Lula reeleito: os principais desafios econômicos do novo mandato
Economistas apontam agenda fiscal como saída para conter endividamento e retomar o crescimento da economia brasileira

Quarto mandato de Lula começa no dia 1° de janeiro
Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, foi reeleito presidente da república do Brasil neste domingo, 25, no segundo turno da eleição de 2026, vencendo o senador Flávio Bolsonaro, do PL. Com 99,8% das urnas apuradas, menos de dois pontos percentuais separavam os dois candidatos: Lula tinha 51,76% dos votos válidos e Flávio, 48,24%.
O quarto mandato de Lula começa no dia 5 de janeiro com diversos desafios econômicos, como debatido pelas economistas Solange Srour, diretora e head de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, e Ana Paula Vescovi, ex-secretária do Tesouro Nacional, entrevistadas durante o Maximídia, às vésperas do primeiro turno das eleições, no início do mês.
Segundo elas, o endividamento em patamares históricos e o comprometimento do crédito já vinham resultando em um contexto de desaceleração econômica. Além das expectativas pré-eleitorais, o atual cenário foi construído, em grande parte, a partir do acúmulo de uma política monetária restritiva, apesar dos incentivos fiscais.
As empresas, por sua vez, encaram desafios na administração de fluxos de caixa em meio aos juros elevados, motivados pelas mudanças da configuração geopolítica e econômica.
Ambas as economistas defenderam um ajuste fiscal antes que a economia atinja seu ponto crítico. “Algum freio de arrumação vai acontecer. É melhor que seja antes, em uma dose necessária, do que em meio à obrigação de agir às pressas em função de algum choque exógeno, cada vez mais recorrente na economia global. Isso custa mais caro”, detalhou Vescovi.
Nos últimos anos, o Brasil viveu um cenário internacional favorável, em que eventos como guerras e a tentativa de interferência no FED, nos Estados Unidos, enfraqueceram o dólar e estabilizaram a moeda local, por exemplo. A aceleração da alta dos juros globalmente, contudo, é sinal de alerta para ações mais urgentes, avaliou a head do UBS.
Ainda que não veja medidas imediatas em indicadores de confiança, crédito ou renda após as eleições, Srour reforçou a importância da natureza das propostas do próximo presidente. “Os juros parados trarão, provavelmente, uma parada da oferta de crédito. Com o mercado de trabalho já desacelerando, podem até ser uma força adicional dessa desaceleração”, apostou.
A ex-secretária do Tesouro Nacional apontou para a necessidade de que o ajuste das contas públicas esteja no centro das expectativas — a dívida brasileira alcançou a casa dos R$ 11 trilhões –, acompanhado do uso eficiente dos recursos públicos, regulação e mais previsibilidade e segurança jurídica. A reforma deverá contemplar, ainda, a adaptação às novas dinâmicas de trabalho e a tendência de envelhecimento da população, especialmente em um momento de escrutínio da previdência pública.
Caso bem conduzido, prevê Vescovi, o ajuste levaria a um cenário semelhante ao da estabilização monetária que o Brasil viu em 1998 e 2002, ao recuperar um tripé macroeconômico mais organizado, conseguindo ajustar o Produto Interno Bruto (PIB) na casa dos 3%.
Uma possível derrubada dos juros e alívio no crédito, sustentam as economistas, favoreceria a retomada do consumo, que representa mais de dois terços da economia brasileira. Além disso, varejistas locais vêm atuando em meio a um ambiente complexo diante da investida massiva de players internacionais.
Uma alternativa eficaz ao fechamento da economia ou da imposição de barreiras, segundo a diretora do UBS, seria o aumento da produtividade das empresas, sobretudo diante da insegurança nas instituições afetando a atração de investimentos.