importante. Era uma maneira de assumir integralmente a responsabilidade pelo que eu estava colocando no mercado. Era dizer: eu acredito tanto nesse produto que estou assinando com o meu próprio nome. Também existia uma ambição empresarial muito clara. Eu não queria construir apenas uma linha ligada ao sucesso de um blog. Queria construir uma marca brasileira de beleza forte, com identidade própria, inovação, ciência, distribuição e capacidade de competir com aquilo que eu admirava nas grandes marcas internacionais. Então, olhando hoje, eu percebo que a BT não marcou o começo da minha relação com a indústria. Ela marcou uma evolução. Foi quando todo aquele conhecimento acumulado como jornalista, criadora, consumidora e desenvolvedora de produtos se transformou em uma empresa. E acho que foi ali também que comecei a deixar de pensar apenas como uma criadora de conteúdo que desenvolvia produtos e comecei, de fato, a pensar como fundadora de uma marca.
M&M: Considerando essa primeira década de BT, quais são os momentos e movimentos que você considera os mais importantes para a jornada que a marca construiu até aqui?
Bruna: É difícil resumir dez anos porque existem muitos marcos, mas, quando olho para trás, percebo que a história da BT foi construída por uma sequência de movimentos que, de alguma forma, foram mudando o patamar da marca. E muitos deles envolveram fazer algo pela primeira vez. O primeiro grande movimento foi entender muito cedo que o produto precisava ser maior do que a minha própria influência. O BT Velvet representa muito isso. Ele nasceu há cerca de oito anos de uma necessidade que eu observava nos meus próprios tutoriais de olhos, e não da reprodução de algo que já estava fazendo sucesso. Criamos uma solução nova, que acabou se tornando referência, chegando às bancadas de muitos maquiadores profissionais e construindo uma autoridade enorme para a marca. Inclusive, foi reconhecido por veículos e plataformas internacionais como Allure e WGSN. Em 2018, tivemos outro marco muito importante, que foi a entrada da BT na Sephora, com presença nas lojas físicas. Para uma marca brasileira nativa digital, chegar a um varejista global daquela dimensão representou uma mudança de percepção muito grande. Acho que foi um dos momentos em que o mercado começou a olhar para a BT de outra forma. A gente estava saindo definitivamente daquele lugar de uma marca associada apenas à influência digital e ocupando um espaço relevante no varejo de beleza. Depois veio o BT Skin, que também representa muito do nosso DNA de antecipação. Ele nasceu em uma época dominada por bases muito pesadas e propôs justamente o contrário: segunda pele, cobertura, conforto e ativos de skincare. E chegou com 30 tonalidades, sendo pioneiro nessa amplitude entre as bases nacionais. Foi um marco de produto, ciência, diversidade e posicionamento. Outro divisor de águas foi a nossa primeira colaboração com a Disney. Acho que ali aconteceu novamente uma mudança de percepção. Quando uma empresa como a Disney confia seu patrimônio de marca a você, existe uma validação muito forte. A BT mostrava que não era simplesmente ‘uma marca de blogueira’. Era uma empresa com estrutura, produto, branding e capacidade de trabalhar ao lado das maiores marcas do mundo. Depois disso vieram outros encontros com gigantes globais, como Coca-Cola e, mais recentemente, Netflix. E eu tenho muito orgulho de perceber quantos primeiros construímos nesse caminho. Fomos pioneiros em movimentos importantes de colaboração no mercado nacional, incluindo uma coleção completa de maquiagem com Coca-Cola no Brasil e agora uma coleção de Bridgerton. Eu sempre gostei desse lugar de inaugurar possibilidades e mostrar que uma marca brasileira pode participar das mesmas conversas culturais que as grandes marcas internacionais. O reconhecimento fora do Brasil também foi outro capítulo muito importante. Ao longo desses anos, a BT começou a aparecer em premiações, veículos, relatórios e listas internacionais. Ser citada pela Allure, por exemplo, entre marcas brasileiras com potência para o mercado internacional, além de outros reconhecimentos globais, foi muito simbólico para mim. Era o mercado de fora começando a enxergar aquilo que estávamos construindo aqui. E, sem dúvida, um dos maiores movimentos da nossa história foi a entrada no Grupo Kiss. Foi uma união com um grupo internacional presente em cerca de 100 países e representou uma nova escala para a BT. Mais do que uma operação empresarial, foi a construção de uma ponte concreta entre uma marca brasileira que nasceu no digital e uma estrutura global. A entrada em grandes varejistas, o crescimento da nossa distribuição nacional, as collabs, os reconhecimentos internacionais, a construção do BTLAB e a união com o Grupo Kiss são capítulos diferentes, mas existe algo que conecta todos eles. Talvez o maior marco desses dez anos seja justamente a nossa inquietação. A BT cresceu fazendo muitos ‘primeiros’ porque nunca quis simplesmente repetir o que já estava funcionando. Eu sempre quis olhar para o que ainda estava faltando e perguntar: por que não uma marca brasileira?
M&M: Considerando as categorias de produtos de beleza que existem no mercado, acessível, premium, luxo etc., onde você posiciona a BT nesse quadro e quais os desafios de competir nesse patamar específico?
Bruna: Eu posiciono a BT em um território de premium acessível, ou luxo acessível. Minha obsessão sempre foi entregar uma experiência que muitas vezes o consumidor associava ao produto importado, seja em fórmula, sensorialidade, design ou embalagem, mas construída a partir da realidade do consumidor brasileiro. Isso é desafiador porque existe uma equação muito complexa entre inovação, qualidade, embalagem e preço. Eu não quero que a pessoa compre um produto BT e pense que ele é bom ‘para um produto nacional’. Quero que ela coloque na bancada ao lado de qualquer produto internacional e compare de igual para igual. Ao mesmo tempo, a acessibilidade continua sendo importante. Luxo acessível, para mim, não significa apenas parecer caro. Significa democratizar códigos de qualidade, tecnologia, design e experiência que durante muito tempo ficaram restritos a determinadas faixas de preço.
M&M: Após o seu movimento com BT, outras influenciadoras e produtoras de conteúdo também desenvolveram suas marcas no mercado de beleza. Como vê esse movimento e de que forma você acha que ele fortalece tanto o segmento de influência quanto a própria indústria nacional de maquiagem?
Bruna: Eu vejo com muito orgulho. Quando comecei, praticamente nem existia essa conversa estruturada sobre ‘marca de influenciadora’. A BT nasceu em um momento em que esse modelo ainda estava sendo construído. Acho que os criadores trouxeram uma coisa muito valiosa para a indústria: proximidade radical com o consumidor. Quem produz conteúdo recebe feedback todos os dias. Sabe o que a pessoa não consegue aplicar, qual cor está faltando, o que incomoda em uma textura, quais são os desejos e as necessidades. Existe uma espécie de pesquisa de mercado acontecendo em tempo real. Quando esse conhecimento é aliado à indústria, ciência, gestão e desenvolvimento sério, ele pode gerar produtos muito relevantes. E quanto mais marcas brasileiras fortes existem, melhor para todos nós. A competição eleva a régua. Obriga a indústria a investir mais, inovar mais e olhar com mais atenção para o consumidor brasileiro. Eu não vejo o crescimento da maquiagem nacional como uma disputa por um espaço pequeno. Vejo como uma expansão desse espaço e também como um movimento que ajudou o consumidor brasileiro a valorizar cada vez mais o produto desenvolvido aqui.
M&M: Desde 2024, BT faz parte da Kiss New York, um grupo internacional. Ao mesmo tempo, você sempre destacou o compromisso de BT com a brasilidade e com a missão de refletir as demandas dos brasileiros. Como acredita que a marca vem cumprindo essa premissa, agora dentro de um grupo internacional?
Bruna: A entrada em um grupo internacional não diminuiu a brasilidade da BT. Pelo contrário, nos deu mais estrutura para mostrar essa brasilidade para o mundo. Eu continuo diretamente envolvida no produto, na criação, na gestão, no posicionamento e nas decisões estratégicas da marca. Temos uma equipe que conhece profundamente o consumidor brasileiro e o BT Innovation Lab ampliou ainda mais nossa capacidade de pesquisa, desenvolvimento e inovação. Para mim, brasilidade não significa necessariamente colocar símbolos óbvios do Brasil em uma embalagem. Ela está na maneira como entendemos pele, clima, cor, textura, comportamento e diversidade. Está também na nossa criatividade e na maneira muito particular que o brasileiro tem de se relacionar com beleza. O desafio agora é justamente esse: levar uma marca brasileira para um contexto global sem neutralizar aquilo que a torna diferente. Eu não quero que a BT precise parecer uma marca americana, europeia ou coreana para ser internacional. Quero que ela seja reconhecida globalmente justamente sendo brasileira.

Bruna Tavares: “u não quero que a BT precise parecer uma marca americana, europeia ou coreana para ser internacional. Quero que ela seja reconhecida globalmente justamente sendo brasileira” (Crédito: Divulgação)
M&M: Falando da Kiss New York, que balanço faz destes dois anos como parte dessa multinacional? Quais foram os desenvolvimentos que você acredita que BT conseguiu nesse período?
Bruna: Foi um período de muito amadurecimento. Entrar em um grupo internacional trouxe estrutura, processos, novas competências e acesso a um repertório global muito importante. Ao mesmo tempo, também exigiu de nós uma evolução como empresa. Quando você começa a pensar uma marca em uma escala maior, precisa amadurecer planejamento, cronograma, desenvolvimento, operação e visão de longo prazo. Acho que um dos maiores ganhos foi justamente conseguir unir duas forças. De um lado, a agilidade, a criatividade e a proximidade com o consumidor que sempre fizeram parte da BT. Do outro, a estrutura, a experiência e o alcance de um grupo internacional. Também conseguimos aprofundar muito o desenvolvimento do produto, fortalecer o BT Lab e preparar a marca para um próximo ciclo de crescimento. Foram dois anos de muita construção e aprendizado. E acredito que agora começamos a enxergar com ainda mais clareza o tamanho das possibilidades que essa união criou.
M&M: Desde o ano passado, BT conta com um centro de inovação. Para você, qual a importância de desenvolver e trabalhar novas tendências e conceitos em um cenário tão competitivo como o da beleza?
Bruna: Para mim, inovação é sobrevivência nesse mercado. Mas existe uma diferença importante entre acompanhar tendência e inovar. Tendência todo mundo consegue enxergar quando ela já está acontecendo. O trabalho mais interessante é perceber uma mudança antes de ela se tornar óbvia ou identificar uma necessidade para a qual ainda não existe uma solução boa. O BT Innovation Lab, que a gente chama no dia a dia de BT Lab, nos permite aprofundar exatamente esse olhar. Existe pesquisa de fórmula, pigmento, textura, sensorialidade, embalagem, tecnologia e comportamento. Eu participo muito desse processo junto ao time técnico e científico. Meu lado jornalista aparece muito nisso. Eu sou extremamente curiosa. Quero saber por que uma fórmula funciona, de onde vem uma tecnologia, o que está acontecendo em outros mercados e, principalmente, como traduzir tudo isso para o nosso consumidor. E existe também a escuta da comunidade. Muitas vezes, a inovação não começa olhando para o que todo mundo está lançando, mas percebendo uma dificuldade do consumidor, um desejo ou um gap para o qual ainda não existe uma resposta. Num mercado tão rápido e competitivo, inovação não pode ser apenas um departamento. Ela precisa ser cultura.
M&M: Mesmo como a criadora e responsável pela marca BT, você continua sendo o principal rosto do marketing da companhia. Como é equilibrar essas posições de empresária e influenciadora?
Bruna: Hoje eu entendo essas funções como complementares, mas aprendi a estabelecer limites muito mais claros entre elas.Como influenciadora, jornalista e comunicadora, continuo próxima da comunidade, produzindo conteúdo, testando produtos e ouvindo o consumidor. Isso é uma fonte de informação extremamente valiosa para mim como CEO. Mas existe outra Bruna que está dentro da empresa tomando decisões de gestão, liderando equipe, discutindo desenvolvimento, fábrica, estratégia, cronograma e posicionamento. Às vezes eu mesma preciso mudar de cadeira mentalmente. Existe a Bruna comunicadora, existe a Bruna criativa e existe a Bruna CEO. A vantagem é que poucas empresas têm uma liderança com acesso tão direto ao consumidor. Eu consigo ouvir uma demanda hoje e levar essa informação para uma discussão de produto. Isso encurta muito a distância entre quem cria e quem usa. O desafio é transformar essa proximidade em inteligência de negócio sem permitir que toda decisão seja guiada apenas pelo imediatismo das redes sociais. Como CEO, também preciso olhar para o médio e longo prazo, mesmo quando o digital está pedindo uma resposta imediata.
M&M: Quando houve a incorporação pelo Grupo Kiss New York você disse que aquele negócio era o caminho para internacionalizar a marca. Como está esse processo? Quando e por onde a BT deve chegar a outros mercados?
Bruna: A internacionalização continua sendo uma das grandes prioridades deste novo ciclo da BT e avançou muito desde a entrada no grupo. Mas eu aprendi que internacionalizar uma marca de verdade é muito diferente de simplesmente colocar um produto à venda fora do Brasil. Envolve adequação regulatória, portfólio, operação, logística, posicionamento, comunicação, distribuição e entendimento profundo de um novo consumidor. Estamos trabalhando nisso com bastante responsabilidade porque quero construir uma presença consistente, não apenas fazer uma estreia pontual. Existem movimentos importantes acontecendo e muita coisa sendo preparada nos bastidores, mas algumas informações ainda precisam permanecer por lá por enquanto (risos). O que posso dizer é que o objetivo não mudou. Quero ver uma marca brasileira ocupando espaço no mercado global pela qualidade do produto, pela inovação e pela força da sua identidade. E quero fazer isso preservando aquilo que nos trouxe até aqui, sem tentar transformar a BT em outra coisa para caber no mercado internacional.
M&M: Um dos marcos dessa trajetória de BT, sobretudo nos últimos anos, foram as collabs. Qual a importância dessas cocriações e o que elas agregam para BT? A ideia é fazer novas collabs?
Bruna: Collab, para mim, nunca foi simplesmente colocar dois logotipos na mesma embalagem. Precisa existir uma razão criativa para aquele encontro. Quando funciona, uma colaboração permite criar um terceiro universo, algo que nem a BT nem a outra marca fariam sozinhas. Ela traz repertório, novos códigos culturais, novas audiências e permite experimentar muito em produto, embalagem, sensorialidade e comunicação. A Coca-Cola foi um exemplo muito especial disso. Conseguimos traduzir códigos de uma das maiores marcas do mundo para maquiagem por meio de cor, metalização, textura, sensorialidade e memória afetiva. Existe também um ganho interno enorme, que às vezes é menos visível para o consumidor. Trabalhar com grandes marcas significa lidar com novos processos, guidelines, exigências e culturas de branding. Você aprende a criar junto sem perder sua própria identidade. A equipe termina uma grande collab mais madura do que começou. E as colaborações também ajudam a BT a romper bolhas. Você apresenta a marca para públicos que talvez ainda não tivessem contato com ela e, ao mesmo tempo, oferece um novo estímulo para a comunidade que já está com você. Novas colaborações podem acontecer, claro, mas hoje sou ainda mais criteriosa. Para fazer sentido, precisa existir uma história que realmente valha a pena contar.
M&M: É possível dar uma dimensão do faturamento de BT no ano passado e as projeções para este ano?
Bruna: Por uma questão estratégica e também por estarmos inseridos em um grupo internacional, prefiro não abrir números específicos de faturamento ou projeções. O que posso dizer é que a BT entra nessa segunda década em um momento muito sólido e, principalmente, de preparação para uma nova escala. Hoje eu olho menos para crescimento como um número isolado e mais para a qualidade desse crescimento. Distribuição, inovação, fortalecimento de marca, eficiência operacional, desenvolvimento de produto e construção de novos mercados são indicadores tão importantes quanto faturamento. Nosso foco é crescer de maneira sustentável e construir valor no longo prazo. Para mim, dez anos também trazem essa maturidade de entender que não basta crescer rápido. É preciso construir uma empresa preparada para sustentar esse crescimento.
M&M; Como espera ver sua marca nesta próxima década? Você tem, por exemplo, vontade de expandir a atuação para outras categorias, como perfumes, mais itens de skincare etc.?
Bruna: Quero que a próxima década seja ainda mais transformadora do que a primeira. E acho que estamos entrando nela justamente em um momento em que a BT começa a ampliar o significado do que pode ser uma marca de beleza. Existe, primeiro, um trabalho muito importante dentro da nossa própria casa. Estamos vivendo um processo de reposicionamento e rebranding, então uma das minhas grandes prioridades é fortalecer a linha regular da BT. Existem produtos que vão ganhar uma nova leitura, outros que estão fora do mercado e que eu quero revisitar, fórmulas que podem evoluir. Quero uma linha cada vez mais consistente e contemporânea, com muita força no ponto de venda. Isso passa também por fortalecer distribuição, trade marketing, comunicação e experiência de marca. A BT tem dez anos, mas eu quero que o consumidor entre em uma loja e sinta que está diante de uma marca extremamente atual e preparada para os próximos dez. E o Brasil continua sendo nossa prioridade. Eu tenho um compromisso muito grande com o mercado que construiu a BT e quero sentir que toda essa nova fase está muito bem consolidada aqui. Ao mesmo tempo, a internacionalização está acontecendo em paralelo. Estamos estruturando e ampliando nossa equipe internacional, inclusive com novas contratações em Nova York, e existe todo um trabalho sendo desenvolvido para preparar a marca para novos mercados. Uma coisa não anula a outra. Também quero ampliar nossa atuação em skincare. Estar hoje inserida em um grupo global com uma conexão tão próxima com a Coreia naturalmente me aproxima ainda mais do ecossistema de inovação coreano. K-beauty é uma das grandes referências mundiais em tecnologia, textura, sensorialidade e novos rituais de beleza, e uma das minhas prioridades é ir à Coreia, aprofundar essa pesquisa e começar a construir esse próximo capítulo de skincare da BT. Mas, como sempre, não quero simplesmente reproduzir o que existe lá. Quero entender essas tecnologias e esse repertório e traduzi-los com o DNA da BT e para as necessidades do nosso consumidor. Ao mesmo tempo, eu penso cada vez menos a BT restrita à maquiagem. Cabelo já começou a fazer parte desse universo, perfumaria é um território que me interessa muito e também estamos ampliando nossa presença em categorias que extrapolam a beleza tradicional. Papelaria já faz parte desse movimento e teremos também produtos ligados à viagem, como malas, bolsas e nécessaires. Porque eu comecei a perceber uma coisa que me entusiasma muito: dentro do universo de Bruna Tavares, muitas coisas podem virar BT. Desde que exista uma história, uma estética, uma função e uma razão verdadeira para a marca estar naquela categoria. E existe ainda um território que me interessa muito, que é wellness. É algo que passou a fazer cada vez mais parte da minha própria vida e, consequentemente, começou a despertar meu olhar como criadora e empresária. Não significa simplesmente colocar BT em tudo. Pelo contrário. Quanto mais a marca cresce, mais criteriosa eu quero ser sobre onde ela entra. Tenho muitos sonhos ainda. Existem colaborações que eu adoraria realizar, mercados que quero alcançar, categorias que quero explorar e experiências que ainda quero criar. Se a primeira década foi sobre construir e provar a força da BT, eu acho que a próxima será sobre expandir esse universo. E talvez esse seja hoje o meu maior sonho: descobrir até onde BT pode chegar sem nunca deixar de parecer BT.
